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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A fé no paredão e a democracia de conveniência

 

Por Jânsen Leiros Jr.

Há algo de profundamente inquietante acontecendo no debate público brasileiro. Não é apenas polarização. Polarização é sintoma. O que se observa é algo mais grave: a naturalização de um discurso que condiciona direitos políticos à conformidade ideológica.

E, curiosamente — ou nem tanto — o alvo recorrente tem sido o segmento evangélico.

Não se trata aqui de blindar igrejas, lideranças religiosas ou qualquer grupo social de críticas legítimas. Democracia não é imunidade moral. Democracia é tensão administrada. O problema começa quando a crítica se converte em desqualificação estrutural da cidadania.

Quando um intelectual sugere — ainda que em tom de “provocação” — que evangélicos não deveriam votar porque não escolhem seus pastores por sufrágio universal, não estamos diante de humor refinado. Estamos diante de um argumento perigosamente autoritário.

A lógica implícita é simples e assustadora:

Se a estrutura interna de sua comunidade não é democrática nos moldes iluministas, você não está apto à democracia política.

Ora, essa régua não sobreviveria cinco minutos se aplicada a qualquer outro grupo cultural ou religioso. Nenhuma tradição espiritual organiza sua liderança por referendo popular. Nem o Vaticano, nem o candomblé, nem o budismo tibetano. E nem por isso se questiona o direito de seus fiéis votarem.

O que está em jogo, portanto, não é coerência teórica. É seletividade moral.

E seletividade moral é o primeiro degrau da exclusão política.

O Estado é Laico. O Cidadão, Não.

Há uma confusão recorrente — e convenientemente estimulada — entre laicidade do Estado e neutralização do indivíduo.

O Estado não tem religião.

O cidadão tem.

O Estado não professa fé.

O cidadão vota segundo consciência.

A Constituição brasileira garante liberdade religiosa e liberdade de voto. Não estabelece hierarquia entre convicções filosóficas, religiosas ou ateias. A ideia de que valores religiosos desqualificam o voto é uma forma elegante de censura moral.

John Locke, ao escrever sobre tolerância, defendia que o Estado não deveria interferir na consciência individual porque a consciência não é território administrativo. Quando se começa a sugerir que determinadas convicções tornam alguém politicamente suspeito, estamos ultrapassando Locke e nos aproximando de algo muito menos iluminado.

Assistência Social Não É Dívida Eleitoral

A segunda camada da questão é ainda mais delicada.

Quando um chefe do Executivo afirma, em tom combativo, que determinado grupo “recebe benefícios do governo” e, na mesma linha, convoca sua base a confrontar e “escrachar” críticas vindas desse segmento, há uma mensagem implícita que não pode ser ignorada:

O benefício social passa a ser narrado como concessão graciosa do governante.

Mas programas de transferência de renda não são esmolas personalizadas. São políticas públicas financiadas por tributos — inclusive pagos pelos próprios beneficiários, direta ou indiretamente.

O Bolsa Família (ou qualquer outro programa similar) não pertence ao presidente de plantão. Pertence ao arcabouço legal do Estado brasileiro.

Transformar assistência em instrumento de constrangimento político é retroceder à lógica do favor. É a política do curral, agora digitalizada.

E aqui cabe uma pergunta incômoda:

Desde quando cidadania virou contrato de gratidão?

Se o auxílio exige alinhamento ideológico, ele deixa de ser política pública e passa a ser mecanismo de dependência.

E dependência política não é justiça social. É coronelismo reembalado.

O “Ódio do Bem”

Vivemos a era do ódio justificado.

O preconceito, quando direcionado ao grupo “errado”, vira crítica social sofisticada.

A desqualificação coletiva vira “análise cultural”.

Se alguém dissesse que adeptos de religiões de matriz africana não deveriam votar porque seguem lideranças não eleitas, o país entraria — com razão — em estado de indignação moral. Haveria notas públicas, investigações e manchetes.

Mas quando o alvo é o evangélico — especialmente o evangélico pobre — parte do debate se transforma em ironia acadêmica.

Essa assimetria revela algo mais profundo: não estamos discutindo religião. Estamos disputando narrativa.

E quem controla a narrativa controla a moldura moral da indignação.

Democracia de Conveniência

Democracia não é o direito de votar apenas quando o voto agrada. Democracia é aceitar que o outro, com valores distintos, possui igual legitimidade política.

Se começamos a classificar eleitores como menos qualificados porque votam segundo convicções religiosas, abrimos precedente perigoso.

