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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A fé no paredão e a democracia de conveniência

 

Por Jânsen Leiros Jr.

Há algo de profundamente inquietante acontecendo no debate público brasileiro. Não é apenas polarização. Polarização é sintoma. O que se observa é algo mais grave: a naturalização de um discurso que condiciona direitos políticos à conformidade ideológica.

E, curiosamente — ou nem tanto — o alvo recorrente tem sido o segmento evangélico.

Não se trata aqui de blindar igrejas, lideranças religiosas ou qualquer grupo social de críticas legítimas. Democracia não é imunidade moral. Democracia é tensão administrada. O problema começa quando a crítica se converte em desqualificação estrutural da cidadania.

Quando um intelectual sugere — ainda que em tom de “provocação” — que evangélicos não deveriam votar porque não escolhem seus pastores por sufrágio universal, não estamos diante de humor refinado. Estamos diante de um argumento perigosamente autoritário.

A lógica implícita é simples e assustadora:

Se a estrutura interna de sua comunidade não é democrática nos moldes iluministas, você não está apto à democracia política.

Ora, essa régua não sobreviveria cinco minutos se aplicada a qualquer outro grupo cultural ou religioso. Nenhuma tradição espiritual organiza sua liderança por referendo popular. Nem o Vaticano, nem o candomblé, nem o budismo tibetano. E nem por isso se questiona o direito de seus fiéis votarem.

O que está em jogo, portanto, não é coerência teórica. É seletividade moral.

E seletividade moral é o primeiro degrau da exclusão política.

O Estado é Laico. O Cidadão, Não.

Há uma confusão recorrente — e convenientemente estimulada — entre laicidade do Estado e neutralização do indivíduo.

O Estado não tem religião.

O cidadão tem.

O Estado não professa fé.

O cidadão vota segundo consciência.

A Constituição brasileira garante liberdade religiosa e liberdade de voto. Não estabelece hierarquia entre convicções filosóficas, religiosas ou ateias. A ideia de que valores religiosos desqualificam o voto é uma forma elegante de censura moral.

John Locke, ao escrever sobre tolerância, defendia que o Estado não deveria interferir na consciência individual porque a consciência não é território administrativo. Quando se começa a sugerir que determinadas convicções tornam alguém politicamente suspeito, estamos ultrapassando Locke e nos aproximando de algo muito menos iluminado.

Assistência Social Não É Dívida Eleitoral

A segunda camada da questão é ainda mais delicada.

Quando um chefe do Executivo afirma, em tom combativo, que determinado grupo “recebe benefícios do governo” e, na mesma linha, convoca sua base a confrontar e “escrachar” críticas vindas desse segmento, há uma mensagem implícita que não pode ser ignorada:

O benefício social passa a ser narrado como concessão graciosa do governante.

Mas programas de transferência de renda não são esmolas personalizadas. São políticas públicas financiadas por tributos — inclusive pagos pelos próprios beneficiários, direta ou indiretamente.

O Bolsa Família (ou qualquer outro programa similar) não pertence ao presidente de plantão. Pertence ao arcabouço legal do Estado brasileiro.

Transformar assistência em instrumento de constrangimento político é retroceder à lógica do favor. É a política do curral, agora digitalizada.

E aqui cabe uma pergunta incômoda:

Desde quando cidadania virou contrato de gratidão?

Se o auxílio exige alinhamento ideológico, ele deixa de ser política pública e passa a ser mecanismo de dependência.

E dependência política não é justiça social. É coronelismo reembalado.

O “Ódio do Bem”

Vivemos a era do ódio justificado.

O preconceito, quando direcionado ao grupo “errado”, vira crítica social sofisticada.

A desqualificação coletiva vira “análise cultural”.

Se alguém dissesse que adeptos de religiões de matriz africana não deveriam votar porque seguem lideranças não eleitas, o país entraria — com razão — em estado de indignação moral. Haveria notas públicas, investigações e manchetes.

Mas quando o alvo é o evangélico — especialmente o evangélico pobre — parte do debate se transforma em ironia acadêmica.

Essa assimetria revela algo mais profundo: não estamos discutindo religião. Estamos disputando narrativa.

E quem controla a narrativa controla a moldura moral da indignação.

Democracia de Conveniência

Democracia não é o direito de votar apenas quando o voto agrada. Democracia é aceitar que o outro, com valores distintos, possui igual legitimidade política.

