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domingo, 5 de julho de 2026

E o sonho acabou. Mas só para quem sonhou.

 

por Jânsen Leiros

A seleção brasileira masculina perdeu para a Noruega antes mesmo de perder no placar.

Perdeu no corpo.
Perdeu na alma.
Perdeu na postura.
Perdeu na ideia elementar de que camisa nenhuma joga sozinha.

O Brasil entrou em campo como quem comparece a um compromisso inconveniente. Andou quando precisava correr. Tocou quando precisava agredir. Olhou quando precisava disputar. Esperou que alguma centelha individual resolvesse aquilo que nenhuma construção coletiva parecia preparada para resolver.

E então aconteceu o óbvio: uma equipe venceu um elenco.

A Noruega não precisou reinventar o futebol. Não precisou de mística. Não precisou de firula. Precisou apenas parecer mais interessada em jogar do que o Brasil. E isso, para uma seleção brasileira, deveria ser motivo de vergonha pública.

Porque perder faz parte do jogo. O futebol é também feito de derrota, tropeço, acaso, erro, surpresa e injustiça. O problema não é perder. O problema é perder por inanição competitiva. Perder por ausência de fome. Perder por descaso. Perder sem dar a impressão de que a derrota doía.

Esse Brasil parece ter desaprendido uma verdade básica: talento sem entrega é ornamento.

Durante décadas, a camisa amarela simbolizou mais do que técnica. Simbolizou invenção, sim, mas também coragem, personalidade, enfrentamento, alegria combativa, capacidade de decidir sob pressão. O Brasil já foi o país que transformava o improviso em linguagem. Hoje, em muitos momentos, parece ter transformado o improviso em desculpa para não trabalhar.

A diferença é brutal.

Improviso, quando nasce de repertório, é arte.
Improviso, quando nasce de preguiça tática, é irresponsabilidade.

A seleção brasileira masculina parece acreditar que a superioridade técnica resolverá o que o treinamento não resolveu. Que o drible individual corrigirá a falta de triangulação. Que o talento isolado compensará a ausência de compactação. Que uma arrancada salvará a falta de ideias. Que um lampejo de estrela dispensará a construção de equipe.

Mas futebol moderno não perdoa soberba disfarçada de confiança.

A história está cheia de seleções menos talentosas que venceram porque entenderam o jogo como compromisso coletivo. A Grécia de 2004 não tinha os maiores craques da Europa, mas tinha plano, disciplina, entrega e uma fé tática quase militar. A Itália de 1982 começou desacreditada e terminou campeã do mundo porque soube sofrer, competir e crescer dentro da adversidade. A Alemanha de 2014, que nos impôs a maior humilhação de nossa história, não tinha onze artistas soltos em campo. Tinha método, repetição, ocupação de espaço, mentalidade coletiva e uma máquina preparada para punir qualquer seleção que confundisse camisa com argumento.

E se quisermos falar do próprio Brasil, basta lembrar de 1994.

Aquela seleção não era a mais encantadora da nossa história. Foi criticada, cobrada, questionada. Mas era uma equipe. Sabia o que fazia. Tinha solidariedade, equilíbrio, recomposição, sacrifício e liderança. Romário brilhava, Bebeto decidia, mas havia Dunga, Mauro Silva, Aldair, Márcio Santos, Taffarel, Jorginho, Branco. Havia gente disposta a fazer o trabalho invisível para que o talento aparecesse.

Em 2002, a história se repetiu de outro modo. Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho eram gênios, mas não jogavam sozinhos. Havia estrutura. Havia encaixe. Havia laterais que agrediam, volantes que sustentavam, zagueiros que competiam e um time que entendia seus caminhos. A estrela existia, mas a equipe a carregava.

O Brasil atual parece ter invertido a lógica: quer que a estrela carregue a equipe.

Só que estrela demais, quando não há constelação, vira clarão perdido no escuro.

O que se viu contra a Noruega foi mais do que uma derrota. Foi uma exposição de caráter competitivo. Uma seleção sem urgência. Sem fome. Sem constrangimento. Sem aquela raiva mínima de quem entende que vestir a camisa brasileira deveria significar mais do que aparecer em fotografia oficial, publicar bastidor, acumular seguidores e alimentar cortes para redes sociais.

Há algo de profundamente incômodo nessa geração.

Ela parece mais treinada para a estética da carreira do que para a dor do jogo. Mais preparada para o Instagram do que para o gramado. Mais confortável na construção da própria imagem do que na destruição das resistências adversárias. É um elenco que posa melhor do que pressiona. Que comunica melhor do que compete. Que se apresenta como produto antes de se confirmar como time.

