domingo, 22 de fevereiro de 2026

Um colapso por espetáculo e sob aplausos

Por Jânsen Leiros Jr.
                 O cenário do aparente progresso

Que o mundo parece estar perdendo o rumo todos já perceberam.

Que os pilares de qualquer civilização estão sendo destruídos à medida que a humanidade caminha é uma realidade que se impõe — exceto àqueles que se encantam pela modernidade tecnológica e entendem tecnologia como sinônimo de desenvolvimento e avanço rumo a um momento de apoteose da humanidade.

Mas também podemos entender o que vivemos como sociedade global como aquilo que, em medicina popular, costuma-se chamar de “a melhora da morte”.

Diante desse quadro, e para se compreender melhor todo o contexto, há perguntas inevitáveis, necessárias e que parecem exigir escolha, mas cuja própria formulação já denuncia um equívoco de percepção.

Quando nos perguntamos que rumo seria pior perder definitivamente no contexto atual — a verdade, a profundidade, a liberdade ou a capacidade de sustentar constância, pilares civilizacionais — somos tentados a estabelecer uma hierarquia entre elas, como se fossem virtudes concorrentes disputando prioridade moral. No entanto, uma análise mais rigorosa revela que não estamos diante de alternativas, mas de uma única estrutura composta por elementos interdependentes.

Não são valores paralelos. São fundamentos que se sustentam mutuamente. Retire um, e os demais começam a vacilar. Retire dois, e a cultura perde estabilidade. Retire todos, e o que resta não é civilização, mas espetáculo.


A verdade e o rompimento com o real

Desde Aristóteles, compreende-se a verdade como correspondência entre intelecto e realidade. A mente não cria o real; ela o reconhece. Essa formulação, desenvolvida pela tradição metafísica clássica, ultrapassou o campo meramente lógico e afirmou que a verdade não é simples construção discursiva, mas reconhecimento de uma ordem que precede o pensamento.

Logo, não se trata de invenção linguística, mas de adequação ao que é.

Nas últimas décadas, porém, ganhou força uma concepção distinta. A linguagem passou a ser entendida não apenas como meio de descrição, mas como instrumento de produção de realidade. O que se afirma deixa de ser avaliado por sua correspondência com o mundo e passa a ser medido por sua eficácia, por sua capacidade de mobilização ou de imposição simbólica.

Nesse ambiente, consolida-se aquilo que se convencionou chamar de pós-verdade: não a negação explícita dos fatos, mas sua subordinação à narrativa dominante.

Perder a verdade, nesse contexto, não significa apenas incorrer em erro intelectual; significa romper o vínculo entre linguagem e realidade.

Quando esse vínculo se fragiliza, o discurso deixa de descrever o mundo para tentar substituí-lo. A política transforma-se em engenharia narrativa. A moral converte-se em convenção funcional. A educação deixa de formar para tornar-se instrumento de adaptação às versões hegemônicas. A própria noção de fato passa a depender de validação coletiva, não de correspondência objetiva.

A ruptura entre verdade e realidade não produz apenas confusão teórica. Ela reconfigura estruturas sociais inteiras. Onde a verdade deixa de operar como referência, o poder tende a ocupar seu lugar. O que prevalece já não é o que corresponde ao real, mas o que consegue impor-se como versão dominante — ainda que transitória, ainda que instável. Ainda que não-verdade.


A superficialidade como cultura

A verdade pode até continuar existindo formalmente e, ainda assim, tornar-se inofensiva. Isso acontece quando se perde a profundidade. Não é necessário negar a verdade para neutralizá-la; basta esvaziá-la.

Vivemos sob a lógica da superfície. A velocidade da informação produz a sensação de conhecimento, mas raramente conduz à compreensão. Tudo é acessível, quase nada é assimilado. O excesso de dados substitui o exercício do pensamento.

Democracias modernas sempre correram esse risco: formar indivíduos inclinados ao imediato, ao útil, ao confortável. Quando a vida pública deixa de ser sustentada por virtudes internas, o que prevalece é a pressa — e a pressa é inimiga da profundidade.

Profundidade exige interioridade. Exige silêncio, exame, maturação. Mas uma cultura orientada pela visibilidade permanente dificilmente tolera o invisível. Formam-se pessoas tecnicamente aptas e emocionalmente estimuladas, mas incapazes de sustentar convicções que atravessem o tempo.

Quando a profundidade é abandonada, a verdade não desaparece de imediato; ela é simplificada até caber em um slogan. A liberdade converte-se em palavra de campanha. A indignação transforma-se em performance pública. A experiência religiosa, quando existe, torna-se espetáculo. O raso é sempre mais fácil de organizar, de repetir, de manipular.


A liberdade entre a verdade e o poder

Verdade e profundidade, ainda que preservadas, não bastam se a liberdade for comprometida. Sem liberdade, até a verdade se torna frágil. Mas liberdade não é ausência de limites; é capacidade de agir orientada por um referencial que a transcende.

O problema começa quando se redefine liberdade como mera afirmação de vontade. Nesse cenário, desejar passa a equivaler a ter direito, e o indivíduo se converte na medida última de todas as coisas. A liberdade deixa de ser responsabilidade e torna-se impulso legitimado.