Hoje é o evangélico. Amanhã pode ser o conservador. Depois, o progressista. Em seguida, qualquer um que não caiba na ortodoxia do momento.

A história mostra que toda exclusão começa com uma justificativa racional sofisticada. Sempre há um argumento técnico. Sempre há uma exceção bem-intencionada. E, de exceção em exceção, constrói-se o autoritarismo aceitável.

A Questão de Fundo

Não se trata de defender igrejas. Nem partidos. Nem governos.

Trata-se de defender um princípio:

Direitos políticos não são condicionais.

Não dependem de simpatia cultural.

Não dependem de aprovação acadêmica.

Não dependem de alinhamento ideológico.

Quando o voto passa a ser avaliado segundo o conteúdo moral do eleitor, estamos perigosamente próximos de redefinir cidadania como privilégio.

E privilégio não é democracia.

Uma Advertência Final

Uma sociedade que normaliza o desprezo público contra um segmento religioso específico não está fortalecendo a laicidade. Está corroendo a confiança institucional.

Não existe justiça social sem igualdade de dignidade.

Não existe pluralismo sem tolerância recíproca.

Não existe democracia saudável quando a régua da indignação mede apenas um lado.

A democracia não pode ser de conveniência.

Ou ela vale para todos — inclusive para quem discorda de nós —

ou não vale para ninguém.

E quando a fé começa a ser colocada no paredão moral, não é apenas um grupo que está sob julgamento.

É a própria ideia de liberdade.




quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

O que é Mediocridade e como ela se impõe

 

Por Jânsen Leiros Jr.

O conceito de mediocridade, muitas vezes relegado a uma avaliação superficial de comportamentos e produtos, carrega consigo um peso muito maior na sociedade moderna. A mediocridade não se limita apenas ao comportamento humano ou à busca por resultados fáceis, mas reflete uma desconexão profunda com o que realmente importa: a autenticidade e o esforço genuíno. Este fenômeno, visível desde o século XVIII até os dias atuais, transcende fronteiras temporais e revela uma repetição de padrões de pensamento e ação que limitam nossa capacidade de desenvolvimento.

A Continuidade da Mediocridade: Passado e Presente

No século XVIII, pensadores como Jean-Jacques Rousseau já alertavam para a alienação do ser humano diante da superficialidade da vida social. O filósofo francês via com preocupação o avanço de uma sociedade que priorizava a aparência e as convenções sociais em detrimento da busca sincera pelo conhecimento e pela autenticidade do ser. Rousseau, em sua obra O Discurso sobre a Desigualdade (1755), analisava como as instituições e normas sociais estavam moldando o ser humano de forma superficial, afastando-o da natureza e da verdade. A mediocridade, para ele, está na tentativa de nos moldarmos a padrões impostos pela sociedade, em vez de seguir nossa verdadeira essência.

Hoje, a mediocridade se manifesta com um vigor ainda maior, mas em novas formas. As redes sociais, por exemplo, amplificam a busca incessante pela aprovação externa. A pressão pela visibilidade e o culto ao "like" e à aceitação popular não são uma invenção moderna; ao contrário, são uma versão intensificada da preocupação que Rousseau tinha com a busca por status. O filósofo já advertia que a necessidade de aprovação social poderia minar o verdadeiro potencial humano.

Na política, a ascensão de discursos populistas e simplistas é um reflexo direto desse comportamento medíocre. Líderes que priorizam a retórica emocional em vez de um debate profundo e analítico não são novidade. Eles existem desde os tempos da antiga Roma, mas nos dias atuais, ganham força em tempos de crise e incerteza. A mediocridade política não se traduz apenas pela falta de substância nas propostas, mas pela superficialidade que permeia a forma como esses discursos são consumidos pela sociedade. A complexidade do mundo moderno exige soluções profundas, mas, muitas vezes, o que temos são respostas simplistas e evasivas que tratam os problemas como se fossem questões de fácil resolução.

A Mediocridade na Educação e na Cultura

A mediocridade também encontrou seu espaço nos sistemas educacionais, onde a ênfase em resultados quantitativos, como notas e testes padronizados, substituiu o verdadeiro desenvolvimento do pensamento crítico e criativo. A educação moderna, sob a ótica de filósofos como John Dewey, deveria ser uma plataforma para a experimentação e o desenvolvimento do pensamento independente. No entanto, a realidade é que muitos sistemas educacionais estão cada vez mais orientados para o ensino superficial e a obtenção de resultados rápidos, em vez de fomentar a curiosidade intelectual.

