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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

A lógica ilógica da justa injustiça


Por Jânsen Leiros Jr.

Que há seres humanos cuja capacidade de elucubração vai  muito além da média, ninguém duvida. O que causa espécie, é que a maioria dessas mentes privilegiadas estão no Brasil, e se concentram em ofícios públicos, exercendo direta ou indiretamente grande influência sobre o cotidiano de nossa gente.

E por que exatamente se enquadram na categoria de mentes privilegiadas? Porque são capazes de enxergar além da visão comum, e de perceber minúcias que passam despercebidas pela maioria dos mortais. Essas pessoas diferenciadas são detentoras de uma lógica peculiar superior, e um senso de justiça tão supinamente evoluído, que foge ao entendimento do brasileiro médio, que entende, quase que intuitivamente, que lugar de criminoso é na cadeia, e que corrupto não deve exercer cargo público, qualquer que seja, muito menos tomar posse em função legislativa.

Sim, esse entendimento básico e de uma lógica tão rasteira e óbvia, não é apropriada a quem possui uma visão além do óbvio. Afinal, o que é crime? E o que é público? E o que é efetivamente ético? Ou ainda, qual o sentido efetivo de justiça? E que ligação essas coisas possuem?

Enquanto nós, de mentes comezinhas, ficamos perplexos pela obviedade de que um crime precisa, por vício de premissa, ser veementemente punido, aqueles cujos olhos enxergam muito à frente, elucubram questões conceituais, utilizando-se de uma lógica ilógica, ou minimamente ideológica, que foge de nosso parco e humildes padrões restritos de entendimento e poder de conclusão.

No caso em questão, lembro-me bem, quando da decisão da ALERJ de não dar posse aos eleitos, uma vez que se encontravam presos por conta de seus envolvimentos nos crimes investigados pela Lava Jato, todos entendemos como uma decisão óbvia e justa. Claro! pensamos nós rasteiramente, não há qualquer sentido nisso, usando nossa pequena lógica; a de que presos e investigados não podem ou pelo menos não devem tomar posse de seus cargos eletivos, na casa legislativa estadual. Pensando bem, como somos tacanhos.

A lógica superior, no entanto, e portanto prevalente, é a de que enquanto tais investigados não são condenados em todas as instâncias cabíveis ao processo, não só eles devem responder em liberdade, como apesar de tudo podem, por direito, exercerem seus mandatos, ainda que tenham sido preso por crimes realizados exatamente no exercício de suas funções públicas.

Isso é mais ou menos como manter a raposa solta no galinheiro, enquanto as imagens das câmeras espalhadas pelo terreno, não confirmarem que é ela, a raposa, que anda comendo as galinhas, não obstante todas as suspeitas recaírem sobre ela. Loucura? De jeito algum. Você é que vê tudo com simplicidade e pouca profundidade. Talvez por ser ignorante, ou por ser incapaz de uma elucubração superior, própria apenas àqueles que tem o poder de lidar com circunstâncias complexas, apesar de nossa perplexidade.

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sábado, 22 de junho de 2019

Para bandido esperto, justiça sagaz


Por Jânsen Leiros Jr.


...O juiz já tinha condenado o Lula muito antes de dar a sentença. Na verdade, foi uma caçada, não um julgamento. Não acho o Lula nenhum santo. Mas está claro que o Moro também não é.

(Comentário em uma rede social, sobre o vazamento das conversas entre Sérgio Moro e MPF, divulgadas pelo site The Intercept)


Pouco importa se ‘Lula já estava condenado antes’ e que ‘houve uma cassada’; falamos do juízo de valor do comentário, e não da hipotética condição em si, claro. Todos sabiam de seus crimes. Todos sabiam de sua corrupção. Só não sabiam como pegar, como sustentar uma acusação. Como oferecer uma denúncia consistente. O trabalho deles foi direcionado a pegar o bandido de alguma forma. Com o que encontrassem, capaz de o incriminar.

