Mostrando postagens com marcador sociedade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sociedade. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

O que é Mediocridade e como ela se impõe

 

Por Jânsen Leiros Jr.

O conceito de mediocridade, muitas vezes relegado a uma avaliação superficial de comportamentos e produtos, carrega consigo um peso muito maior na sociedade moderna. A mediocridade não se limita apenas ao comportamento humano ou à busca por resultados fáceis, mas reflete uma desconexão profunda com o que realmente importa: a autenticidade e o esforço genuíno. Este fenômeno, visível desde o século XVIII até os dias atuais, transcende fronteiras temporais e revela uma repetição de padrões de pensamento e ação que limitam nossa capacidade de desenvolvimento.

A Continuidade da Mediocridade: Passado e Presente

No século XVIII, pensadores como Jean-Jacques Rousseau já alertavam para a alienação do ser humano diante da superficialidade da vida social. O filósofo francês via com preocupação o avanço de uma sociedade que priorizava a aparência e as convenções sociais em detrimento da busca sincera pelo conhecimento e pela autenticidade do ser. Rousseau, em sua obra O Discurso sobre a Desigualdade (1755), analisava como as instituições e normas sociais estavam moldando o ser humano de forma superficial, afastando-o da natureza e da verdade. A mediocridade, para ele, está na tentativa de nos moldarmos a padrões impostos pela sociedade, em vez de seguir nossa verdadeira essência.

Hoje, a mediocridade se manifesta com um vigor ainda maior, mas em novas formas. As redes sociais, por exemplo, amplificam a busca incessante pela aprovação externa. A pressão pela visibilidade e o culto ao "like" e à aceitação popular não são uma invenção moderna; ao contrário, são uma versão intensificada da preocupação que Rousseau tinha com a busca por status. O filósofo já advertia que a necessidade de aprovação social poderia minar o verdadeiro potencial humano.

Na política, a ascensão de discursos populistas e simplistas é um reflexo direto desse comportamento medíocre. Líderes que priorizam a retórica emocional em vez de um debate profundo e analítico não são novidade. Eles existem desde os tempos da antiga Roma, mas nos dias atuais, ganham força em tempos de crise e incerteza. A mediocridade política não se traduz apenas pela falta de substância nas propostas, mas pela superficialidade que permeia a forma como esses discursos são consumidos pela sociedade. A complexidade do mundo moderno exige soluções profundas, mas, muitas vezes, o que temos são respostas simplistas e evasivas que tratam os problemas como se fossem questões de fácil resolução.

A Mediocridade na Educação e na Cultura

A mediocridade também encontrou seu espaço nos sistemas educacionais, onde a ênfase em resultados quantitativos, como notas e testes padronizados, substituiu o verdadeiro desenvolvimento do pensamento crítico e criativo. A educação moderna, sob a ótica de filósofos como John Dewey, deveria ser uma plataforma para a experimentação e o desenvolvimento do pensamento independente. No entanto, a realidade é que muitos sistemas educacionais estão cada vez mais orientados para o ensino superficial e a obtenção de resultados rápidos, em vez de fomentar a curiosidade intelectual.

No campo cultural, essa mediocridade se traduz em um consumo acelerado e muitas vezes vazio de produtos culturais. A cultura pop, que deveria ser um espaço de reflexão, experimentação e questionamento, muitas vezes se limita a oferecer produtos fáceis e instantâneos que atendem às demandas imediatas de um público superficial. A sociedade contemporânea, conforme apontado por Theodor Adorno e Max Horkheimer na Dialética do Esclarecimento (1944), substitui a arte e a cultura genuínas por uma indústria cultural que busca apenas satisfazer o desejo de consumo imediato, sem preocupação com o impacto cultural e intelectual.

A Superficialidade das Redes Sociais: O Progresso ou a Regressão?

Vivemos em uma época onde as redes sociais, que deveriam ser uma ferramenta de avanço e liberdade, muitas vezes se transformam em um terreno fértil para a propagação da mediocridade. A busca incessante por seguidores, likes e curtidas tornou-se um objetivo em si mesmo, obscurecendo a essência da comunicação e da conexão humana genuína. Na realidade, aquilo que chamamos de "progresso" nas redes sociais é, na verdade, uma regressão disfarçada de avanço. Tornamo-nos dependentes de um algoritmo que nos ensina a buscar aprovação, enquanto nos afastamos da essência do ser humano. Nos tornamos prisioneiros de um sistema que valoriza mais a visibilidade do que a substância. A pergunta é: vistos por quem e para quê?

