Por Jânsen Leiros Jr.
A educação deveria ser o alicerce do pensamento crítico, do
questionamento e da autonomia intelectual. No entanto, ao longo das décadas,
tornou-se uma engrenagem que reproduz conformismo e superficialidade, moldando
indivíduos para a aceitação passiva da mediocridade. A função essencial do
ensino foi progressivamente esvaziada e substituída por uma lógica produtivista
e mercadológica, onde o importante não é aprender, mas apenas passar de ano e
obter certificados. Esse movimento de desvalorização do aprendizado real
reflete uma sociedade que, cada vez mais, prioriza a conveniência e a agilidade
sobre a profundidade e o conteúdo substancial.
O filósofo John Dewey, na defesa de uma educação baseada na
experimentação e no pensamento independente, alertava sobre os riscos de um
ensino que apenas despeja informações sem promover a reflexão. A escola
moderna, em vez de ser um espaço de formação do intelecto, tornou-se uma
instituição burocrática que trata o aprendizado como uma linha de montagem. A
padronização excessiva dos conteúdos e das métricas de avaliação sufoca
qualquer tentativa de desenvolvimento individual, tornando os alunos
consumidores passivos de conteúdo. Isso se reflete, por exemplo, na forma como
a avaliação se tornou uma mera formalidade, distante de um real exercício de
conhecimento crítico.
O pensador Paulo Freire, por sua vez, denunciou o que chamava de
"educação bancária", na qual o aluno é tratado como um recipiente
vazio, que deve ser preenchido com informação e depois avaliado por sua
capacidade de reproduzi-la. Esse modelo, ao invés de estimular o pensamento
crítico e a criatividade, gera uma massa de indivíduos treinados para obedecer
sem questionar, aceitando verdades prontas e evitando o esforço intelectual
necessário para compreensão real do mundo. A educação não se limita à mera
transmissão de saberes, mas deve ser um processo dinâmico, que fomente a
curiosidade e a capacidade de estabelecer relações entre as informações adquiridas.
O Ensino como Ferramenta de Massificação
A degradação da educação não ocorre por acaso. O sociólogo Pierre
Bourdieu destacou como os sistemas educacionais perpetuam as estruturas de
poder e reproduzem desigualdades sociais. No modelo atual, alunos de elite têm
acesso a uma formação diferenciada, com conteúdos, metodologias e estímulos que
desenvolvem pensamento crítico e autonomia. Enquanto isso, a maioria da
população recebe um ensino padronizado, superficial e voltado mais para a
conformidade do que para a reflexão. Essa lógica não apenas limita a ascensão
social, mas fortalece a manutenção do status quo, garantindo que a elite
intelectual e econômica continue no controle. A educação, portanto, se torna um
mecanismo para reproduzir as diferenças sociais em vez de uma ferramenta para
questioná-las.
O problema se agrava com a concepção generalizada de que ter um diploma
é mais importante do que realmente adquirir conhecimento. A massificação do
ensino superior, embora tenha democratizado o acesso à educação formal, também
deu origem a um mercado de ensino voltado para o volume, e não para a
qualidade. Muitas instituições se tornaram verdadeiros despachantes de
diplomas, oferecendo cursos com currículos genéricos e pouco desafiadores, cujo
principal objetivo é garantir que o maior número possível de alunos obtenha
certificação, independentemente de sua real capacitação. Isso tem implicações
diretas no mercado de trabalho, criando uma falsa sensação de competência onde
ela não existe, além de contribuir para a produção de um saber superficial, sem
bases teóricas sólidas.
O filósofo Theodor Adorno, ao analisar a sociedade da cultura de massa,
já alertava para o perigo de uma educação que, em vez de libertar, condiciona o
indivíduo a um pensamento raso e conformista. A ausência de um ensino voltado
para o debate e a análise crítica resulta em profissionais tecnicamente
capacitados, mas intelectualmente limitados. Forma-se assim uma massa de
indivíduos que, apesar de possuírem diplomas, não desenvolvem a capacidade de
questionar, inovar ou problematizar o mundo ao seu redor. Nesse contexto, o
conceito de "meritocracia", quando mal interpretado, se torna uma
armadilha, pois supõe que a educação de massa seja suficiente para garantir
oportunidades para todos, quando, na realidade, ela oferece um produto educacional
homogêneo, sem o diferencial necessário para o verdadeiro mérito.
