sábado, 15 de março de 2025

Um Novo Slogan para um novo blog


Ao longo dos anos, meu blog tem sido um espaço para reflexões, análises e discussões sobre os mais diversos temas que nos cercam. Comecei com a ideia de “passear pelo mundo aparente”, explorando aquilo que é visível e perceptível. No entanto, percebi que minha escrita vai além da superfície — ela mergulha na essência dos fatos, buscando sentido, coerência e compreensão mais profunda.

Por isso, hoje apresento o novo slogan do Blog do Jânsen Leiros:

“Entre fé, razão e sociedade”

Esse slogan traduz melhor o propósito deste espaço. Aqui, transitamos entre a espiritualidade e a lógica, entre a filosofia e os acontecimentos do mundo, entre a reflexão teológica e as dinâmicas da sociedade. A fé nos dá direção, a razão nos desafia a pensar, e a sociedade nos apresenta as realidades que precisamos compreender e questionar.

Seja você um leitor antigo ou alguém que está chegando agora, convido a continuar essa jornada comigo. Vamos refletir, debater e buscar, juntos, um olhar mais profundo sobre o que realmente importa.

Seja bem-vindo ao Blog do Jânsen Leiros – Entre fé, razão e sociedade.

quinta-feira, 6 de março de 2025

Educação e Mediocridade: Quando o Ensino Deixa de Transformar

 

Por Jânsen Leiros Jr.

A educação deveria ser o alicerce do pensamento crítico, do questionamento e da autonomia intelectual. No entanto, ao longo das décadas, tornou-se uma engrenagem que reproduz conformismo e superficialidade, moldando indivíduos para a aceitação passiva da mediocridade. A função essencial do ensino foi progressivamente esvaziada e substituída por uma lógica produtivista e mercadológica, onde o importante não é aprender, mas apenas passar de ano e obter certificados. Esse movimento de desvalorização do aprendizado real reflete uma sociedade que, cada vez mais, prioriza a conveniência e a agilidade sobre a profundidade e o conteúdo substancial.

O filósofo John Dewey, na defesa de uma educação baseada na experimentação e no pensamento independente, alertava sobre os riscos de um ensino que apenas despeja informações sem promover a reflexão. A escola moderna, em vez de ser um espaço de formação do intelecto, tornou-se uma instituição burocrática que trata o aprendizado como uma linha de montagem. A padronização excessiva dos conteúdos e das métricas de avaliação sufoca qualquer tentativa de desenvolvimento individual, tornando os alunos consumidores passivos de conteúdo. Isso se reflete, por exemplo, na forma como a avaliação se tornou uma mera formalidade, distante de um real exercício de conhecimento crítico.

O pensador Paulo Freire, por sua vez, denunciou o que chamava de "educação bancária", na qual o aluno é tratado como um recipiente vazio, que deve ser preenchido com informação e depois avaliado por sua capacidade de reproduzi-la. Esse modelo, ao invés de estimular o pensamento crítico e a criatividade, gera uma massa de indivíduos treinados para obedecer sem questionar, aceitando verdades prontas e evitando o esforço intelectual necessário para compreensão real do mundo. A educação não se limita à mera transmissão de saberes, mas deve ser um processo dinâmico, que fomente a curiosidade e a capacidade de estabelecer relações entre as informações adquiridas.

O Ensino como Ferramenta de Massificação

A degradação da educação não ocorre por acaso. O sociólogo Pierre Bourdieu destacou como os sistemas educacionais perpetuam as estruturas de poder e reproduzem desigualdades sociais. No modelo atual, alunos de elite têm acesso a uma formação diferenciada, com conteúdos, metodologias e estímulos que desenvolvem pensamento crítico e autonomia. Enquanto isso, a maioria da população recebe um ensino padronizado, superficial e voltado mais para a conformidade do que para a reflexão. Essa lógica não apenas limita a ascensão social, mas fortalece a manutenção do status quo, garantindo que a elite intelectual e econômica continue no controle. A educação, portanto, se torna um mecanismo para reproduzir as diferenças sociais em vez de uma ferramenta para questioná-las.