Esse fenômeno é amplificado pela crítica de Guy Debord em A Sociedade do Espetáculo (1967), onde ele argumenta que a vida social se transformou em uma mera troca de imagens, uma superfície que oculta a realidade mais profunda da condição humana. As redes sociais se tornaram o reflexo de uma sociedade dominada pela espetacularização, onde a imagem vale mais que o conteúdo, e o superficial se sobrepõe ao autêntico.

Alternativas à Mediocridade: Um Caminho para a Autenticidade

Para combater a mediocridade, não basta apenas denunciar a superficialidade. É necessário agir, reorientando nossas escolhas e nossos valores em direção a algo mais autêntico e verdadeiro. O primeiro passo é uma revalorização da autonomia intelectual e criativa. Isso significa cultivar a curiosidade genuína, a capacidade de questionar e a disposição para ir além das respostas fáceis. A autenticidade não se resume a se apresentar como "diferente", mas sim a ser verdadeiramente quem somos, sem medo de falhar ou de não agradar.

Na educação, por exemplo, é imperativo criar um ambiente que valorize o pensamento crítico e a reflexão. O ensino deve ir além de ensinar o que está nos livros; deve ensinar a pensar, a questionar e a desafiar. A verdadeira educação não é aquela que prepara para um mercado de trabalho, mas aquela que prepara para a vida em sociedade, para a reflexão sobre o nosso papel no mundo e para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa.

Na política, a mudança requer um retorno à profundidade do debate. Não podemos permitir que a simplificação excessiva dos problemas seja aceita como norma. A política deve ser um campo de discussão genuína, onde as soluções para os problemas sociais, econômicos e culturais sejam debatidas de maneira aberta e honesta. Só assim será possível encontrar respostas que realmente atendam às necessidades da população, e não às expectativas superficiais de uma sociedade medíocre.

A Autenticidade como Resposta à Mediocridade

A autenticidade, nesse cenário, é a chave para desafiar a mediocridade. Ser autêntico não significa seguir as normas ou buscar aprovação; é se reapropriar da capacidade de ser quem somos, sem filtros e sem medo. Em um mundo saturado de imagens e máscaras, ser autêntico é um ato radical de resistência. A autenticidade, assim, torna-se a maior arma contra a superficialidade que assola o mundo contemporâneo.

A maior pergunta que se coloca diante de nós é: estamos dispostos a viver de acordo com a nossa essência ou vamos continuar a seguir a corrente da mediocridade que nos é imposta por forças externas? O resgate da autenticidade não é fácil, mas é, sem dúvida, a única forma de nos libertarmos de uma sociedade que, cada vez mais, se contenta com o ordinário.

Desafios e Caminhos para Resistência

A normalização da mediocridade não é um fenômeno isolado, mas um reflexo das pressões sociais, educacionais e culturais que moldam nossas escolhas e prioridades. Ao longo de nossa análise, vimos como o conformismo, a superficialidade e a falta de um esforço genuíno para a excelência têm se infiltrado não apenas nas práticas educacionais, mas em muitos outros aspectos de nossa vida cotidiana. Ao discutirmos as ideias de grandes pensadores como Platão, Sartre, Freire e Camus, fomos desafiados a refletir sobre o verdadeiro valor do esforço intelectual e da busca pela verdade e autenticidade.

Contudo, a luta contra essa mediocridade imposta exige mais do que uma crítica intelectual. Ela demanda ação. Como podemos, na prática, resistir a essa onda de facilidades e superficialidades que dominam a educação e a cultura? O próximo passo, que será explorado na nossa reflexão da próxima semana, nos conduzirá a um campo fundamental: a educação. Como podemos resgatar o verdadeiro propósito da formação acadêmica e torná-la um espaço de desenvolvimento profundo e reflexivo? Como podemos garantir que as futuras gerações não sejam moldadas apenas pela velocidade dos algoritmos ou pelas promessas fáceis, mas pelo rigor do pensamento crítico e pela busca por um conhecimento genuíno e transformador?