Esse cenário também leva à ilusão da meritocracia, onde o simples fato
de possuir um diploma passa a ser visto como um símbolo de competência. No
entanto, sem um ensino que verdadeiramente estimule a autonomia intelectual, o
diploma se torna um artefato vazio, criando um ciclo de mediocridade
institucionalizada. O que antes era um espaço de questionamento e pesquisa – a
universidade – se transforma, em muitos casos, em uma linha de produção de
graduados sem substância. Como bem observou Hannah Arendt, a educação tem o
papel de introduzir as novas gerações no mundo do pensamento e da
responsabilidade. Mas, quando falha nessa missão, gera indivíduos que
simplesmente reproduzem discursos e práticas sem compreender sua profundidade
ou implicações.
O resultado dessa deterioração é um mercado de trabalho repleto de
profissionais que seguem roteiros preestabelecidos, mas que raramente
demonstram criatividade, pensamento independente ou capacidade de inovação.
Empresas e instituições, por sua vez, acabam se adaptando a essa realidade,
priorizando a obediência a regras e a execução mecânica de tarefas em
detrimento da reflexão e da busca por soluções originais. Assim, a mediocridade
se perpetua, reforçada por um modelo educacional que mais forma consumidores do
que cidadãos críticos.
Se a educação é, de fato, o motor do progresso, é preciso questionar:
qual educação?
O modelo atual, muitas vezes, mais apaga do que ilumina, mais conforma
do que emancipa. A questão não é apenas oferecer acesso à escola ou à
universidade, mas garantir que esses espaços sejam verdadeiramente formadores
de indivíduos capazes de pensar por si mesmos. Afinal, uma sociedade que não
exige excelência intelectual de seus cidadãos está fadada a ser governada por
discursos fáceis, soluções superficiais e líderes medíocres.
O Ensino Como Ferramenta de Doutrinação
Além da deterioração dos padrões acadêmicos e da resistência ao esforço
intelectual, um dos fatores mais graves da crise educacional é o aparelhamento
ideológico do ensino. Historicamente, os sistemas educacionais têm sido
utilizados como instrumentos de formação de pensamento, o que, por si só, não é
um problema. Afinal, a educação deve estimular a consciência crítica, fornecer
repertório cultural e preparar o indivíduo para interpretar a realidade de
maneira independente. O problema surge quando a escola deixa de ser um espaço
de aprendizado plural e se torna um mecanismo de doutrinação, onde apenas uma
visão de mundo é apresentada como legítima, enquanto outras são silenciadas ou
ridicularizadas.
Esse fenômeno ocorre em diferentes momentos históricos e sob diversos
espectros ideológicos. Tanto regimes autoritários de esquerda quanto de direita
compreenderam o poder da educação como um meio de moldar mentalidades e
controlar narrativas. Em sistemas totalitários, o ensino foi amplamente
utilizado para fabricar consenso, deslegitimar opositores e transformar
instituições acadêmicas em fábricas de militância. Mesmo em democracias, a
politização excessiva das escolas e universidades pode levar à substituição do
pensamento crítico pelo pensamento alinhado, onde o estudante não é estimulado
a questionar, mas sim a reproduzir dogmas.
A captura ideológica da educação pode se manifestar de diversas formas:
na seleção enviesada de conteúdos históricos e filosóficos, na ênfase em pautas
políticas específicas em detrimento de outras e, principalmente, na pressão
sobre professores e alunos para que adotem determinada postura ideológica.
Quando a sala de aula se torna um palco de ativismo, em vez de um ambiente de
debate livre e aprofundado, a qualidade do ensino sofre, pois a busca pela
verdade é substituída pela imposição de crenças.