O problema se agrava com a concepção generalizada de que ter um diploma é mais importante do que realmente adquirir conhecimento. A massificação do ensino superior, embora tenha democratizado o acesso à educação formal, também deu origem a um mercado de ensino voltado para o volume, e não para a qualidade. Muitas instituições se tornaram verdadeiros despachantes de diplomas, oferecendo cursos com currículos genéricos e pouco desafiadores, cujo principal objetivo é garantir que o maior número possível de alunos obtenha certificação, independentemente de sua real capacitação. Isso tem implicações diretas no mercado de trabalho, criando uma falsa sensação de competência onde ela não existe, além de contribuir para a produção de um saber superficial, sem bases teóricas sólidas.

O filósofo Theodor Adorno, ao analisar a sociedade da cultura de massa, já alertava para o perigo de uma educação que, em vez de libertar, condiciona o indivíduo a um pensamento raso e conformista. A ausência de um ensino voltado para o debate e a análise crítica resulta em profissionais tecnicamente capacitados, mas intelectualmente limitados. Forma-se assim uma massa de indivíduos que, apesar de possuírem diplomas, não desenvolvem a capacidade de questionar, inovar ou problematizar o mundo ao seu redor. Nesse contexto, o conceito de "meritocracia", quando mal interpretado, se torna uma armadilha, pois supõe que a educação de massa seja suficiente para garantir oportunidades para todos, quando, na realidade, ela oferece um produto educacional homogêneo, sem o diferencial necessário para o verdadeiro mérito.

Esse cenário também leva à ilusão da meritocracia, onde o simples fato de possuir um diploma passa a ser visto como um símbolo de competência. No entanto, sem um ensino que verdadeiramente estimule a autonomia intelectual, o diploma se torna um artefato vazio, criando um ciclo de mediocridade institucionalizada. O que antes era um espaço de questionamento e pesquisa – a universidade – se transforma, em muitos casos, em uma linha de produção de graduados sem substância. Como bem observou Hannah Arendt, a educação tem o papel de introduzir as novas gerações no mundo do pensamento e da responsabilidade. Mas, quando falha nessa missão, gera indivíduos que simplesmente reproduzem discursos e práticas sem compreender sua profundidade ou implicações.

O resultado dessa deterioração é um mercado de trabalho repleto de profissionais que seguem roteiros preestabelecidos, mas que raramente demonstram criatividade, pensamento independente ou capacidade de inovação. Empresas e instituições, por sua vez, acabam se adaptando a essa realidade, priorizando a obediência a regras e a execução mecânica de tarefas em detrimento da reflexão e da busca por soluções originais. Assim, a mediocridade se perpetua, reforçada por um modelo educacional que mais forma consumidores do que cidadãos críticos.

Se a educação é, de fato, o motor do progresso, é preciso questionar: qual educação?

O modelo atual, muitas vezes, mais apaga do que ilumina, mais conforma do que emancipa. A questão não é apenas oferecer acesso à escola ou à universidade, mas garantir que esses espaços sejam verdadeiramente formadores de indivíduos capazes de pensar por si mesmos. Afinal, uma sociedade que não exige excelência intelectual de seus cidadãos está fadada a ser governada por discursos fáceis, soluções superficiais e líderes medíocres.

O Ensino Como Ferramenta de Doutrinação

Além da deterioração dos padrões acadêmicos e da resistência ao esforço intelectual, um dos fatores mais graves da crise educacional é o aparelhamento ideológico do ensino. Historicamente, os sistemas educacionais têm sido utilizados como instrumentos de formação de pensamento, o que, por si só, não é um problema. Afinal, a educação deve estimular a consciência crítica, fornecer repertório cultural e preparar o indivíduo para interpretar a realidade de maneira independente. O problema surge quando a escola deixa de ser um espaço de aprendizado plural e se torna um mecanismo de doutrinação, onde apenas uma visão de mundo é apresentada como legítima, enquanto outras são silenciadas ou ridicularizadas.

Esse fenômeno ocorre em diferentes momentos históricos e sob diversos espectros ideológicos. Tanto regimes autoritários de esquerda quanto de direita compreenderam o poder da educação como um meio de moldar mentalidades e controlar narrativas. Em sistemas totalitários, o ensino foi amplamente utilizado para fabricar consenso, deslegitimar opositores e transformar instituições acadêmicas em fábricas de militância. Mesmo em democracias, a politização excessiva das escolas e universidades pode levar à substituição do pensamento crítico pelo pensamento alinhado, onde o estudante não é estimulado a questionar, mas sim a reproduzir dogmas.