Essa jornada de reflexão está apenas começando. Na próxima semana, vamos dar um passo crucial em direção a um entendimento mais profundo sobre o papel da educação como resistência à mediocridade e como podemos, todos juntos, lutar por um futuro onde a excelência intelectual não seja uma exceção, mas o padrão. Esteja preparado para questionar, refletir e agir, pois o futuro da educação depende de nossa capacidade de não nos conformarmos com o fácil, mas de exigir o desafio e o valor do esforço verdadeiro.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

O Colapso da Educação no Brasil


Por Jânsen Leiros Jr. 

 

“Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção.”  - Paulo Freire – Educador e filósofo brasileiro

 “A escola pública é a escola do povo e para o povo. Mas a escola do povo não pode ser uma escola menor, uma escola sem recursos, uma escola sem professores.”  - Anísio Teixeira – Pedagogo e educador brasileiro

 “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto.”  - Darcy Ribeiro – Antropólogo e educador brasileiro

 “Uma sociedade que não educa sua população para compreender e questionar o mundo ao seu redor condena-se à mediocridade e ao atraso.”  - Manuel Castells – Sociólogo espanhol especializado em sociedade e tecnologia

 “A democracia tem que nascer de novo a cada geração, e a educação é sua parteira.”  - John Dewey – Filósofo e educador norte-americano

 

Vivemos em um país onde o analfabetismo funcional atinge números assustadores. Para quem não sabe, o analfabeto funcional é aquele que consegue ler palavras e frases simples, mas não é capaz de interpretar ou aplicar o que lê no dia a dia. Segundo o Indicador de Analfabetismo Funcional (INAF), cerca de 30% dos brasileiros são analfabetos funcionais. Isso significa que pouco mais de sessenta milhões de pessoas, no Brasil, não conseguem compreender um texto básico ou realizar operações matemáticas simples, mesmo após anos frequentando escolas. Nem mesmo conseguem absorver conhecimento sobre assuntos que já ouviram ou estudaram em sala de aula.

Esse cenário fica ainda mais alarmante quando olhamos para o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), principal indicador global de educação, que classifica o Brasil entre os últimos colocados em leitura, matemática e ciências. Em 2022, o Brasil ocupava a 57ª posição entre 80 países, um desempenho que já seria preocupante por si só, mas torna-se ainda mais vergonhoso quando analisamos quem está à nossa frente. Países como Cazaquistão (45º), Albânia (52º) e Malásia (50º), cujas economias são menores e enfrentam desafios históricos em desenvolvimento, conseguiram superar o Brasil na avaliação.

O contraste é ainda mais gritante quando observamos nações latino-americanas e africanas que, apesar de um IDH inferior, apresentaram desempenho melhor ou similar ao nosso. O Uruguai (43º), México (51º) e Costa Rica (53º), por exemplo, avançaram significativamente em suas políticas educacionais, demonstrando que é possível obter progresso mesmo sem grandes recursos. Na África, a Botsuana (56º) e a Jordânia (55º) também figuram próximas ao Brasil, mesmo com orçamentos educacionais consideravelmente menores.

Esse desempenho reflete um problema estrutural: um sistema educacional que falha em ensinar o básico e em preparar os alunos para desafios futuros. A educação deveria ser o alicerce do crescimento de uma nação, a pavimentação para um futuro minimamente digno. No entanto, ao ficarmos atrás de países com menor desenvolvimento econômico e social, provamos que estamos regredindo, condenando gerações inteiras à estagnação e aprofundando o fosso da desigualdade.

E o que dizer da nova geração? Uma juventude que passa horas assistindo vídeos curtos nas redes sociais, onde a superficialidade é a regra. Claro, a tecnologia é uma ferramenta poderosa, mas parece que estamos usando uma Ferrari apenas para dar voltas no quarteirão. Enquanto em países como Finlândia e Coreia do Sul a internet é utilizada como um instrumento de reforço ao aprendizado e ao pensamento crítico, no Brasil, ela tem sido, majoritariamente, um veículo de distração e consumo de conteúdo raso.

Um estudo do Comitê Gestor da Internet no Brasil revelou que jovens entre 15 e 24 anos passam, em média, nove horas por dia na internet, sendo a maior parte desse tempo dedicada a conteúdos efêmeros. Isso contrasta com dados de países da América Latina e da África. No Chile e no Uruguai, por exemplo, programas educacionais integram a tecnologia ao ensino formal, resultando em alunos mais preparados para desafios acadêmicos e profissionais. Já em Ruanda e Gana, na África, iniciativas digitais são utilizadas para compensar a falta de infraestrutura escolar, ampliando o acesso à educação. No Brasil, no entanto, o alto consumo de entretenimento descartável reduz a capacidade de atenção e compromete o aprendizado a longo prazo, sem gerar benefícios educacionais significativos.