Se começamos a classificar eleitores como menos qualificados porque votam segundo convicções religiosas, abrimos precedente perigoso.

Hoje é o evangélico. Amanhã pode ser o conservador. Depois, o progressista. Em seguida, qualquer um que não caiba na ortodoxia do momento.

A história mostra que toda exclusão começa com uma justificativa racional sofisticada. Sempre há um argumento técnico. Sempre há uma exceção bem-intencionada. E, de exceção em exceção, constrói-se o autoritarismo aceitável.

A Questão de Fundo

Não se trata de defender igrejas. Nem partidos. Nem governos.

Trata-se de defender um princípio:

Direitos políticos não são condicionais.

Não dependem de simpatia cultural.

Não dependem de aprovação acadêmica.

Não dependem de alinhamento ideológico.

Quando o voto passa a ser avaliado segundo o conteúdo moral do eleitor, estamos perigosamente próximos de redefinir cidadania como privilégio.

E privilégio não é democracia.

Uma Advertência Final

Uma sociedade que normaliza o desprezo público contra um segmento religioso específico não está fortalecendo a laicidade. Está corroendo a confiança institucional.

Não existe justiça social sem igualdade de dignidade.

Não existe pluralismo sem tolerância recíproca.

Não existe democracia saudável quando a régua da indignação mede apenas um lado.

A democracia não pode ser de conveniência.

Ou ela vale para todos — inclusive para quem discorda de nós —

ou não vale para ninguém.

E quando a fé começa a ser colocada no paredão moral, não é apenas um grupo que está sob julgamento.

É a própria ideia de liberdade.




domingo, 22 de setembro de 2024

Cadeiras voam! Tanto quanto nossos sonhos de um país melhor

Por Jânsen Leiros Jr.

"Uma pessoa pode acreditar de forma apaixonada que está certa, mas quando essa crença se torna intolerante à divergência, ela se transforma em tirania disfarçada de virtude." – John Stuart Mill

"Onde há boa ordem, há boa política, pois os governantes buscam o bem comum, não a destruição de seus adversários." – Nicolau Maquiavel

"A política, de fato, é a arte de garantir o bem comum, e não o confronto estéril entre facções que buscam apenas o poder pelo poder." – Aristóteles

"A inabilidade para discutir de maneira racional substitui o verdadeiro debate por brigas e provocações, e nenhuma sociedade pode florescer onde esse é o padrão." – Bertrand Russell

"Quando os políticos deixam de agir pelo bem da sociedade e se dedicam apenas a atacar seus rivais, a república se enfraquece, pois é da justiça, não da violência, que ela se sustenta." – Montesquieu

"A essência da política é a liberdade; onde o discurso se transforma em violência, a política perde seu valor e a sociedade se distancia da verdadeira democracia." – Hannah Arendt

Nota sobre os autores acima[1] 

              A realidade das campanhas eleitorais no Brasil é desoladora. Em vez de promoverem debates profundos que esclareçam o eleitor e apresentem visões de mundo e soluções concretas, o que vemos é um verdadeiro circo de provocações e baixarias. Acusações, mentiras e calúnias se tornaram armas para inflamar "torcidas organizadas", e isso expõe nossa fragilidade democrática. Décadas de suposta democracia não foram suficientes para evitar que nossas disputas políticas permanecessem infantis e vazias.

Considerando as frases acima e o ambiente vivido por seus diferentes autores, há que se concluir que a rivalidade política já promoveu, ao longo da história, circunstâncias, no mínimo, desconfortáveis. Mas o recente episódio envolvendo Datena e Pablo Marçal em debate promovido pela TV Cultura escancara o nível raso das discussões políticas no país. A violência, seja verbal ou física, transforma o debate eleitoral em um confronto estéril, onde o objetivo de construir um país melhor é completamente obliterado. Práticas como essas, longe de beneficiar a nação, apenas alimentam uma polarização perigosa, convertendo os eleitores em meros espectadores de um jogo sujo, sem qualquer entendimento real do que está em jogo.

A democracia se fragiliza quando estratégias de desqualificação e agressão substituem a apresentação de propostas sérias e viáveis. Isso reflete uma política pobre, que, incapaz de se livrar de expedientes rasteiros, prefere explorar o emocional, a raiva e a confusão. Como consequência, o eleitorado brasileiro é conduzido por uma onda de irracionalidade que perpetua o ciclo de promessas vazias e embates superficiais.