No campo cultural, essa mediocridade se traduz em um consumo acelerado e muitas vezes vazio de produtos culturais. A cultura pop, que deveria ser um espaço de reflexão, experimentação e questionamento, muitas vezes se limita a oferecer produtos fáceis e instantâneos que atendem às demandas imediatas de um público superficial. A sociedade contemporânea, conforme apontado por Theodor Adorno e Max Horkheimer na Dialética do Esclarecimento (1944), substitui a arte e a cultura genuínas por uma indústria cultural que busca apenas satisfazer o desejo de consumo imediato, sem preocupação com o impacto cultural e intelectual.

A Superficialidade das Redes Sociais: O Progresso ou a Regressão?

Vivemos em uma época onde as redes sociais, que deveriam ser uma ferramenta de avanço e liberdade, muitas vezes se transformam em um terreno fértil para a propagação da mediocridade. A busca incessante por seguidores, likes e curtidas tornou-se um objetivo em si mesmo, obscurecendo a essência da comunicação e da conexão humana genuína. Na realidade, aquilo que chamamos de "progresso" nas redes sociais é, na verdade, uma regressão disfarçada de avanço. Tornamo-nos dependentes de um algoritmo que nos ensina a buscar aprovação, enquanto nos afastamos da essência do ser humano. Nos tornamos prisioneiros de um sistema que valoriza mais a visibilidade do que a substância. A pergunta é: vistos por quem e para quê?

Esse fenômeno é amplificado pela crítica de Guy Debord em A Sociedade do Espetáculo (1967), onde ele argumenta que a vida social se transformou em uma mera troca de imagens, uma superfície que oculta a realidade mais profunda da condição humana. As redes sociais se tornaram o reflexo de uma sociedade dominada pela espetacularização, onde a imagem vale mais que o conteúdo, e o superficial se sobrepõe ao autêntico.

Alternativas à Mediocridade: Um Caminho para a Autenticidade

Para combater a mediocridade, não basta apenas denunciar a superficialidade. É necessário agir, reorientando nossas escolhas e nossos valores em direção a algo mais autêntico e verdadeiro. O primeiro passo é uma revalorização da autonomia intelectual e criativa. Isso significa cultivar a curiosidade genuína, a capacidade de questionar e a disposição para ir além das respostas fáceis. A autenticidade não se resume a se apresentar como "diferente", mas sim a ser verdadeiramente quem somos, sem medo de falhar ou de não agradar.

Na educação, por exemplo, é imperativo criar um ambiente que valorize o pensamento crítico e a reflexão. O ensino deve ir além de ensinar o que está nos livros; deve ensinar a pensar, a questionar e a desafiar. A verdadeira educação não é aquela que prepara para um mercado de trabalho, mas aquela que prepara para a vida em sociedade, para a reflexão sobre o nosso papel no mundo e para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa.

Na política, a mudança requer um retorno à profundidade do debate. Não podemos permitir que a simplificação excessiva dos problemas seja aceita como norma. A política deve ser um campo de discussão genuína, onde as soluções para os problemas sociais, econômicos e culturais sejam debatidas de maneira aberta e honesta. Só assim será possível encontrar respostas que realmente atendam às necessidades da população, e não às expectativas superficiais de uma sociedade medíocre.

A Autenticidade como Resposta à Mediocridade

A autenticidade, nesse cenário, é a chave para desafiar a mediocridade. Ser autêntico não significa seguir as normas ou buscar aprovação; é se reapropriar da capacidade de ser quem somos, sem filtros e sem medo. Em um mundo saturado de imagens e máscaras, ser autêntico é um ato radical de resistência. A autenticidade, assim, torna-se a maior arma contra a superficialidade que assola o mundo contemporâneo.

A maior pergunta que se coloca diante de nós é: estamos dispostos a viver de acordo com a nossa essência ou vamos continuar a seguir a corrente da mediocridade que nos é imposta por forças externas? O resgate da autenticidade não é fácil, mas é, sem dúvida, a única forma de nos libertarmos de uma sociedade que, cada vez mais, se contenta com o ordinário.

Desafios e Caminhos para Resistência

A normalização da mediocridade não é um fenômeno isolado, mas um reflexo das pressões sociais, educacionais e culturais que moldam nossas escolhas e prioridades. Ao longo de nossa análise, vimos como o conformismo, a superficialidade e a falta de um esforço genuíno para a excelência têm se infiltrado não apenas nas práticas educacionais, mas em muitos outros aspectos de nossa vida cotidiana. Ao discutirmos as ideias de grandes pensadores como Platão, Sartre, Freire e Camus, fomos desafiados a refletir sobre o verdadeiro valor do esforço intelectual e da busca pela verdade e autenticidade.

