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terça-feira, 22 de outubro de 2024

Normalização da corrupção: A ética em perigo!


 Por Jânsen Leiros Jr. 

 "De tanto ver prosperar a desonestidade, o homem honesto desanima; e, de tanto ver triunfar a mentira, chega-se a duvidar da verdade." - Rui Barbosa

 "A desonestidade é um vício que se multiplica e se contagia; e quem não se opuser a ela, se tornará seu cúmplice." - Rui Barbosa na abertura do Senado, em 1930, e é uma reflexão sobre a corrupção e a responsabilidade individual na luta contra a desonestidade.

 "A corrupção não é apenas um crime; é um crime que mata a esperança." - Mario Vargas Llosa; Esta frase discute a corrupção como um problema que afeta a confiança e a esperança nas sociedades.

 "A desonestidade é como uma bola de neve: quanto mais rola, maior se torna." - Henry Ward Beecher; essa citação reflete a ideia de que a desonestidade tende a se espalhar e se intensificar.

 "Um país é respeitado pela honestidade de seus cidadãos." – Confúcio; reflete o valor da honestidade na construção da integridade de uma nação.

 "A verdade pode ser ofuscada, mas não será jamais vencida." - Victor Hugo

 

Vivemos em um tempo onde a ética e a honestidade parecem ser cada vez mais desconsideradas em um mundo dominado por interesses pessoais e pragmatismos egoístas. A corrupção, que um dia foi vista como uma mancha na integridade social, agora é frequentemente tratada como uma norma aceitável, um mal necessário com que todos, de alguma forma, aprendemos a conviver. Essa normalização da desonestidade gera um ciclo vicioso que contamina nossas relações pessoais, comerciais e até institucionais. O que poderia ser um mero deslize moral transforma-se em um comportamento corriqueiro, e, como resultado, a confiança nas relações humanas se esvai.

É urgente, portanto, olharmos para as raízes desse desvio ético e entendermos como, ao longo da história, diversas correntes de pensamento buscaram justificar ou minimizar a importância da moralidade em nossas vidas. Precisamos resgatar a reflexão crítica e a indignação diante da desonestidade, pois a ética não é um mero detalhe, mas o alicerce de uma sociedade justa e íntegra.

Assim, iniciaremos nossa tarefa compondo um retrato dessa realidade, de modo a nos permitir, na sequência, trabalhar com as hipóteses e sugestões de ações dirigidas e necessárias.

A Falta de Ética e Moralidade

A ética parece ter se dissipado, dando lugar a uma cultura de impunidade. Como já dizia o filósofo alemão Immanuel Kant, "A moralidade não é um conceito isolado; é uma estrutura que sustenta a sociedade." Quando comportamentos antiéticos se tornam a norma, a moralidade coletiva se fragiliza. A desvalorização da ética na vida cotidiana é um dos principais combustíveis que alimentam essa engrenagem de fraudes e corrupção. Em uma sociedade onde a ética é relegada a um segundo plano, a confiança entre indivíduos e instituições é erodida, e os laços sociais se tornam frágeis.

É fundamental compreender que a ética não é apenas um conjunto de regras a ser seguido; ela é um reflexo da cultura de um povo. Quando a ética é negligenciada, cria-se um espaço onde a mentira e a manipulação se tornam estratégias aceitáveis para alcançar objetivos pessoais. Essa distorção de valores gera um ciclo vicioso, onde a cada dia mais indivíduos se sentem justificados a agir de forma antiética, perpetuando comportamentos que, a longo prazo, corroem a própria essência da sociedade.

A crise ética que vivemos se reflete não apenas nas ações individuais, mas também nas estruturas institucionais. A falta de transparência e responsabilidade em órgãos públicos e empresas cria um ambiente propício para a corrupção. Como disse o filósofo Michel Foucault, "O poder não é uma coisa, mas uma relação." Essa relação se torna distorcida quando a ética é deixada de lado, permitindo que interesses pessoais prevaleçam sobre o bem comum.

Insegurança Jurídica

A insegurança jurídica é um fator crucial nesse cenário, contribuindo para a perpetuação de comportamentos corruptos. O sociólogo Zygmunt Bauman fala sobre a "liquidez" das instituições modernas, que tornam as regras e leis instáveis e muitas vezes ineficazes. A fragilidade das instituições jurídicas faz com que muitos brasileiros sintam que a justiça não é acessível ou igualitária. Quando as pessoas percebem que a justiça não é cega, mas sim um reflexo da desigualdade social e econômica, a tendência é que busquem soluções próprias, ainda que ilegais.

Além disso, a lentidão dos processos judiciais e a morosidade das investigações alimentam um clima de impunidade. Quando as consequências de ações ilegais demoram a se materializar, o comportamento corrupto é reforçado. A sensação de que "nada vai acontecer" pode ser uma motivação poderosa para quem considera cruzar a linha. É nesse contexto que se torna necessário discutir a importância de uma reforma que não apenas agilize os processos, mas também fortaleça a confiança na justiça.