Se o Brasil deseja crescer como nação, é urgente romper com essa cultura política decadente, que apenas empobrece nossa democracia. Não podemos mais tolerar campanhas eleitorais que se assemelhem a arenas de gladiadores, enquanto questões fundamentais como saúde, educação, segurança e desenvolvimento econômico são deixadas de lado. O Brasil não precisa de candidatos que saibam brigar, mas de líderes que saibam governar com integridade, visão e compromisso real com o futuro.

                É insuportável ver a política nacional reduzida a um espetáculo grotesco, onde o bem-estar do país é deixado de lado. Até quando aceitaremos que a verdadeira democracia seja pisoteada por personagens que preferem a luta suja em vez da luta por soluções? Precisamos romper com essa engrenagem que empobrece o país e transforma eleitores em massa de manobra de um jogo sem propósito. O despertar é urgente, e ele exige uma mudança de mentalidade, não apenas de candidatos. Se continuarmos a aplaudir esse show de horrores, que futuro estaremos construindo?


[1] John Stuart Mill: Filósofo britânico do século XIX, defensor do utilitarismo e dos direitos individuais, especialmente da liberdade de expressão.

 

Nicolau Maquiavel: Pensador renascentista italiano, autor de O Príncipe, conhecido por suas teorias políticas pragmáticas sobre poder e governança.

 

Aristóteles: Filósofo grego clássico, discípulo de Platão, cujas ideias sobre ética e política influenciaram profundamente o pensamento ocidental.

 

Bertrand Russell: Filósofo e matemático britânico do século XX, famoso por seu trabalho em lógica, filosofia da linguagem e ativismo pela paz.

 

Montesquieu: Filósofo e jurista francês do Iluminismo, conhecido por sua teoria da separação dos poderes no governo.

 

Hannah Arendt: Filósofa política alemã do século XX, destacada por suas análises sobre o totalitarismo, a natureza do poder e a liberdade.


terça-feira, 30 de outubro de 2018

Resistência à democracia?


Por Jânsen Leiros Jr.

" Boulos convoca protestos contra eleição de Bolsonaro em “defesa da democracia”"
 “vai ter oposição, essa oposição vai tá na rua (…) e já vamos para as ruas nos próximos dias (…) pra afirmar a defesa da democracia”.
https://catanduvasmais.com.br/boulos-convoca-protestos-contra-eleicao-de-bolsonaro-em-defesa-da-democracia/


Logo após a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais, Guilherme Boulos do PSOL, que no primeiro turno das eleições teve 0,58% dos votos, considerando-se representativo e porta-voz da campanha derrotada, convocou em um vídeo que viralizou pela internet, um chamado movimento de resistência contra o candidato eleito, em favor da democracia... Democracia? Eu sinceramente não consegui entender essa sua lógica.

Pelo que se sabe, e a menos que todo o jornalismo que cobriu o processo eleitoral tenha omitido quaisquer ocorrências, tudo correu na mais perfeita ordem em todo o território nacional. Segundo relatório passado pela ministra Rosa Weber, presidente do TSE, os casos de descumprimento da lei eleitoral esse ano foi menor do que os registrados em 2014, o que reforça o entendimento de que, não obstante o acirramento dos ânimos das campanhas nessa reta final, o clima de respeito e ordem entre a população foi exemplar.

E não só isso. O resultado das urnas seguiu o que franca e abertamente se percebia entre o eleitorado. Tanto é assim, que algumas pesquisas sobre a percepção do eleitor quanto a quem ganharia a eleição presidencial, apesar das particulares predileções, indicavam que 87% dos eleitores acreditavam na vitória de Jair Bolsonaro. De modo que as urnas, quando abertas, não revelaram qualquer surpresa do que já se imaginava.

Portanto, o candidato vitorioso foi eleito, não por ato de força ou imposição de qualquer instituição, senão pelo voto livre e espontâneo da maioria dos eleitores. Mais exatamente pouco mais de 57 milhões de pessoas, ou 55% dos votos válidos. Ou alguém soube de qualquer eleitor de Bolsonaro que tenha assim votado, motivado por chantagem ou ameaça qualquer?

Qual a motivação então de uma resistência ao resultado das urnas? Em que momento houve qualquer imposição pela força, que contra ela se requeira uma resistência? Sim, porque só se resiste ao que se é forçadamente obrigado. Mas se o resultado das urnas expressa a vontade da maioria, a isso não se resiste, mas se acata. Aliás, a isso sim chamamos democracia. Mas em vez disso, o que Guilherme Boulos e quem quer que ele represente pretende, é uma resistência à democracia.