Contudo, a luta contra essa mediocridade imposta exige mais do que uma crítica intelectual. Ela demanda ação. Como podemos, na prática, resistir a essa onda de facilidades e superficialidades que dominam a educação e a cultura? O próximo passo, que será explorado na nossa reflexão da próxima semana, nos conduzirá a um campo fundamental: a educação. Como podemos resgatar o verdadeiro propósito da formação acadêmica e torná-la um espaço de desenvolvimento profundo e reflexivo? Como podemos garantir que as futuras gerações não sejam moldadas apenas pela velocidade dos algoritmos ou pelas promessas fáceis, mas pelo rigor do pensamento crítico e pela busca por um conhecimento genuíno e transformador?

Essa jornada de reflexão está apenas começando. Na próxima semana, vamos dar um passo crucial em direção a um entendimento mais profundo sobre o papel da educação como resistência à mediocridade e como podemos, todos juntos, lutar por um futuro onde a excelência intelectual não seja uma exceção, mas o padrão. Esteja preparado para questionar, refletir e agir, pois o futuro da educação depende de nossa capacidade de não nos conformarmos com o fácil, mas de exigir o desafio e o valor do esforço verdadeiro.

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Normalização da corrupção: A ética em perigo!


 Por Jânsen Leiros Jr. 

 "De tanto ver prosperar a desonestidade, o homem honesto desanima; e, de tanto ver triunfar a mentira, chega-se a duvidar da verdade." - Rui Barbosa

 "A desonestidade é um vício que se multiplica e se contagia; e quem não se opuser a ela, se tornará seu cúmplice." - Rui Barbosa na abertura do Senado, em 1930, e é uma reflexão sobre a corrupção e a responsabilidade individual na luta contra a desonestidade.

 "A corrupção não é apenas um crime; é um crime que mata a esperança." - Mario Vargas Llosa; Esta frase discute a corrupção como um problema que afeta a confiança e a esperança nas sociedades.

 "A desonestidade é como uma bola de neve: quanto mais rola, maior se torna." - Henry Ward Beecher; essa citação reflete a ideia de que a desonestidade tende a se espalhar e se intensificar.

 "Um país é respeitado pela honestidade de seus cidadãos." – Confúcio; reflete o valor da honestidade na construção da integridade de uma nação.

 "A verdade pode ser ofuscada, mas não será jamais vencida." - Victor Hugo

 

Vivemos em um tempo onde a ética e a honestidade parecem ser cada vez mais desconsideradas em um mundo dominado por interesses pessoais e pragmatismos egoístas. A corrupção, que um dia foi vista como uma mancha na integridade social, agora é frequentemente tratada como uma norma aceitável, um mal necessário com que todos, de alguma forma, aprendemos a conviver. Essa normalização da desonestidade gera um ciclo vicioso que contamina nossas relações pessoais, comerciais e até institucionais. O que poderia ser um mero deslize moral transforma-se em um comportamento corriqueiro, e, como resultado, a confiança nas relações humanas se esvai.

É urgente, portanto, olharmos para as raízes desse desvio ético e entendermos como, ao longo da história, diversas correntes de pensamento buscaram justificar ou minimizar a importância da moralidade em nossas vidas. Precisamos resgatar a reflexão crítica e a indignação diante da desonestidade, pois a ética não é um mero detalhe, mas o alicerce de uma sociedade justa e íntegra.

Assim, iniciaremos nossa tarefa compondo um retrato dessa realidade, de modo a nos permitir, na sequência, trabalhar com as hipóteses e sugestões de ações dirigidas e necessárias.

A Falta de Ética e Moralidade

A ética parece ter se dissipado, dando lugar a uma cultura de impunidade. Como já dizia o filósofo alemão Immanuel Kant, "A moralidade não é um conceito isolado; é uma estrutura que sustenta a sociedade." Quando comportamentos antiéticos se tornam a norma, a moralidade coletiva se fragiliza. A desvalorização da ética na vida cotidiana é um dos principais combustíveis que alimentam essa engrenagem de fraudes e corrupção. Em uma sociedade onde a ética é relegada a um segundo plano, a confiança entre indivíduos e instituições é erodida, e os laços sociais se tornam frágeis.