E aqui não se trata de demonizar rede social, juventude, dinheiro, fama ou marketing pessoal. O mundo mudou. O atleta contemporâneo é também marca, mídia, empresa e produto. Mas há uma ordem que não pode ser invertida: primeiro se joga bola; depois se publica a glória. Primeiro se compete; depois se celebra. Primeiro se honra a camisa; depois se monetiza a imagem.

Quando a aparência passa a preceder a entrega, o futebol cobra.

E cobra em público.

A Noruega venceu porque pareceu saber o que queria. O Brasil perdeu porque parecia esperar que alguma coisa acontecesse. E esse é talvez o retrato mais cruel da seleção atual: ela não conduz o jogo; ela aguarda uma solução. Não impõe uma ideia; espera uma inspiração. Não constrói uma vitória; torce por uma ocorrência.

Isso não é futebol de seleção brasileira. Isso é fé preguiçosa no acaso.

É verdade que o Brasil sempre teve improviso. Mas o improviso brasileiro era fertilidade, não fuga. Garrincha improvisava porque via o jogo por uma fresta que ninguém mais enxergava. Pelé improvisava porque dominava todos os fundamentos antes de quebrar todos os padrões. Zico improvisava com inteligência. Ronaldinho improvisava com intimidade. Neymar, em seus melhores momentos, improvisava porque transformava desequilíbrio em ruptura.

Mas improviso sem base, sem treino, sem equipe, sem repetição e sem entrega vira pelada de luxo.

E pelada de luxo pode até gerar cortes bonitos, mas não sustenta uma seleção.

O futebol internacional já entendeu há muito tempo que talento precisa ser organizado. Que intensidade também é linguagem. Que pressão pós-perda é argumento. Que ocupação de espaço é inteligência. Que recomposição defensiva é respeito. Que jogar sem a bola também é jogar. Que correr pelo outro não é humilhação; é pertencimento.

O Brasil ainda parece preso à fantasia de que, em algum momento, o “talento natural” resolverá tudo.

Não resolverá.

A superioridade técnica brasileira, quando existe, já não é abismo. O mundo aprendeu. A Europa formou jogadores fisicamente fortes, taticamente maduros e tecnicamente suficientes. A África entrega potência, intensidade e talento. A Ásia evoluiu em disciplina e velocidade. Seleções médias hoje sabem marcar, pressionar, estudar, neutralizar, explorar transição e castigar distrações.

Enquanto isso, o Brasil muitas vezes ainda parece achar que basta ser Brasil.

Não basta.

A camisa pesa, mas não corre.
A história emociona, mas não marca.
As cinco estrelas intimidam menos quando os onze em campo não demonstram vontade de acrescentar a sexta.
A tradição inspira, mas não substitui treino, vergonha na cara, plano e espírito coletivo.

O mais grave é que esse elenco jamais pareceu equipe. Parece reunião de bons jogadores com agendas próprias. Parece soma de carreiras, não comunhão de propósito. Parece vitrine, não vestiário. Parece coleção de talentos tentando preservar valor individual enquanto a seleção se desvaloriza como instituição simbólica.

E isso é doloroso porque a seleção brasileira não é apenas um time. Ela é memória nacional. É infância, família, rádio ligado, rua pintada, camisa no varal, domingo impossível, quarta-feira de nervos, pai chamando filho para ver o jogo, avô lembrando Pelé, gente que não entende de tática mas entende de pertencimento.

Quando a seleção joga sem vontade, ela não decepciona apenas torcedores. Ela agride uma memória coletiva.

A derrota para a Noruega, portanto, não deveria ser tratada como acidente. Deveria ser lida como sintoma.

Sintoma de uma geração que precisa reaprender a jogar junto.
Sintoma de uma estrutura que talvez esteja formando atletas mais valiosos do que comprometidos.
Sintoma de uma cultura que confundiu visibilidade com grandeza.
Sintoma de uma seleção que parece ter perdido o incômodo de perder.

E quando perder deixa de constranger, o abismo já começou.

O Brasil não precisa apenas de escalação. Precisa de cobrança. Não precisa apenas de técnico. Precisa de pacto. Não precisa apenas de talento. Precisa de fome. Não precisa apenas de craques. Precisa de homens dispostos a jogar como se a camisa tivesse peso, história e consequência.

Porque teve um tempo em que o adversário podia até ganhar do Brasil. Mas precisava sobreviver ao Brasil.

Hoje, em certos jogos, basta esperar o Brasil desistir de si mesmo.

E o sonho acabou.
Acabou para quem sonhou.