O filósofo Karl Popper alertava para os perigos do pensamento dogmático,
que, ao eliminar o contraditório, cria uma sociedade intelectualmente frágil e
incapaz de progresso real. Em uma educação verdadeiramente livre, os alunos não
devem ser forçados a aceitar respostas prontas, mas sim incentivados a formular
suas próprias questões. Se há um monopólio de ideias dentro do ensino, a
diversidade intelectual desaparece, e com ela, a própria essência do
aprendizado crítico.
O combate à doutrinação educacional não significa eliminar discussões
políticas das escolas e universidades, mas garantir que essas discussões sejam
diversas, equilibradas e baseadas em argumentação sólida. A pluralidade de pensamento deve ser incentivada, permitindo que alunos
avaliem diferentes perspectivas, questionem premissas e desenvolvam suas
próprias convicções, sem coerção ou intimidação. O ensino de qualidade não está
na defesa de uma ideologia específica, mas no compromisso inegociável com a
verdade, a liberdade de pensamento e o rigor intelectual.
Se a educação continuar sendo instrumentalizada como ferramenta de poder
político, o resultado será uma sociedade intelectualmente atrofiada, incapaz de
dialogar e refém de discursos extremistas. A única solução para isso é resgatar
a autonomia do pensamento, fortalecer o ensino baseado na lógica e no
conhecimento sólido, e blindar as instituições acadêmicas contra interferências
ideológicas que distorcem sua verdadeira missão. A educação não pode ser um
campo de batalha entre ideologias opostas; deve ser um território de liberdade,
onde o conhecimento é perseguido sem amarras e a verdade é um fim em si mesma.
A Resistência à Exigência e o Medo do Esforço
A mediocridade educacional também se manifesta na rejeição ao esforço e
na infantilização dos alunos. O escritor Allan Bloom, em O Declínio
da Cultura Ocidental, aponta que o ensino se transformou em uma tentativa
de agradar os estudantes, evitando frustrações e desafios que os forçariam a
crescer intelectualmente. Esse fenômeno reflete uma mudança profunda na
concepção da educação: ao invés de ser um processo de amadurecimento e
superação, passou a ser um espaço de conforto e gratificação imediata.
Essa aversão à dificuldade gerou uma cultura educacional na qual qualquer
forma de cobrança é rapidamente rotulada como opressão. A excelência
acadêmica, que deveria ser incentivada, muitas vezes é vista com desconfiança. Professores
que exigem mais dos alunos são tachados de antiquados ou autoritários;
estudantes que demonstram interesse genuíno pelo aprendizado são
ridicularizados pelos próprios colegas. O resultado é um ambiente de ensino
onde se busca nivelar todos por baixo, rebaixando padrões e mascarando
deficiências para que todos "pareçam" estar aprendendo – quando, na
verdade, estão apenas sendo conduzidos mecanicamente pelo sistema.
O sociólogo Zygmunt Bauman, ao tratar da modernidade líquida,
enfatiza que a superficialidade domina não só a cultura, mas também a educação.
O aprendizado se tornou descartável, adaptando-se a um mundo onde a
informação é abundante, mas a compreensão é rasa. O estudante de hoje tem
acesso a uma infinidade de dados na palma da mão, mas raramente é incentivado a
desenvolver a capacidade de análise e síntese. O raciocínio lógico, a
memorização e a conexão entre os saberes foram substituídas por um consumo
passivo de informações fragmentadas, que logo são esquecidas.
Esse empobrecimento intelectual gera indivíduos que, apesar de
tecnicamente alfabetizados, são incapazes de estruturar um pensamento
complexo, argumentar com profundidade ou sustentar um raciocínio elaborado.
O temor ao esforço se manifesta não apenas na sala de aula, mas também no
mercado de trabalho e na sociedade em geral. O culto ao imediatismo e à
gratificação instantânea faz com que cada vez menos pessoas estejam dispostas a
se dedicar ao aprendizado real, que exige tempo, paciência e persistência.