Não se pode esquecer que o crime de corrupção é um dos mais difíceis de ser apanhado. Não há recibo de propina, não há movimentação bancária relevante ou nominal, não há nada que comprove cabalmente o crime. Trabalha-se, nesses casos, com indícios e a montagem de um quebra cabeça que conduz a um ‘leva a crer’ ou ao ‘tudo indica’. Tal, no entanto, não torna o delinquente inocente. Apenas demonstra o quão bem montado foi o mecanismo que viabiliza o crime.

Então as chamadas provas circunstâncias surgem ao longo do processo de investigação. Como um carro comprado com cheque de doleiro, obras em apartamentos e sítios pagas por empreiteiras “vencedoras” em licitações públicas, propriedades em nome de amigos, patrimônio incompatível com o histórico de remuneração regular, pagamento de palestras jamais realizadas, e por aí vai. Isolados, nenhum desses fatos são prova. No conjunto da obra, no entanto, notabilizam-se procedimentos corruptos que promovem tais vantagens.

Ora, alguém consegue puxar todas essas pontas do emaranhado processo de corrupção, sem organizar minimamente as frentes de atuação? E mais, não se pode esquecer, que não se estava tentando encontrar provas de um corrupto pé de chinelo qualquer, de um órgão público em uma cidadezinha do interior. Estavam lidando com um ex-presidente e com membros dos mais altos escalões da máquina pública brasileira. Pessoas que possuíam e que de certa forma ainda possuem fortes esquemas de aparelhamento do Estado, capazes de agir em larga amplitude, com poucos movimentos. Nessa escala de crimes, as falhas em um sistema de corrupção, se existem, são mínimas, e jamais os indícios são conclusivos por si mesmos. E quem ousa tocar nos poderosos?

Vale lembrar do caso de Capone, nos EUA, nos anos da Lei Seca. Esse criminoso liderou uma das mais violenta máfias já existentes no país. Todos sabiam que ele era o cabeça. Todos sabiam que ele era o mandante de centenas de mortes, cobranças de comissão, explosões, corrupções, e toda sorte de crime que se fizesse necessário, para a manutenção do império mafioso que havia montado. Era difícil pegar esse miserável. Ele vivia envolvido com a alta sociedade de Chicago, tinha amizade com poderosos políticos locais. Subornava policiais, secretários, promotores e juízes indiscriminadamente. Foi preciso chamar um agente de outra região, provavelmente fora do alcance de seus tentáculos corruptores, para tentarem pegar o indivíduo. A força tarefa que o pegou não tinha como prendê-lo pelos crimes que se sabia cometer. Foram buscar o contador da organização criminosa, e o acusaram de sonegação fiscal. E ainda assim, durante seu julgamento, foi necessário empreender ‘manobras’ judiciais para garantir lisura no processo, mantendo juízes e jurados longe dos subornos vantajosos daquele crápula. Poderíamos citar outros casos na história, mas vamos ficar com esse que já é bem emblemático.

Portanto, sim. Quando se lida com níveis extremos de crime bem estruturados e arraigados nos diversos níveis da máquina pública e das conveniências sociais, é preciso extrapolar os movimentos tradicionais com os quais o criminoso já conta, e agir adiante dele, à frente de sua capacidade de prever o movimento dos braços da lei. Como acontece com um criminoso em fuga. Ele dirige na contramão, ele atira em inocentes enquanto corre, ele derruba coisas, tudo para desviar a atenção de seu perseguidor, tentando retardá-lo e escapar da prisão. Mas quando há foco da autoridade policial que o persegue, então ela também avança na contramão, não se detém para socorrer o inocente atingido, e ainda faz um percurso mais inusitado que o próprio criminoso, apanhando-o adiante, por cercá-lo em manobra imprevisível e fora do comum. Alguém pode inocentar o criminoso ou invalidar sua prisão, porque o policial em rota de captura entrou pela contramão, passou com sua viatura por cima da calçada, e não parou pra socorrer o inocente atingido pelo bandido?