É fundamental compreender que a ética não é apenas um conjunto de regras a ser seguido; ela é um reflexo da cultura de um povo. Quando a ética é negligenciada, cria-se um espaço onde a mentira e a manipulação se tornam estratégias aceitáveis para alcançar objetivos pessoais. Essa distorção de valores gera um ciclo vicioso, onde a cada dia mais indivíduos se sentem justificados a agir de forma antiética, perpetuando comportamentos que, a longo prazo, corroem a própria essência da sociedade.

A crise ética que vivemos se reflete não apenas nas ações individuais, mas também nas estruturas institucionais. A falta de transparência e responsabilidade em órgãos públicos e empresas cria um ambiente propício para a corrupção. Como disse o filósofo Michel Foucault, "O poder não é uma coisa, mas uma relação." Essa relação se torna distorcida quando a ética é deixada de lado, permitindo que interesses pessoais prevaleçam sobre o bem comum.

Insegurança Jurídica

A insegurança jurídica é um fator crucial nesse cenário, contribuindo para a perpetuação de comportamentos corruptos. O sociólogo Zygmunt Bauman fala sobre a "liquidez" das instituições modernas, que tornam as regras e leis instáveis e muitas vezes ineficazes. A fragilidade das instituições jurídicas faz com que muitos brasileiros sintam que a justiça não é acessível ou igualitária. Quando as pessoas percebem que a justiça não é cega, mas sim um reflexo da desigualdade social e econômica, a tendência é que busquem soluções próprias, ainda que ilegais.

Além disso, a lentidão dos processos judiciais e a morosidade das investigações alimentam um clima de impunidade. Quando as consequências de ações ilegais demoram a se materializar, o comportamento corrupto é reforçado. A sensação de que "nada vai acontecer" pode ser uma motivação poderosa para quem considera cruzar a linha. É nesse contexto que se torna necessário discutir a importância de uma reforma que não apenas agilize os processos, mas também fortaleça a confiança na justiça.

Essa insegurança também é alimentada por um sistema que parece proteger mais os poderosos do que os cidadãos comuns. A percepção de que grandes figuras conseguem escapar das punições alimenta a frustração e o cinismo. Como advertiu o filósofo Hannah Arendt, “a banalidade do mal” pode se manifestar quando as injustiças se tornam comuns e as pessoas aceitam a corrupção como parte da vida cotidiana.

Desigualdade Social

A desigualdade social que permeia a sociedade brasileira é outro fator que impulsiona a corrupção. O filósofo e economista Karl Marx enfatizava que "a luta de classes é a força motriz da história." Quando a disparidade econômica é tão gritante, alguns indivíduos veem no crime uma maneira de alcançar o que lhes parece justo, ou até mesmo uma forma de sobrevivência. Essa luta pela sobrevivência se transforma em um ciclo de ações que corroem os princípios éticos, levando à normalização do crime como uma resposta a condições opressivas.

Essa desigualdade não se manifesta apenas em termos de renda, mas também em acesso a oportunidades e serviços básicos. A falta de educação, saúde e emprego dignos gera um ambiente onde a corrupção pode ser vista como uma opção viável para muitos. O sociólogo Pierre Bourdieu destacou a importância do "capital simbólico", referindo-se à maneira como a posição social de um indivíduo pode influenciar suas oportunidades e a percepção de seu valor na sociedade. Quando o acesso a esse capital é restrito, a tentação de buscar alternativas ilegais para ascender na hierarquia social aumenta.

Além disso, o desespero econômico pode levar à conformidade com comportamentos corruptos, onde a sobrevivência diária se sobrepõe a considerações éticas. A percepção de que a corrupção é uma "opção válida" para escapar da pobreza cria um ciclo perigoso, perpetuando a ideia de que a ética é um luxo que poucos podem se dar ao direito.

Tecnologia e Vulnerabilidades

Com o advento da tecnologia, novos tipos de fraudes emergem, aproveitando a falta de educação digital da população. Como observa a filósofa Byung-Chul Han, "A sociedade do desempenho não tolera fraquezas." A pressão para se destacar, combinada com a facilidade de acesso à informação, cria um terreno fértil para a desonestidade. Essa nova realidade digital traz desafios e vulnerabilidades que são frequentemente explorados por golpistas, levando a um aumento dos casos de fraudes online.

A tecnologia, enquanto ferramenta poderosa, pode ser uma faca de dois gumes. A interconexão e a facilidade de comunicação propiciam a disseminação de informações, mas também criam um ambiente propício para a desinformação e os golpes. Isso se torna ainda mais problemático em um país como o Brasil, onde a educação digital é muitas vezes precária. A falta de conhecimento sobre segurança online torna a população vulnerável e suscetível a fraudes.