Por outro lado, quando a verdade é dissociada da liberdade, ela se converte em imposição. O discurso que deveria iluminar passa a controlar. A história já mostrou que a invocação da verdade pode servir como instrumento de coerção quando não encontra o freio da liberdade.

A tensão é inevitável: sem liberdade, a verdade oprime. Sem verdade, a liberdade dissolve-se em arbitrariedade. Entre o caos e a coerção, civilizações oscilam quando perdem o equilíbrio entre essas duas forças.


A constância invisível

Há uma virtude, no entanto, ainda menos visível, mas decisiva: a constância. Verdade, profundidade e liberdade podem até ser reconhecidas, mas não se sustentam sem continuidade no tempo. Ideias não resistem apenas por serem corretas; resistem porque são cultivadas.

Vivemos numa cultura de interrupção permanente. Tudo é instantâneo, tudo é substituível, tudo é descartável. Compromissos tornaram-se provisórios. Convicções, revisáveis ao sabor do ambiente. O que ontem parecia inegociável hoje é ajustado para caber no novo clima.

Sem constância, a verdade vira tendência. A profundidade vira modismo intelectual. A liberdade transforma-se em oscilação emocional. Nada permanece tempo suficiente para criar raízes.

O colapso raramente acontece em explosões dramáticas. Ele se instala de modo quase imperceptível. Civilizações não desmoronam em um único ato; esvaziam-se lentamente quando deixam de cultivar aquilo que é estrutural, mas não espetacular. O invisível é abandonado primeiro. O restante cai depois.


A fragmentação dos pilares

O grande perigo contemporâneo não é a rejeição aberta desses pilares, mas sua fragmentação. Raramente se declara guerra à verdade; prefere-se isolá-la. Não se abandona a liberdade; redefine-se seu significado. Não se nega a profundidade; esvazia-se sua exigência. Não se rejeita a constância; celebra-se sua flexibilidade.

Defende-se liberdade contra verdade. Defende-se verdade sem liberdade. Busca-se profundidade sem disciplina. Proclama-se constância sem fundamento. Cada virtude passa a operar como se pudesse sobreviver sozinha.

Essa ruptura da unidade gera instabilidade cultural. Quando os pilares deixam de se sustentar mutuamente, a estrutura começa a oscilar. O resultado não é necessariamente imediato ou espetacular; é gradual. Sociedades podem tornar-se tecnicamente sofisticadas e, ao mesmo tempo, moralmente frágeis. Podem ampliar direitos e, ainda assim, enfraquecer responsabilidades. Podem falar constantemente em valores e, ao mesmo tempo, esvaziá-los.

A fragmentação é mais perigosa do que a negação. Porque mantém as palavras — mas altera seu conteúdo.


O colapso que recebe aplausos

A pergunta inicial, então, perde o caráter competitivo. Não se trata de decidir qual desses pilares seria pior perder. O verdadeiro colapso começa quando se perde a consciência de que eles formam uma única estrutura.

Verdade fornece fundamento. Profundidade confere densidade. Liberdade exige responsabilidade. Constância assegura continuidade. Separadas, tornam-se caricaturas umas das outras. Unidas, sustentam civilização.

Fundamentos não aparecem nas manchetes. Não produzem aplausos. Não rendem espetáculo. E justamente por isso são ignorados — até que sua ausência se torne irreversível.

A defesa desses pilares não começa no Estado, nem nas instituições, nem na academia. Começa no indivíduo. Começa na decisão silenciosa de não negociar a verdade porque ela custa, de buscar profundidade quando o ambiente prefere superficialidade, de defender a liberdade mesmo quando ela impõe limites, de permanecer constante quando tudo convida à ruptura.

Civilizações não morrem apenas por invasões externas. Morrem quando seus fundamentos deixam de ser cultivados internamente. Quando a estrutura invisível se dissolve, o espetáculo pode continuar por algum tempo — discursos permanecem, símbolos permanecem, rituais permanecem — mas será apenas aparência sem sustentação.

A pergunta, afinal, não é qual desses pilares seria pior perder. A pergunta é se ainda temos maturidade moral e intelectual para sustentar todos simultaneamente.

Porque, se não tivermos, o colapso não virá com estrondo.

Virá entre aplausos.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A fé no paredão e a democracia de conveniência

 

Por Jânsen Leiros Jr.

Há algo de profundamente inquietante acontecendo no debate público brasileiro. Não é apenas polarização. Polarização é sintoma. O que se observa é algo mais grave: a naturalização de um discurso que condiciona direitos políticos à conformidade ideológica.

E, curiosamente — ou nem tanto — o alvo recorrente tem sido o segmento evangélico.

Não se trata aqui de blindar igrejas, lideranças religiosas ou qualquer grupo social de críticas legítimas. Democracia não é imunidade moral. Democracia é tensão administrada. O problema começa quando a crítica se converte em desqualificação estrutural da cidadania.

Quando um intelectual sugere — ainda que em tom de “provocação” — que evangélicos não deveriam votar porque não escolhem seus pastores por sufrágio universal, não estamos diante de humor refinado. Estamos diante de um argumento perigosamente autoritário.