Temos na história da crônica policial brasileira fatos diversos com esse perfil. Lembro-me de um policial que, disfarçado de repórter, aproximou-se do bandido que mantinha uma pessoa como refém, e sob a mira de seu revólver. Fingindo-se cinegrafista de uma emissora de TV, o policial aproximou-se cuidadosamente e num ato de extrema destreza, desarmou o bandido e liberou a refém. Ora, a prisão se faz nula, uma vez que o policial utilizou de disfarce? Alguém o acusou de falsidade ideológica? O bandido foi inocentado pela forma com que se deu sua prisão? Ou ainda, o policial foi criticado ou considerado suspeito por sua conduta habilidosa com que impediu a morte de uma refém? Não né? Tempos em que a polícia era o herói e o bandido... bandido.

A verdade é que não havia qualquer possibilidade de pegar o criminoso Lula da Silva, se não fosse por processo bem alinhado e tratado nos detalhes, exatamente para que ele não escapasse pelo uso das filigranas processuais. O que tentam aqueles que querem acabar com a Operação Lava Jato, é utilizar o rigor das condutas éticas processuais, sabidamente flexibilizadas na prática, a favor do criminoso e contra a autoridade que o denunciou, e o juiz que o condenou. Mas a verdade, povo brasileiro, que não é possível agir com fofura com bandidos tão espertos, articulados, influentes e poderosos. Para crimes extremos, medidas legais, porém de sagacidade extrema!

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Gritos e pichações - táticas de guerrilha

 Por Jânsen Leiros Jr. 
" Tentar desqualificar um oponente ideológico é o primeiro sintoma da perda do argumento e da convicção do que se defende”.
http://pensadorialimpo.blogspot.com/

Em sua coluna no jornal O Globo de 17/12/2018[1], o respeitado Demétrio Magnoli, por quem tenho razoável admiração, fez colocações claramente forçadas, na intenção de colar no juiz e futuro ministro da Justiça Sérgio Moro, o rótulo de quem se prestará a um papel de capanga de Bolsonaro no novo governo. Uma tentativa flagrante de desqualificar o ocupante do cargo, ao mesmo tempo que reduzir a importância da pasta na estrutura do Estado.

Sob o título Moro, a lei e a desordem, o colunista afirma que Ele pode assumir ministério de cabeça erguida, desde que reconheça natureza política da nova função. Na prática, Magnoli parece fazer eco à grita dos que estão apavorados com a possibilidade de terem seus malfeitos revelados, como fraturas expostas purulentas e não tratadas, porque camufladas sob o aparelhamento a que foi submetido o Estado brasileiro. A maneira como encadeia as ideias em seu artigo, dá a entender que prepara a sustentação filosófica para uma vitimização em massa, dos que temem ser alcançados pela justiça.

Primeiro, ainda que não literalmente, ele dá a entender que há uma sub-reptícia ambição política do futuro ministro, ao aceitar deixar suas funções como juiz federal de primeira instância no Paraná, e assumir a pasta da Justiça. Isso porque afirma que tanto o cargo quanto a tarefa a ser exercida por seu ocupante é eminentemente política, uma vez que atende aos interesses de governo do presidente da república. Ora, ele nem estaria errado, não se tratasse de Sérgio Moro e Jair Bolsonaro. E por que os coloco como diferenciais no argumento? Porque desde o princípio, o presidente eleito destacou que seu viés de escolha para os ministérios seria de competência técnica, e não em função de loteamento político a partidos e aliados. Sérgio Moro no Ministério da Justiça é quase que uma escolha óbvia, não apenas por notória qualificação, mas também por emblemática demonstração das pretensões do futuro governo.