O filósofo e educador Paulo Freire já alertava que "ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção", algo que se torna cada vez mais difícil em uma sociedade que privilegia o imediatismo e se satisfaz com aparências. Se países com menos recursos conseguem integrar a tecnologia à educação de forma produtiva, por que seguimos desperdiçando essa oportunidade? A quem interessa uma juventude incapaz de interpretar o mundo ao seu redor?

A falta de interesse pelo conhecimento gera consequências devastadoras. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a deficiência educacional está diretamente ligada à estagnação econômica de um país. Países com altos índices de analfabetismo funcional enfrentam maior dificuldade em se desenvolver tecnologicamente e manter uma economia competitiva. Sem uma população capaz de interpretar e aplicar informações de maneira eficaz, há um impacto negativo na inovação, na produtividade e na capacidade de adaptação às novas exigências do mercado de trabalho. Um exemplo claro é a diferença entre países que investem fortemente em educação, como a Coreia do Sul, e aqueles que negligenciam esse setor, como o Brasil. A Coreia do Sul, que há algumas décadas possuía um sistema educacional precário, hoje está entre os líderes globais em inovação, enquanto o Brasil segue lutando contra índices alarmantes de analfabetismo funcional e evasão escolar. O filósofo Michel Foucault dizia que "saber é poder", mas no Brasil estamos abrindo mão desse poder, permitindo que a ignorância se perpetue como um mecanismo de dominação e controle social.

 

O futuro que se desenha é desolador. Uma geração que não domina habilidades básicas dificilmente poderá competir em um mundo que exige cada vez mais conhecimento e inovação. A falta de qualificação compromete a empregabilidade e reforça desigualdades estruturais. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que trabalhadores com maior escolaridade ganham até três vezes mais que aqueles com ensino fundamental incompleto. Isso significa que a ausência de uma educação de qualidade não apenas limita as oportunidades individuais, mas também mantém milhões de brasileiros presos a ciclos contínuos de pobreza. Além disso, a educação deficiente gera impactos políticos e sociais profundos: cidadãos incapazes de compreender questões complexas tornam-se mais suscetíveis a discursos populistas e à manipulação midiática. O sociólogo Pierre Bourdieu[1] argumentava que a educação é um dos principais instrumentos de reprodução da estrutura social, e no Brasil essa reprodução tem se dado pela manutenção da ignorância como um fator de exclusão e submissão.

O que podemos fazer? Primeiro, é preciso valorizar os professores e investir em formação continuada. A Finlândia, referência mundial em educação, paga bons salários aos docentes e exige alta qualificação e atualização permanente, resultando em um ensino eficiente e respeitado. No Brasil, segundo dados do movimento Todos Pela Educação, mais de 40% dos professores afirmam não ter acesso a capacitação adequada. Isso significa que um número expressivo de docentes não recebe atualização sobre metodologias modernas de ensino, tornando-se reféns de um modelo ultrapassado que não estimula o aprendizado real. Além disso, a profissão docente no Brasil é desvalorizada, com baixos salários e condições de trabalho precárias, o que desmotiva os profissionais e afasta talentos do magistério. Segundo, é urgente reformular o currículo escolar, priorizando o desenvolvimento do pensamento crítico, o incentivo à leitura e a educação digital. Não podemos continuar insistindo em um modelo que forma alunos que decoram fórmulas, mas não sabem aplicá-las. Um currículo que não prepara para o mundo contemporâneo condena a juventude ao fracasso e o país ao atraso.

Pais também têm um papel essencial. Pesquisas indicam que crianças que crescem em ambientes estimulantes, com acesso a livros e conversas educativas em casa, tendem a ter melhor desempenho acadêmico. Estudos conduzidos pelo Instituto Ayrton Senna demonstram que o envolvimento dos pais na educação dos filhos é um dos principais fatores para o sucesso escolar. Em países com alto desempenho educacional, como o Canadá e a Noruega, há uma cultura de participação ativa da família no aprendizado. No Brasil, no entanto, muitos pais delegam completamente essa responsabilidade à escola, sem acompanhar o desempenho dos filhos ou estimular hábitos de leitura e estudo. A educação deve ser um compromisso coletivo, e sem o engajamento das famílias, qualquer reforma educacional será insuficiente.