Além disso, a rápida evolução tecnológica pode criar um hiato entre aqueles que se adaptam a essas mudanças e aqueles que ficam para trás. Esse abismo digital pode exacerbar a desigualdade social e econômica, fazendo com que os menos favorecidos sejam ainda mais explorados. Como disse o filósofo Marshall McLuhan, "O meio é a mensagem." A maneira como utilizamos a tecnologia molda nosso comportamento, e quando essa tecnologia é mal utilizada, as consequências podem ser devastadoras.

Cultura do Jeitinho

A famosa "cultura do jeitinho brasileiro" também é uma questão central nesse debate. O sociólogo Roberto DaMatta nos lembra que "o jeitinho é um modo de vida, uma forma de contornar regras." Quando a criatividade para driblar as normas se transforma em um valor, a ética se dissolve, e o comportamento corrupto se torna não apenas aceitável, mas até admirado. Essa mentalidade alimenta a ideia de que encontrar brechas na lei é uma habilidade, não uma transgressão.

Essa cultura do jeitinho é um reflexo de uma sociedade que, por vezes, se sente impotente diante de instituições que parecem distantes e ineficazes. A capacidade de contornar regras, de "dar um jeito", pode ser vista como uma forma de resistência em um sistema que não oferece soluções adequadas. No entanto, essa mesma resistência pode criar um ciclo vicioso onde a corrupção se torna uma prática comum e esperada, desvalorizando a ética e a responsabilidade social.

Além disso, o jeitinho brasileiro não é apenas uma questão de comportamento individual, mas também um reflexo de um sistema que muitas vezes falha em proporcionar alternativas éticas viáveis. Quando as regras são percebidas como injustas ou desatualizadas, a tentação de burlar essas regras se torna uma escolha “racional” para muitos. Essa complexidade torna a cultura do jeitinho um fenômeno profundamente enraizado e difícil de erradicar, exigindo um esforço conjunto para reverter essa lógica.

Influência de Líderes

A liderança, tanto política quanto empresarial, tem um papel crucial na formação de valores sociais. O filósofo Hannah Arendt alertava para o "banal do mal", onde a normalização de comportamentos antiéticos por líderes pode influenciar a sociedade como um todo. Se aqueles que ocupam posições de destaque não pautam suas ações pela integridade, como esperar que as massas ajam de forma diferente? Essa desconexão entre líderes e a população gera uma desilusão que contribui para a falta de confiança nas instituições.

Quando líderes se envolvem em práticas corruptas ou falham em prestar contas de suas ações, isso gera um efeito cascata. A percepção de que a corrupção é uma prática comum entre os poderosos faz com que a população se sinta desencorajada a agir de maneira ética. A filósofa Judith Butler nos lembra que a "ação ética" é uma responsabilidade compartilhada, e quando líderes falham nesse aspecto, todos são afetados.

A influência de líderes éticos é, portanto, essencial para a construção de uma cultura de integridade. Eles devem não apenas se comportar de maneira ética, mas também criar um ambiente onde a ética é valorizada e recompensada. A responsabilidade não recai apenas sobre os indivíduos, mas sobre aqueles que lideram e moldam as normas sociais.

Falta de Educação e Conscientização

Por fim, a falta de educação e conscientização sobre direitos e deveres cívicos é um grande obstáculo à construção de uma sociedade mais ética. Platão já afirmava que "a educação é a melhor provisão para a velhice." Investir na formação ética desde a infância é essencial para reverter esse cenário, pois sem uma base sólida de ética e moral, mudanças significativas se tornam difíceis. Uma população educada e consciente é menos propensa a aceitar comportamentos corruptos e mais inclinada a exigir responsabilidade.

A educação deve ir além do conhecimento acadêmico; ela deve incluir a formação moral e cívica, preparando os cidadãos para compreenderem suas responsabilidades em uma democracia. Isso significa ensinar não apenas sobre direitos, mas também sobre deveres e a importância de uma sociedade ética. A filósofa Martha Nussbaum defende a "educação para a cidadania", onde a formação de valores éticos é fundamental para o desenvolvimento de cidadãos críticos e responsáveis.

Além disso, a conscientização sobre os impactos da corrupção e dos comportamentos antiéticos deve ser uma prioridade. Campanhas educativas que abordem as consequências da corrupção e promovam a transparência podem ajudar a moldar uma nova geração de cidadãos mais comprometidos com a ética e a justiça social. Essa transformação não ocorrerá da noite para o dia, mas um compromisso contínuo com a educação ética pode ser o primeiro passo para um futuro mais íntegro.