Esse fenômeno tem consequências severas. A falta de uma cultura de
exigência acadêmica resulta em uma sociedade incapaz de lidar com a
complexidade do mundo moderno. Questões políticas, econômicas e sociais são
reduzidas a slogans vazios, discursos simplistas e polarizações extremas. A
ausência do hábito de refletir e argumentar faz com que indivíduos se tornem
presas fáceis para narrativas manipuladoras e soluções fáceis que, na prática,
apenas amplificam os problemas.
Se a educação tem como objetivo preparar cidadãos para atuar de forma
crítica e ativa no mundo, é fundamental resgatar o valor do esforço e da
exigência. Aprender é um processo que envolve desconforto, desafios e,
muitas vezes, frustração. Mas é justamente essa jornada que leva ao verdadeiro
crescimento intelectual. Sem a disposição para enfrentar dificuldades, a
sociedade se torna um espaço de mediocridade, onde a comodidade e a
superficialidade triunfam sobre a excelência e o pensamento crítico.
A Urgência da Mudança
Se a educação continuar sendo essa fábrica de mediocridade, formaremos
gerações incapazes de questionar, inovar e transformar a sociedade. A
consequência desse processo não se limita apenas à esfera acadêmica, mas atinge
diretamente a política, a economia e a cultura. Indivíduos que não foram
treinados para pensar criticamente tornam-se alvos fáceis para discursos
manipuladores, incapazes de identificar falácias e vulneráveis à desinformação.
O conformismo se instala, e uma sociedade incapaz de refletir sobre si mesma
perde o rumo, tornando-se refém de soluções simplistas para problemas
complexos.
O resgate da educação passa, antes de tudo, pela valorização da
exigência acadêmica, da autonomia intelectual e da busca pela verdade. Isso
significa romper com a mentalidade do ensino como mero cumprimento de protocolos
burocráticos e retomar o compromisso com a formação de indivíduos
verdadeiramente preparados para a realidade. Uma educação de qualidade não
pode ter como objetivo apenas a aprovação em exames ou a obtenção de diplomas,
mas sim a formação de cidadãos capazes de pensar, argumentar e agir com
responsabilidade e discernimento.
Os modelos educacionais precisam ser reformulados para estimular a
criatividade, a argumentação e o aprofundamento real do conhecimento. Em
vez de adestrar alunos a decorar conteúdos, sem necessariamente compreendê-los,
as escolas e universidades devem incentivar o pensamento independente, o debate
fundamentado e a busca ativa por respostas. Aprender não pode ser um ato
passivo, mas sim um processo dinâmico e desafiador, que exige investigação,
análise e espírito crítico. Para isso, é essencial que os professores
tenham liberdade e recursos para desenvolver métodos de ensino que promovam a
reflexão e o questionamento, em vez de apenas cumprir currículos engessados e
politicamente controlados.
Além disso, devemos resgatar a noção de que o aprendizado exige esforço,
dedicação e, acima de tudo, paixão pela verdade. O conhecimento não pode
ser tratado como um produto de consumo rápido, mas sim como uma conquista que
demanda tempo e empenho. É preciso ensinar desde cedo que a excelência não
nasce do conforto, mas do enfrentamento dos desafios, do erro como aprendizado
e da persistência diante das dificuldades. O medo do fracasso, quando bem
orientado, pode ser um motor para o crescimento, e não uma justificativa para
rebaixar padrões.
A
transformação da educação de um sistema de conformismo em uma forja de
mentes brilhantes e questionadoras depende, portanto, de um esforço
coletivo. Pais, professores, alunos e formuladores de políticas públicas
precisam abandonar a ilusão de que aprendizado pode ser fácil, rápido ou
indolor. Somente quando a sociedade como um todo voltar a valorizar a
educação não como um direito automático, mas como um privilégio a ser
conquistado com esforço e dedicação, será possível reverter essa espiral de
mediocridade. O desafio é imenso, mas o futuro depende disso, e isso de nossa
conscientização coletiva.