A lógica implícita é simples e assustadora:

Se a estrutura interna de sua comunidade não é democrática nos moldes iluministas, você não está apto à democracia política.

Ora, essa régua não sobreviveria cinco minutos se aplicada a qualquer outro grupo cultural ou religioso. Nenhuma tradição espiritual organiza sua liderança por referendo popular. Nem o Vaticano, nem o candomblé, nem o budismo tibetano. E nem por isso se questiona o direito de seus fiéis votarem.

O que está em jogo, portanto, não é coerência teórica. É seletividade moral.

E seletividade moral é o primeiro degrau da exclusão política.

O Estado é Laico. O Cidadão, Não.

Há uma confusão recorrente — e convenientemente estimulada — entre laicidade do Estado e neutralização do indivíduo.

O Estado não tem religião.

O cidadão tem.

O Estado não professa fé.

O cidadão vota segundo consciência.

A Constituição brasileira garante liberdade religiosa e liberdade de voto. Não estabelece hierarquia entre convicções filosóficas, religiosas ou ateias. A ideia de que valores religiosos desqualificam o voto é uma forma elegante de censura moral.

John Locke, ao escrever sobre tolerância, defendia que o Estado não deveria interferir na consciência individual porque a consciência não é território administrativo. Quando se começa a sugerir que determinadas convicções tornam alguém politicamente suspeito, estamos ultrapassando Locke e nos aproximando de algo muito menos iluminado.

Assistência Social Não É Dívida Eleitoral

A segunda camada da questão é ainda mais delicada.

Quando um chefe do Executivo afirma, em tom combativo, que determinado grupo “recebe benefícios do governo” e, na mesma linha, convoca sua base a confrontar e “escrachar” críticas vindas desse segmento, há uma mensagem implícita que não pode ser ignorada:

O benefício social passa a ser narrado como concessão graciosa do governante.

Mas programas de transferência de renda não são esmolas personalizadas. São políticas públicas financiadas por tributos — inclusive pagos pelos próprios beneficiários, direta ou indiretamente.

O Bolsa Família (ou qualquer outro programa similar) não pertence ao presidente de plantão. Pertence ao arcabouço legal do Estado brasileiro.

Transformar assistência em instrumento de constrangimento político é retroceder à lógica do favor. É a política do curral, agora digitalizada.

E aqui cabe uma pergunta incômoda:

Desde quando cidadania virou contrato de gratidão?

Se o auxílio exige alinhamento ideológico, ele deixa de ser política pública e passa a ser mecanismo de dependência.

E dependência política não é justiça social. É coronelismo reembalado.

O “Ódio do Bem”

Vivemos a era do ódio justificado.

O preconceito, quando direcionado ao grupo “errado”, vira crítica social sofisticada.

A desqualificação coletiva vira “análise cultural”.

Se alguém dissesse que adeptos de religiões de matriz africana não deveriam votar porque seguem lideranças não eleitas, o país entraria — com razão — em estado de indignação moral. Haveria notas públicas, investigações e manchetes.

Mas quando o alvo é o evangélico — especialmente o evangélico pobre — parte do debate se transforma em ironia acadêmica.

Essa assimetria revela algo mais profundo: não estamos discutindo religião. Estamos disputando narrativa.

E quem controla a narrativa controla a moldura moral da indignação.

Democracia de Conveniência

Democracia não é o direito de votar apenas quando o voto agrada. Democracia é aceitar que o outro, com valores distintos, possui igual legitimidade política.

Se começamos a classificar eleitores como menos qualificados porque votam segundo convicções religiosas, abrimos precedente perigoso.

Hoje é o evangélico. Amanhã pode ser o conservador. Depois, o progressista. Em seguida, qualquer um que não caiba na ortodoxia do momento.

A história mostra que toda exclusão começa com uma justificativa racional sofisticada. Sempre há um argumento técnico. Sempre há uma exceção bem-intencionada. E, de exceção em exceção, constrói-se o autoritarismo aceitável.

A Questão de Fundo

Não se trata de defender igrejas. Nem partidos. Nem governos.

Trata-se de defender um princípio:

Direitos políticos não são condicionais.

Não dependem de simpatia cultural.

Não dependem de aprovação acadêmica.

Não dependem de alinhamento ideológico.

Quando o voto passa a ser avaliado segundo o conteúdo moral do eleitor, estamos perigosamente próximos de redefinir cidadania como privilégio.

E privilégio não é democracia.

Uma Advertência Final

Uma sociedade que normaliza o desprezo público contra um segmento religioso específico não está fortalecendo a laicidade. Está corroendo a confiança institucional.

Não existe justiça social sem igualdade de dignidade.

Não existe pluralismo sem tolerância recíproca.

Não existe democracia saudável quando a régua da indignação mede apenas um lado.

A democracia não pode ser de conveniência.

Ou ela vale para todos — inclusive para quem discorda de nós —

ou não vale para ninguém.

E quando a fé começa a ser colocada no paredão moral, não é apenas um grupo que está sob julgamento.

É a própria ideia de liberdade.