A captura ideológica da educação pode se manifestar de diversas formas: na seleção enviesada de conteúdos históricos e filosóficos, na ênfase em pautas políticas específicas em detrimento de outras e, principalmente, na pressão sobre professores e alunos para que adotem determinada postura ideológica. Quando a sala de aula se torna um palco de ativismo, em vez de um ambiente de debate livre e aprofundado, a qualidade do ensino sofre, pois a busca pela verdade é substituída pela imposição de crenças.

O filósofo Karl Popper alertava para os perigos do pensamento dogmático, que, ao eliminar o contraditório, cria uma sociedade intelectualmente frágil e incapaz de progresso real. Em uma educação verdadeiramente livre, os alunos não devem ser forçados a aceitar respostas prontas, mas sim incentivados a formular suas próprias questões. Se há um monopólio de ideias dentro do ensino, a diversidade intelectual desaparece, e com ela, a própria essência do aprendizado crítico.

O combate à doutrinação educacional não significa eliminar discussões políticas das escolas e universidades, mas garantir que essas discussões sejam diversas, equilibradas e baseadas em argumentação sólida. A pluralidade de pensamento deve ser incentivada, permitindo que alunos avaliem diferentes perspectivas, questionem premissas e desenvolvam suas próprias convicções, sem coerção ou intimidação. O ensino de qualidade não está na defesa de uma ideologia específica, mas no compromisso inegociável com a verdade, a liberdade de pensamento e o rigor intelectual.

Se a educação continuar sendo instrumentalizada como ferramenta de poder político, o resultado será uma sociedade intelectualmente atrofiada, incapaz de dialogar e refém de discursos extremistas. A única solução para isso é resgatar a autonomia do pensamento, fortalecer o ensino baseado na lógica e no conhecimento sólido, e blindar as instituições acadêmicas contra interferências ideológicas que distorcem sua verdadeira missão. A educação não pode ser um campo de batalha entre ideologias opostas; deve ser um território de liberdade, onde o conhecimento é perseguido sem amarras e a verdade é um fim em si mesma.

A Resistência à Exigência e o Medo do Esforço

A mediocridade educacional também se manifesta na rejeição ao esforço e na infantilização dos alunos. O escritor Allan Bloom, em O Declínio da Cultura Ocidental, aponta que o ensino se transformou em uma tentativa de agradar os estudantes, evitando frustrações e desafios que os forçariam a crescer intelectualmente. Esse fenômeno reflete uma mudança profunda na concepção da educação: ao invés de ser um processo de amadurecimento e superação, passou a ser um espaço de conforto e gratificação imediata.

Essa aversão à dificuldade gerou uma cultura educacional na qual qualquer forma de cobrança é rapidamente rotulada como opressão. A excelência acadêmica, que deveria ser incentivada, muitas vezes é vista com desconfiança. Professores que exigem mais dos alunos são tachados de antiquados ou autoritários; estudantes que demonstram interesse genuíno pelo aprendizado são ridicularizados pelos próprios colegas. O resultado é um ambiente de ensino onde se busca nivelar todos por baixo, rebaixando padrões e mascarando deficiências para que todos "pareçam" estar aprendendo – quando, na verdade, estão apenas sendo conduzidos mecanicamente pelo sistema.

O sociólogo Zygmunt Bauman, ao tratar da modernidade líquida, enfatiza que a superficialidade domina não só a cultura, mas também a educação. O aprendizado se tornou descartável, adaptando-se a um mundo onde a informação é abundante, mas a compreensão é rasa. O estudante de hoje tem acesso a uma infinidade de dados na palma da mão, mas raramente é incentivado a desenvolver a capacidade de análise e síntese. O raciocínio lógico, a memorização e a conexão entre os saberes foram substituídas por um consumo passivo de informações fragmentadas, que logo são esquecidas.