Ora, demonizar Jair Bolsonaro tentado fazer de sua figura um inimigo público é completamente sem sentido, uma vez que desrespeita a escolha da maioria, e menospreza o voto de todos os seus eleitores. Além disso, tentar tornar ilegítima sua escolha é tentar criar um terceiro turno nas eleições, pleito não previsto na constituição brasileira. Claro que uso de ironia.

Em sua fala no vídeo, Boulos diz que o Brasil é muito maior que Bolsonaro. Nisso ele está coberto de razão. E por isso mesmo ele só poderá ser presidente, porque foi exatamente o Brasil, pela escolha soberana da maioria de seus eleitores, que o escolheu para o cargo de presidente da república. Não fossem esses votos, ele não teria sido eleito. Sim, Jair Bolsonaro é mesmo um soldado, que cumprirá a missão dada pelo povo brasileiro, de presidi-lo pelos próximos quatro anos. Ou será que a democracia só é boa e o voto da maioria só é válido, quando favorável à esquerda?

Sim, também é verdade que uma parcela representativa da população votou em Fernando Haddad. Mas essa parcela, ainda que representativa, é menor do que a parcela que votou em Bolsonaro, o que faz dele, pela constituição federal, o legítimo e democraticamente escolhido chefe do governo do Brasil. Desrespeitar a vontade da maioria, isso sim, é um atentado ao estado democrático de direito. De modo que toda insatisfação e toda a contrariedade são aceitáveis, desde que respeitadas as condições constitucionais. Mas incitar a população a uma pretensa resistência, como se uma batalha sangrenta tivesse sido travada para eleger Bolsonaro, é pretender manter a nação dividida, colocar lenha em um clima de guerra, onde os interesses políticos de alguns, são flagrantemente mais importantes que os interesses de toda uma nação.

Sim, porque o que o brasileiro quer, independente de quem o lidere, é a melhoria de suas condições de vida. É a recuperação e o crescimento da economia, de modo a garantir-lhe emprego, educação, saúde e segurança. O que o brasileiro quer é o combate ostensivo à corrupção, que sangra os cofres do governo e impede a efetiva execução das políticas públicas. Um ambiente de disputa pelo poder e a manutenção do cenário de um país divido, só atende aos interesses de quem pretende manter uma parte do povo cativo, para dele se utilizar como patrimônio eleitoral, conforme suas conveniências e casuísmos.

É preciso entender de uma vez por todas que o processo eleitoral chegou ao fim. Acabou. Temos um presidente eleito. E é hora de descermos todos do palanque e trabalharmos. Temos um país a reconstruir. Temos uma economia a recuperar, e isso não se faz com palavras de ordem, e muito menos com incitação das massas. Riqueza se produz com trabalho, dedicação e empenho.

Maravilha da democracia, se o presidente eleito não corresponder, trocamos. Se pior que isso, o impedimos. Somos mesmo maiores que qualquer candidato eleito. Nós os colocamos, nós os trocamos. Simples assim.

Precisamos sim dar uma virada de mesa, mas para mudarmos os rumos desse país. Deixarmos de ser o país da corrupção, para nos tornarmos o país da produção. Um país dado a mais trabalho e menos discurso. Um país onde haja direitos à medida que deveres cumpridos. Um país onde a assistência seja um socorro e um apoio temporário, e não uma dependência permanente que vicia e escraviza. Uma nação em que incentivos fiscais não se transformem em margem de lucro de empresas, barganhas políticas, ou propinas escusas.

Não é hora de resistência, mas de inteligência, unidade e convergência. Inteligência para percebermos que a hora de reagirmos no cenário mundial é agora. De unidade para deixarmos de lado as diferenças e predileções políticas, entendendo que estamos todos do mesmo lado, no mesmo time, e que temos todos um mesmo objetivo. E de convergência, para que todos os esforços e recursos de nossa gente, estejam voltados para um único fim; fazermos desse país, definitivamente, uma grande nação. Somos o maior país da América Latina. Um gigante, que precisa caminhar firme na direção de um futuro compatível com a grandeza de seu povo, em vez de viver tropeçando nas próprias pernas.

Daqui pra frente, se alguém sugerir que você se engaje em alguma inoportuna resistência, responda com simpatia que está ocupado, construindo um novo Brasil.