Conclusão

                O que estamos vivendo hoje é mais do que uma crise passageira; trata-se de um profundo colapso moral que afeta todas as esferas da nossa sociedade. A corrupção e o desvio de conduta não são apenas consequências isoladas, mas sintomas de um sistema em ruínas. É imperativo que promovamos uma verdadeira revolução cultural, onde a ética e a integridade não sejam exceções, mas fundamentos inegociáveis. Precisamos fortalecer urgentemente nossas instituições e garantir que as leis sejam aplicadas de maneira implacável e justa, para todos. Apenas assim poderemos restaurar a confiança perdida e, mais do que isso, reacender o valor da ética em nosso cotidiano. Este é um chamado à ação coletiva, à reconstrução do tecido moral de nossa nação. O futuro depende da nossa capacidade de enfrentar esse desafio com coragem e determinação.

domingo, 22 de setembro de 2024

Cadeiras voam! Tanto quanto nossos sonhos de um país melhor

Por Jânsen Leiros Jr.

"Uma pessoa pode acreditar de forma apaixonada que está certa, mas quando essa crença se torna intolerante à divergência, ela se transforma em tirania disfarçada de virtude." – John Stuart Mill

"Onde há boa ordem, há boa política, pois os governantes buscam o bem comum, não a destruição de seus adversários." – Nicolau Maquiavel

"A política, de fato, é a arte de garantir o bem comum, e não o confronto estéril entre facções que buscam apenas o poder pelo poder." – Aristóteles

"A inabilidade para discutir de maneira racional substitui o verdadeiro debate por brigas e provocações, e nenhuma sociedade pode florescer onde esse é o padrão." – Bertrand Russell

"Quando os políticos deixam de agir pelo bem da sociedade e se dedicam apenas a atacar seus rivais, a república se enfraquece, pois é da justiça, não da violência, que ela se sustenta." – Montesquieu

"A essência da política é a liberdade; onde o discurso se transforma em violência, a política perde seu valor e a sociedade se distancia da verdadeira democracia." – Hannah Arendt

Nota sobre os autores acima[1] 

              A realidade das campanhas eleitorais no Brasil é desoladora. Em vez de promoverem debates profundos que esclareçam o eleitor e apresentem visões de mundo e soluções concretas, o que vemos é um verdadeiro circo de provocações e baixarias. Acusações, mentiras e calúnias se tornaram armas para inflamar "torcidas organizadas", e isso expõe nossa fragilidade democrática. Décadas de suposta democracia não foram suficientes para evitar que nossas disputas políticas permanecessem infantis e vazias.

Considerando as frases acima e o ambiente vivido por seus diferentes autores, há que se concluir que a rivalidade política já promoveu, ao longo da história, circunstâncias, no mínimo, desconfortáveis. Mas o recente episódio envolvendo Datena e Pablo Marçal em debate promovido pela TV Cultura escancara o nível raso das discussões políticas no país. A violência, seja verbal ou física, transforma o debate eleitoral em um confronto estéril, onde o objetivo de construir um país melhor é completamente obliterado. Práticas como essas, longe de beneficiar a nação, apenas alimentam uma polarização perigosa, convertendo os eleitores em meros espectadores de um jogo sujo, sem qualquer entendimento real do que está em jogo.

A democracia se fragiliza quando estratégias de desqualificação e agressão substituem a apresentação de propostas sérias e viáveis. Isso reflete uma política pobre, que, incapaz de se livrar de expedientes rasteiros, prefere explorar o emocional, a raiva e a confusão. Como consequência, o eleitorado brasileiro é conduzido por uma onda de irracionalidade que perpetua o ciclo de promessas vazias e embates superficiais.

Se o Brasil deseja crescer como nação, é urgente romper com essa cultura política decadente, que apenas empobrece nossa democracia. Não podemos mais tolerar campanhas eleitorais que se assemelhem a arenas de gladiadores, enquanto questões fundamentais como saúde, educação, segurança e desenvolvimento econômico são deixadas de lado. O Brasil não precisa de candidatos que saibam brigar, mas de líderes que saibam governar com integridade, visão e compromisso real com o futuro.

                É insuportável ver a política nacional reduzida a um espetáculo grotesco, onde o bem-estar do país é deixado de lado. Até quando aceitaremos que a verdadeira democracia seja pisoteada por personagens que preferem a luta suja em vez da luta por soluções? Precisamos romper com essa engrenagem que empobrece o país e transforma eleitores em massa de manobra de um jogo sem propósito. O despertar é urgente, e ele exige uma mudança de mentalidade, não apenas de candidatos. Se continuarmos a aplaudir esse show de horrores, que futuro estaremos construindo?