Não dá para aceitar que a educação continue sendo tratada como um problema menor pelos governantes. As políticas educacionais oscilam conforme interesses políticos, sem continuidade e sem planejamento estratégico de longo prazo. Enquanto países como Singapura implementam reformas consistentes ao longo de décadas, o Brasil muda diretrizes a cada novo governo, sem uma visão clara de futuro. A consequência disso é a perpetuação de um sistema falho, que não forma cidadãos plenos e preparados para os desafios do século XXI. A inércia do poder público aliada à indiferença social é o que nos trouxe até aqui, e se não quebrarmos esse ciclo, o país continuará preso a um modelo de subdesenvolvimento crônico.

A hora de mudar é agora. Não podemos mais permitir que a educação seja vista como um setor secundário, relegado ao esquecimento e à precarização. Precisamos de um movimento urgente e coletivo, que cobre investimentos sérios, valorize professores, reformule currículos e envolva as famílias no processo educacional. Caso contrário, continuaremos colhendo os frutos amargos dessa negligência: uma sociedade que sabe muito sobre memes[2] e pouco sobre si mesma, sua história e seu papel no mundo. O Brasil está à beira de um abismo intelectual, e a única ponte para evitar a queda é a educação. Mas essa ponte precisa ser construída com urgência. Se não agirmos agora, seremos condenados a assistir, impotentes, ao colapso definitivo do futuro de nossa nação.



[1] Pierre Bourdieu (1930-2002) foi um sociólogo francês, conhecido por suas contribuições para a teoria social e análise cultural. Desenvolveu conceitos como "campo social", "habitus" e "capital cultural", que explicam como as estruturas sociais e culturais influenciam a vida individual e coletiva. Bourdieu também estudou as dinâmicas de poder e desigualdade, especialmente no contexto educacional e cultural, criticando as formas de dominação simbólica que reforçam as hierarquias sociais. Seu trabalho é fundamental para as ciências sociais, influenciando áreas como sociologia, educação e estudos culturais.

[2] Memes são unidades de informação cultural que se espalham de pessoa para pessoa, geralmente por meio da internet. Podem ser imagens, vídeos, frases ou ideias que ganham popularidade rapidamente e muitas vezes são adaptados e reutilizados em diferentes contextos. O conceito foi introduzido pelo biólogo Richard Dawkins em O Gene Egoísta (1976), referindo-se a elementos culturais que se propagam de forma análoga aos genes.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Podemos ser melhores. Ou não?



Sonhar é bom, mas viver a realidade é preciso!

Para quem gosta de esportes os meses de agosto e setembro de 2016 ficaram na memória, afinal, tivemos dois grandes eventos: as Olimpíadas e Paraolimpíadas do Rio de Janeiro.

Nesse período de integração mundial na Cidade Maravilhosa, discutiu-se muito sobre qual o legado que os jogos deixariam para o Brasil. Muitas opiniões extremas tomaram conta do discurso dos brasileiros, uns mais sisudos, pessimistas e até apocalípticos, enxergavam o evento como malefício ao povo, enquanto outros, mais exaltados e otimistas, acreditavam que as Olimpíadas eram o fim de nossos problemas.

E é neste momento que faço minha reflexão.

Diante de todas as manifestações que vi acontecerem e li nos veículos de mídias, de ambos eventos esportivos, a que mais me saltou aos olhos a criatividade do brasileiro em fazer muito com pouco. Você deve estar pensando: "Isso eu já sabia! Não é novidade!", mas, quando fazemos uma análise mais profunda e entendemos o tamanho do investimento em esporte olímpico de cada país concorrente, começamos a clarear esse pensamento.

Enquanto as potencias EUA e China, por exemplo, despejam caminhões de dólares em seus programas Olímpicos e Paraolímpicos, nós, brasileiros, como sempre, nos limitamos à esperar um milagre. Acontece, que milagres, às vezes, brotam em figuras como Arthur Zanetti, as meninas do Iatismo, o fenômeno Daniel Dias, Teresinha e tantos outros nomes de atletas Olímpicos e Paraolímpicos, aos quais gostaria de me referir nominalmente, é possível entender esse conceito de que, com pouco, fazemos muito.