“Da declaração de Moro infere-se o projeto de transformar a Lava-Jato em programa de governo, o que implicaria politizá-la”. Não, a Lava Jato não será um programa de governo, mas o combate à corrupção é, e sempre foi, um declarado programa de governo do presidente eleito, e um dos principais pilares de sua campanha. A colocação do colunista reduz assim a operação a uma ferramenta política de Bolsonaro, inferindo que, a partir de agora, tudo o que a Lava Jato vier a revelar, bem como todos os seus desdobramentos, perderão a isenção e necessária imparcialidade, tornando suspeitos todos os seus movimentos.

Mas o que o então juiz Sérgio Moro quis dizer em sua declaração de que estaria indo “consolidar os avanços da Lava Jato em Brasília”, é que, como ministro da Justiça, trabalhará para que Polícia Federal e demais órgãos ligados ao combate ao crime e à segurança pública, estejam livres das pressões daqueles que tentam fazer do Estado uma máquina a serviço de interesses pessoais ou políticos, quer sejam próprios ou de aliados. Ou alguém tem dúvida das dificuldades encontradas por PF e MPF no desenvolvimento de suas funções e operações, quando essas alcançam ou pretendem alcançar, figuras ou figurões do cenário nacional?

Não são só declarações. Moro pretende estreitar a integração entre a Polícia Federal (PF), o Ministério Público (MP) e o Conselho de Atividades Financeiras (Coaf) para investigar a origem dos recursos depositados no exterior e repatriados em programas de incentivos dos governos Temer e Dilma. O futuro ministro esboça um desenho no qual sua pasta supervisionaria investigações criminais, indicando prioridades à PF, ao MP e ao Coaf. Desse monstro, só pode nascer um Estado policial: a lei a serviço da desordem.” Ora, investigar aquilo que sabidamente esconde ações ilícitas caracteriza Estado policial? Ou seria desde sempre dever de origem de um ministério, que se pretende, seja o órgão garantidor da justiça e dos interesses da nação brasileira. É óbvio que o intuito aqui, mais uma vez, é preparar conceitualmente o cenário, para mais à frente, quando das inevitáveis descobertas de desvios e de tudo o mais que vier a ser revelado, possam dizer que não passa de mero revanchismo político do futuro governo. A velha máxima de tentar desqualificar o opositor.

Moro, contudo, quer destruir o muro que isola o sistema judicial da influência do governo”. Outra grande máxima: Acuse-os do que você faz. Quem por quatorze anos, e por quantos mais não se sabe, exerceu e ainda exercerá toda sorte de influência no sistema judicial foi o PT e seus aliados. Com indicações convenientes e estratégias políticas conjuntas, os partidos então no governo, arbitraram as diretrizes das decisões judiciais, apenas tendo como desfavoráveis, aquelas em cujo clamor nacional e o peso das vaidades pessoais, falaram mais alto no foro íntimo de alguns dos agentes do processo. Na prática, mais uma fala que tenta antecipar ideologicamente a falácia futura, quando as decisões dos tribunais eventualmente condenar esse ou aquele envolvido. A justiça está a serviço de um governo revanchista, dirão a plenos pulmões.

Ou seja, o que temos nesse artigo publicado no O Globo, que sugiro que seja lido na íntegra, é uma verdadeira conceituação e um pretenso embasamento filosófico, para tentar desqualificar, desde já, tudo o que a continuidade da operação Lava Jato vier a revelar, quer a partir do que já tem investigado, quer no seu aprofundamento quando da desobstrução dos corredores por onde tramitam interesses e conchavos políticos lesivos à nação.