[1] John Stuart Mill: Filósofo britânico do século XIX, defensor do utilitarismo e dos direitos individuais, especialmente da liberdade de expressão.

 

Nicolau Maquiavel: Pensador renascentista italiano, autor de O Príncipe, conhecido por suas teorias políticas pragmáticas sobre poder e governança.

 

Aristóteles: Filósofo grego clássico, discípulo de Platão, cujas ideias sobre ética e política influenciaram profundamente o pensamento ocidental.

 

Bertrand Russell: Filósofo e matemático britânico do século XX, famoso por seu trabalho em lógica, filosofia da linguagem e ativismo pela paz.

 

Montesquieu: Filósofo e jurista francês do Iluminismo, conhecido por sua teoria da separação dos poderes no governo.

 

Hannah Arendt: Filósofa política alemã do século XX, destacada por suas análises sobre o totalitarismo, a natureza do poder e a liberdade.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Quando na prática a teoria é outra

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) Foto: Divulgação

Por Jânsen Leiros Jr.

Que o ser humano é incoerente em suas proposições, conceitos e práticas, não há qualquer novidade. Somos assim nas mais diversas facetas da vida, afetando condutas e escolhas em variados setores e momentos de nossa curta existência e exercício de individualidade. Querem um exemplo simples? A mentira pode nos ser um ato repugnante por princípio. Mas basta uma ligação telefônica indesejada, para que se mande dizer que “não está”. Uma incoerência socialmente permitida, será? De uma forma ou de outra e nos mais variados graus, a incoerência ou desequilíbrio entre teoria e prática assola o nosso cotidiano, tornando sempre mais difícil o desenrolar da vida e suas realizações.

Se a incoerência nossa de cada dia envolve questões meramente pessoais e estritamente individuais, menos mal. Somos, por assim dizer, vítimas de nossa própria atitude, e sofremos sozinhos as eventuais consequências. Se é que realmente se pode ser vítima única dos próprios atos; sempre há quem os sofra minimamente.

Quando a incoerência se dá em atitudes que envolvem amplo espectro, porém, é inevitável que suas consequências atinjam a muitos, aumentando exponencialmente suas eventuais e indesejadas consequências. À medida que tratamos de incongruências ligadas à vida de um grupo, uma comunidade, um município, um estado ou até mesmo um país, as consequências podem atingir a milhões.

Sem querer entrar fundo no mérito da questão, porque nenhuma questão de Estado é assim tão simples ou superficial, fiquemos apenas no limiar do confronto dos discursos das autoridades, diante das questões que se lhes apresentam diariamente. Sim, porque não é preciso grande esforço para esbarrarmos em suas incoerentes afirmações, já que respostas são disparadas como metralhadoras por suas excelências, à medida que as pressões lhes impõem posicionamento caso a caso.

A flutuação da teoria aplicada, que flana ao sabor das conveniências, mantém-nos a todos em suspenção constante, sem que uma direção seja apontada como fim, não importando as circunstâncias que se apresentem ao longo da jornada. Na prática, ora vamos por aqui, ora por ali, conforme a necessidade do discurso, ou de interesses nem sempre tão republicanos.

Ou seja, debruçando-nos sobre o assunto em questão, há ou não há dinheiro no orçamento de MG para as diferentes demandas? Se há, por que se atende a essa ou aquela, em detrimento desta ou daquela outra? E se não há, como se acena como havendo, para aquilo que pode trazer dividendo político, em lugar do que é urgente e necessário? Seria uma momentânea perda de percepção do todo, ou apenas mais uma movimentação falaciosa pontual com fins eleitoreiros?

Na verdade nada disso importa. Garantir coerência entre a teoria e a prática, entre o discurso e as ações, por mais impopulares e inconvenientes que se revelem, para quaisquer pretensões políticas de curto prazo, é o que nos fará manter o trem sobre os trilhos da recuperação nacional. Sim, porque se em grande parte passamos por uma crise de caráter e honestidade política, que se reflete nos mais diversos setores da nação, a superação e uma recuperação sustentável passará inevitavelmente por uma profunda mudança de atitude e de posicionamento de nossos dirigentes. Mas não apenas deles.

Se queremos um país melhor, é bom começarmos a equilibrar nossas teorias com nossas práticas. É bom começarmos a buscar coerência. Por mais difícil que seja num primeiro momento. E a começar por mim; incoerente até mesmo nas mais comezinhas vicissitudes da vida.

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