Esse empobrecimento intelectual gera indivíduos que, apesar de tecnicamente alfabetizados, são incapazes de estruturar um pensamento complexo, argumentar com profundidade ou sustentar um raciocínio elaborado. O temor ao esforço se manifesta não apenas na sala de aula, mas também no mercado de trabalho e na sociedade em geral. O culto ao imediatismo e à gratificação instantânea faz com que cada vez menos pessoas estejam dispostas a se dedicar ao aprendizado real, que exige tempo, paciência e persistência.

Esse fenômeno tem consequências severas. A falta de uma cultura de exigência acadêmica resulta em uma sociedade incapaz de lidar com a complexidade do mundo moderno. Questões políticas, econômicas e sociais são reduzidas a slogans vazios, discursos simplistas e polarizações extremas. A ausência do hábito de refletir e argumentar faz com que indivíduos se tornem presas fáceis para narrativas manipuladoras e soluções fáceis que, na prática, apenas amplificam os problemas.

Se a educação tem como objetivo preparar cidadãos para atuar de forma crítica e ativa no mundo, é fundamental resgatar o valor do esforço e da exigência. Aprender é um processo que envolve desconforto, desafios e, muitas vezes, frustração. Mas é justamente essa jornada que leva ao verdadeiro crescimento intelectual. Sem a disposição para enfrentar dificuldades, a sociedade se torna um espaço de mediocridade, onde a comodidade e a superficialidade triunfam sobre a excelência e o pensamento crítico.

A Urgência da Mudança

Se a educação continuar sendo essa fábrica de mediocridade, formaremos gerações incapazes de questionar, inovar e transformar a sociedade. A consequência desse processo não se limita apenas à esfera acadêmica, mas atinge diretamente a política, a economia e a cultura. Indivíduos que não foram treinados para pensar criticamente tornam-se alvos fáceis para discursos manipuladores, incapazes de identificar falácias e vulneráveis à desinformação. O conformismo se instala, e uma sociedade incapaz de refletir sobre si mesma perde o rumo, tornando-se refém de soluções simplistas para problemas complexos.

O resgate da educação passa, antes de tudo, pela valorização da exigência acadêmica, da autonomia intelectual e da busca pela verdade. Isso significa romper com a mentalidade do ensino como mero cumprimento de protocolos burocráticos e retomar o compromisso com a formação de indivíduos verdadeiramente preparados para a realidade. Uma educação de qualidade não pode ter como objetivo apenas a aprovação em exames ou a obtenção de diplomas, mas sim a formação de cidadãos capazes de pensar, argumentar e agir com responsabilidade e discernimento.

Os modelos educacionais precisam ser reformulados para estimular a criatividade, a argumentação e o aprofundamento real do conhecimento. Em vez de adestrar alunos a decorar conteúdos, sem necessariamente compreendê-los, as escolas e universidades devem incentivar o pensamento independente, o debate fundamentado e a busca ativa por respostas. Aprender não pode ser um ato passivo, mas sim um processo dinâmico e desafiador, que exige investigação, análise e espírito crítico. Para isso, é essencial que os professores tenham liberdade e recursos para desenvolver métodos de ensino que promovam a reflexão e o questionamento, em vez de apenas cumprir currículos engessados e politicamente controlados.

Além disso, devemos resgatar a noção de que o aprendizado exige esforço, dedicação e, acima de tudo, paixão pela verdade. O conhecimento não pode ser tratado como um produto de consumo rápido, mas sim como uma conquista que demanda tempo e empenho. É preciso ensinar desde cedo que a excelência não nasce do conforto, mas do enfrentamento dos desafios, do erro como aprendizado e da persistência diante das dificuldades. O medo do fracasso, quando bem orientado, pode ser um motor para o crescimento, e não uma justificativa para rebaixar padrões.

            A transformação da educação de um sistema de conformismo em uma forja de mentes brilhantes e questionadoras depende, portanto, de um esforço coletivo. Pais, professores, alunos e formuladores de políticas públicas precisam abandonar a ilusão de que aprendizado pode ser fácil, rápido ou indolor. Somente quando a sociedade como um todo voltar a valorizar a educação não como um direito automático, mas como um privilégio a ser conquistado com esforço e dedicação, será possível reverter essa espiral de mediocridade. O desafio é imenso, mas o futuro depende disso, e isso de nossa conscientização coletiva.