Para quem ainda acreditava que a camisa resolveria sozinha.
Para quem ainda esperava que o talento individual bastasse.
Para quem ainda confundia elenco com equipe.
Para quem ainda achava que a seleção brasileira entraria em campo carregando, por osmose, a grandeza dos que vieram antes.

A grandeza não se herda.
A grandeza se honra.

E essa seleção, jogando como jogou, não honrou.
Apenas compareceu.

E comparecer, para o Brasil, nunca deveria ser suficiente.


domingo, 22 de setembro de 2024

Quando a retórica é tão ou mais cruel que a realidade

Por Jânsen Leiros Jr.

“Há de fato um aumento preocupante nas mortes de crianças indígenas entre 2022 e 2023. De acordo com o relatório "Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil", elaborado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), as mortes de crianças indígenas de 0 a 4 anos aumentaram 24,55% nesse período. Em 2022, foram registradas 835 mortes, enquanto em 2023 o número subiu para 1.040. O Amazonas lidera os estados com o maior número de casos, seguido por Roraima e Mato Grosso. Esses dados foram obtidos através do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e do Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena (Siasi)​” – matéria do Link Our View 

 

"A mentira política não consiste em dizer o que não é verdade, mas em apresentar como verdadeira uma promessa que não tem intenção de cumprir." – Hannah Arendt (1906-1975)

"O homem superior age antes de falar, e depois fala de acordo com suas ações." – George Orwell

"O objetivo do poder é o poder. E as mentiras são usadas como ferramentas para mantê-lo." – Confúcio

É revoltante e doloroso observar que, mesmo com a troca de governo e a criação do tão alardeado Ministério dos Povos Originários, a realidade vivida pelas crianças indígenas no Brasil continua trágica e inaceitável. Entre 2022 e 2023, houve um aumento expressivo na mortalidade infantil entre crianças indígenas de 0 a 4 anos, totalizando 1.040 óbitos em 2023. Esse número reflete não apenas o abandono, mas também o descaso flagrante com essas populações vulneráveis. São mortes que poderiam ser evitadas com medidas básicas de saúde, como acesso a medicamentos, saneamento adequado e alimentação, especialmente considerando que muitas dessas mortes foram causadas por desnutrição e a falta de remédios simples.

O descompasso entre o discurso oficial do governo e a realidade no terreno é gritante. No plano retórico, houve a criação de um ministério, chefiado por uma mulher indígena, algo que parecia, à primeira vista, um avanço concreto na representação e no cuidado dos povos originários. No entanto, a gestão e a prática mostram que pouco foi feito para mudar a dura realidade de quem vive nas comunidades indígenas. Como pode um governo que se comprometeu a proteger esses povos permitir que crianças morram por falta de assistência médica básica?

O discurso de proteção dos povos indígenas é vazio enquanto vidas são perdidas em números tão alarmantes, especialmente quando se sabe que essas mortes são evitáveis. A promessa de apoio e proteção virou uma verdadeira farsa. Não basta criar ministérios ou cargos de destaque se as políticas não chegam às aldeias, se o apoio efetivo não alcança as crianças que morrem por doenças curáveis ou evitáveis.

Os Yanomami, em particular, enfrentam uma crise humanitária devastadora, que se agrava pela presença de garimpeiros ilegais em suas terras, contribuindo para o aumento da mortalidade infantil. A falta de controle sobre essas invasões é uma evidência gritante de que o Estado falhou na proteção das comunidades, permitindo que seus territórios fossem saqueados, seus recursos roubados, e suas crianças morressem pela omissão de políticas públicas.

É inadmissível que, em pleno século XXI, um país com tantos recursos como o Brasil continue negligenciando os povos indígenas, que há séculos são sistematicamente marginalizados e abandonados. As mortes de 1.040 crianças indígenas em 2023, e as mais de 3.500 nos últimos cinco anos, são um verdadeiro escândalo humanitário. O governo federal precisa ser veementemente cobrado a atuar com urgência para reverter esse cenário de genocídio silencioso.

Este é um apelo por ação imediata! A criação de um ministério e a promessa de atenção especial aos povos originários não podem continuar sendo apenas um gesto simbólico e vazio. É preciso transformar o discurso em realidade, com uma presença constante e eficaz do Estado nas aldeias, garantindo assistência médica, segurança alimentar e condições dignas de vida para as crianças e suas famílias.

O Estado brasileiro deve ser responsabilizado por essa tragédia e, acima de tudo, precisa agir rapidamente para estancar o sofrimento de tantas comunidades que, mesmo após séculos de exploração e desrespeito, ainda lutam desesperadamente pela sobrevivência de suas crianças.