No fim, o que passaremos a ver com certa frequência na mídia formal e nas redes sociais, é uma batalha por nossas mentes e corações. Mais exatamente uma guerrilha, em que os derrotados nas urnas picharão os muros de nossos entendimentos com palavras de ordem, que também gritarão aos quatro cantos. Tentarão conduzir nossas consciências a contextos em que a manipulação ideológica se torna mais fácil, tentando angariar efetivo para a desejada resistência; a prática da divisão – eles e nós. Essa gente não quer um país passado a limpo, nem uma nação coesa e unida, ainda que diversa. Eles querem a manutenção da obscuridade e de tudo que mantenha um ambiente sombrio e dividido. Eles adoram muros. Porque trabalham no escuro e no secreto, já que suas verdadeiras intenções e obras seriam expostas à Luz.

sábado, 26 de março de 2016

Nem esquerda, nem direita. Com toda convicção


Por Jânsen Leiros Jr.


"Aprendi com Juan Luis Segundo[1] que teólogo não tomar posição em situações críticas na sociedade, para não correr risco de errar, é um erro maior."

Jung Mo Sung[2] - em seu twitter


"Concordo plenamente", respondi de pronto ao ler. E não me arrependo do que respondi, embora, confesso, não refleti nem um segundo sequer antes de escrever e enviar meu comentário. Não podemos mesmo fugir dessa responsabilidade de firmar posição, temendo que as incertezas quanto ao rumo dos fatos e das circunstâncias, nos forcem em futuro próximo ou mesmo em longo prazo, a rever posições e argumentos, defesas ou ataques, que tenhamos feito no calor do cenário em que estejamos atualmente envolvidos. É preciso coragem e posicionamento.

Afirmo isso e reafirmo, embora tenha sido, por alguns, acusado de não ter declarado abertamente a minha posição relativamente aos acontecimentos que têm causado esse turbilhão no cenário nacional brasileiro. "Você está em cima do muro", disseram, entendendo que diante das circunstâncias que estão provocando crescentes e insuportáveis incertezas na política e na economia, não tenha sido claro quanto ao lado a que me alinhei. Ora, o meu lado é tão inquestionável, tão óbvio a quem me lê regularmente... O meu lado é o do fim da corrupção, e o da recuperação econômica do país o mais rápida e consistentemente possível.

Lamento muito que isso deva frustrar os mais acirrados militantes e os apaixonados partidários de plantão. Mas não me verão jamais vestindo camisas de nenhum dos lados, por um motivo muito simples e firme. Em ambos os lados que por hora se polarizam, não há qualquer sombra de coerência no espectro mais amplo de suas aspirações. Ou seja, se não me ouvirão gritar "fora Dilma", tão pouco levantarei a voz para dizer "não vai ter golpe". E acreditem-me, isso não é ficar indeciso ou em cima do muro. É antes uma posição muito firme e convicta, de quem não concorda com qualquer atitude alienada, que fuja da responsabilidade cidadã de participar e contribuir nesse momento tão crítico do país.

Quem me acompanha por aqui, sabe que desde antes das eleições de 2014, venho me posicionando com clareza sobre os movimentos, tanto da situação quanto da oposição, repudiando veementemente todas as suas falas incoerentes e puramente partidárias. Os textos estão todos por aqui no blog. É só buscar e ler. E se o fizerem, perceberão que minha principal preocupação, há algum tempo, vinha sendo exatamente essa polarização burra e partidária, que torna cega e oportunista cada movimentação nesse tabuleiro do jogo político. E que fique claro, cega por parte das militâncias e apaixonados, e oportunista por parte das lideranças de direito ou de ocasião.

Penso, sem qualquer dúvida, que é completamente conveniente, casuísta e manipuladora, a argumentação do governo de que há um movimento golpista por parte da oposição e de determinados setores da sociedade, que tenta lhes arrancar do poder simplesmente porque não aceitam os resultados das urnas em outubro de 2014. Os governistas e suas militâncias tentam banalizar os fatos, fingindo não existirem as estarrecedoras descobertas sobre a corrupção que se instalou estruturadamente nos diversos escalões do poder.