Quando o assunto é a abertura e o encerramento dos dois eventos, tivemos momentos sensacionais que encatarram o mundo, nos fazendo orgulhosos de ser brasileiro, mesmo que momentaneamente. Nosso povo se emocionou com nosso hino e chorou com a superação dos nossos atletas.

Mas e quanto ao hoje? Quando acordamos desse sonho Olímpico e Paraolímpico e voltamos para nossa realidade, nos perguntamos se nós, enquanto nação, conseguimos fazer muito com pouco, em todas as esferas. Por que nossos governos não conseguem? Porque nossos políticos insistem em achar que são impunes? Porque nossos prefeitos, governadores - que se julgam tão inteligentes - não pegam o exemplo desses esportistas, nossos verdadeiros HERÓIS NACIONAIS, e não passam a fazer mais com menos?

Agora é nossa hora de nos manifestarmos por um Brasil cada vez melhor, DE todos e PARA todos, independente de raça, condição sexual, com ou sem deficiência, religião etc.

Faça sua parte e poderemos sonhar e acordar com um Brasil cada vez melhor!

Por Danilo Al Makul


Por Jânsen Leiros Jr.

Excelente reflexão de meu amigo e colega de trabalho Danilo Makul. Principalmente se a observarmos pela ótica da revelação que fizemos a nós mesmos como nação, durante todo o período da Rio 2016; fomos capazes. E se podemos resumir todo esse período em uma só palavra, creio que superação encerraria bem a essência de tudo o que nos aconteceu, diante dos olhares atentos e impressionados de todo o mundo. Somos capazes! O brasileiro sabe fazer.

O problema está exatamente em extrair tal capacidade do mundo dos sonhos da emoção e espírito olímpicos, e transformá-la em potencial realizador no mundo real e cotidiano que precisamos viver. Não foram poucos os amigos e conhecidos que demonstraram apreensão com o fim dos jogos. A vida real vai voltar, ou não quero nem ver quando esse povo todo voltar para seus países e ficarmos só nós aqui. Por que precisamos viver a euforia do sonho e o medo da realidade? Não fomos capazes? O que no sonho deu certo que na realidade não consegue dar? Será que nos fizemos melhores do que somos apenas durante os jogos? Vivemos esses dias apenas para inglês ver? No fundo sabemos que empurramos muita sujeira social para debaixo do tapete.

Mesmo sabendo que grande parte do sucesso devemos às manobras marketing político, que garantiram dias razoavelmente tranquilos e funcionalidades urbanas aceitáveis, ainda assim descobrimos uma capacidade de mudar a realidade para melhor. Porque mesmo quem arruma a casa jogando a sujeira para debaixo do tapete, demonstra saber como a casa precisa ficar quando realmente arrumada. Então sabemos o que queremos ser como sociedade, e descobrimos que podemos ser. Mas dependemos apenas de nossas escolhas. Sim, de nossas escolhas.

Quanto aos políticos e governantes citados, tão oportuna e legitimamente cobrados, eles são apenas um substrato de nossa sociedade. Não temos uma nação inteira descolada da classe política. Os políticos e governantes não são alienígenas ocupando cargos que lhes confiamos. Nem tampouco são estrangeiros. São brasileiros. Gente oriunda de nossa sociedade. Pessoas crescidas e educadas com nossos valores sociais nacionais. Eles são apenas o que somos; potencializados pelo poder e a oportunidade.

Se nos descobrimos capazes de fazer diferente, e se isso surpreendeu até mesmo os mais otimistas de plantão, também somos e seremos capazes de construir uma nação em que levar vantagens escusas, não é nada do que se possa orgulhar. Que cumprir as leis e ser correto nas relações pessoais, comerciais e profissionais não é coisa de otários e zé manés, mas sim de cidadãos que honradamente vivem de maneira proba e feliz. Que aproveitar-se do crime alheio é tão criminoso quanto o próprio ato, pois conivência também se caracteriza pela conveniência e pelo oportunismo. 

Sim, fomos e somos capazes. E se um legado pode ser extraído desse chamado espírito olímpico, que nos embebeu nos últimos dias, é o da capacidade de se reinventar como nação, como povo, como sociedade de valores diferenciados, para alcançarmos resultados diferentes. Porque o que vivemos hoje, na crueza de nossa realidade cotidiana, não nos fará ganhar medalha alguma.