Por outro lado, assistimos à mais tímida e pouco convicta ação de determinados expoentes da oposição, tamanho grau de envolvimento e sujeira em estão igualmente enterrados até o pescoço. Sim, porque está claro para toda a sociedade, que se o atual governo e seus aliados estão comprometidos com esse mar de lama que se agiganta a cada movimento da operação Lava Jato, diversos oposicionistas estão apavorados com o que ainda poderá vir a ser descoberto pelo MPF e os investigadores da PF. Nesse ponto tem toda razão o ex-presidente Lula em sua conversa com a presidente Dilma; temos um congresso "acovardado".

Ora, se estão acovardados diante de uma operação que avança mar de lama adentro, é porque todos têm receio de que poderão ser descobertos a qualquer momento, passando ao discurso cínico e de aparente indignação, condenando o sofá da sala e o infeliz que acendeu a luz do quarto onde, às escuras, cometiam seus crimes com tranquila e bem cômoda impunidade.


Sou totalmente a favor, portanto, do avanço e da continuidade implacável da operação Lava Jato. E embora entenda os limites legais a que se deve subordinar o juiz Sérgio Moro, uma vez que flagrantemente se joga com os parâmetros da lei e os ritos processuais ardilosamente para favorecer criminosos, e considerando ser isso uma inversão de propósito, gostaria de ver o foro privilegiado de todos suspenso, e as investigações mantidas nas mãos de quem já se demonstrou imparcial e ainda alheio ao execrável jogo de conveniências políticas, que contaminou grande parte dos integrantes dos poderes constituídos desse país.

Mas que se perceba com isso outra clara posição minha. Enquanto a presidente Dilma não for envolvida direta ou indiretamente em qualquer dos crimes investigados pela operação Lava Jato em suas mais diversas fases, e por mais legítimo que seja o processo a que responderá pelas chamadas pedaladas fiscais, é preciso que a legitimidade de sua eleição seja respeitada, não se arrancando sua excelência de sua cadeira precipitadamente, antes que o processo corra todo seu rito de legalidade. Digo isso porque, na prática e de forma indevida, a estamos depondo mesmo antes do final do processo, provocando em determinadas situações e circunstâncias, uma incômoda sensação de ilegitimidade, a um processo que poderia ter, em sua vocação de espontaneidade popular, o mais desejável e insofismável direito de se sobrepujar às manobras de quem pretende escapar da justiça.

Por tudo isso, talvez, eu tenha gostado tanto de ver Aécio e a comitiva do PSDB sendo hostilizada pelos manifestantes na capital paulista, no último treze de Março, quando com a cara de pau e o oportunismo que é próprio a essa gente, tentaram se autopromover, participando de uma manifestação onde eles seguramente não nos representavam. Até porque, pelo andar da Lava Jato, em breve voltaremos às ruas para pedir igualmente por investigações desses senhores, e de tantos outros que ainda se encontram em estado de choque, depois que seus nomes e apelidos foram divulgados numa certa lista da Odebrecht.

Assim, o que me dá a total liberdade de assumir uma posição não polarizada por nenhum dos lados, é a firme convicção de que nem um, nem outro, é capaz de me representar politicamente, qualquer que seja abrangência de seus atos, ou a ambiência de suas atuações. Vivemos o mais ultrapassado e inconveniente jeito de fazer política e de governar uma população. Nenhum dos lados é capaz de me fazer tomar partido em seu favor. Eles não têm de mim, como de uma boa parte da população, qualquer apreço ou predileção, e ficar com o lado menos pior, jamais foi uma opção aceitável  para mim. Ou será que invertendo a máxima de minha avó, eu deveria considerar que antes mal acompanhado do que só?


[1]  Juan Luis Segundo foi padre católico jesuíta e teólogo uruguaio, considerado o maior expo-ente da Teologia da Libertação na América Latina. (1925 - 1996); fonte: Wikipédia
[2]  Jung Mo Sung é um teólogo católico e cientista da religião, coreano radicado no Brasil des-de 1966. É professor titular da Universidade Metodista de São Paulo no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião. (1957 - ); fonte: Wikipédia