Essa insegurança também é alimentada por um sistema que parece proteger mais os poderosos do que os cidadãos comuns. A percepção de que grandes figuras conseguem escapar das punições alimenta a frustração e o cinismo. Como advertiu o filósofo Hannah Arendt, “a banalidade do mal” pode se manifestar quando as injustiças se tornam comuns e as pessoas aceitam a corrupção como parte da vida cotidiana.

Desigualdade Social

A desigualdade social que permeia a sociedade brasileira é outro fator que impulsiona a corrupção. O filósofo e economista Karl Marx enfatizava que "a luta de classes é a força motriz da história." Quando a disparidade econômica é tão gritante, alguns indivíduos veem no crime uma maneira de alcançar o que lhes parece justo, ou até mesmo uma forma de sobrevivência. Essa luta pela sobrevivência se transforma em um ciclo de ações que corroem os princípios éticos, levando à normalização do crime como uma resposta a condições opressivas.

Essa desigualdade não se manifesta apenas em termos de renda, mas também em acesso a oportunidades e serviços básicos. A falta de educação, saúde e emprego dignos gera um ambiente onde a corrupção pode ser vista como uma opção viável para muitos. O sociólogo Pierre Bourdieu destacou a importância do "capital simbólico", referindo-se à maneira como a posição social de um indivíduo pode influenciar suas oportunidades e a percepção de seu valor na sociedade. Quando o acesso a esse capital é restrito, a tentação de buscar alternativas ilegais para ascender na hierarquia social aumenta.

Além disso, o desespero econômico pode levar à conformidade com comportamentos corruptos, onde a sobrevivência diária se sobrepõe a considerações éticas. A percepção de que a corrupção é uma "opção válida" para escapar da pobreza cria um ciclo perigoso, perpetuando a ideia de que a ética é um luxo que poucos podem se dar ao direito.

Tecnologia e Vulnerabilidades

Com o advento da tecnologia, novos tipos de fraudes emergem, aproveitando a falta de educação digital da população. Como observa a filósofa Byung-Chul Han, "A sociedade do desempenho não tolera fraquezas." A pressão para se destacar, combinada com a facilidade de acesso à informação, cria um terreno fértil para a desonestidade. Essa nova realidade digital traz desafios e vulnerabilidades que são frequentemente explorados por golpistas, levando a um aumento dos casos de fraudes online.

A tecnologia, enquanto ferramenta poderosa, pode ser uma faca de dois gumes. A interconexão e a facilidade de comunicação propiciam a disseminação de informações, mas também criam um ambiente propício para a desinformação e os golpes. Isso se torna ainda mais problemático em um país como o Brasil, onde a educação digital é muitas vezes precária. A falta de conhecimento sobre segurança online torna a população vulnerável e suscetível a fraudes.

Além disso, a rápida evolução tecnológica pode criar um hiato entre aqueles que se adaptam a essas mudanças e aqueles que ficam para trás. Esse abismo digital pode exacerbar a desigualdade social e econômica, fazendo com que os menos favorecidos sejam ainda mais explorados. Como disse o filósofo Marshall McLuhan, "O meio é a mensagem." A maneira como utilizamos a tecnologia molda nosso comportamento, e quando essa tecnologia é mal utilizada, as consequências podem ser devastadoras.

Cultura do Jeitinho

A famosa "cultura do jeitinho brasileiro" também é uma questão central nesse debate. O sociólogo Roberto DaMatta nos lembra que "o jeitinho é um modo de vida, uma forma de contornar regras." Quando a criatividade para driblar as normas se transforma em um valor, a ética se dissolve, e o comportamento corrupto se torna não apenas aceitável, mas até admirado. Essa mentalidade alimenta a ideia de que encontrar brechas na lei é uma habilidade, não uma transgressão.

Essa cultura do jeitinho é um reflexo de uma sociedade que, por vezes, se sente impotente diante de instituições que parecem distantes e ineficazes. A capacidade de contornar regras, de "dar um jeito", pode ser vista como uma forma de resistência em um sistema que não oferece soluções adequadas. No entanto, essa mesma resistência pode criar um ciclo vicioso onde a corrupção se torna uma prática comum e esperada, desvalorizando a ética e a responsabilidade social.

Além disso, o jeitinho brasileiro não é apenas uma questão de comportamento individual, mas também um reflexo de um sistema que muitas vezes falha em proporcionar alternativas éticas viáveis. Quando as regras são percebidas como injustas ou desatualizadas, a tentação de burlar essas regras se torna uma escolha “racional” para muitos. Essa complexidade torna a cultura do jeitinho um fenômeno profundamente enraizado e difícil de erradicar, exigindo um esforço conjunto para reverter essa lógica.

Influência de Líderes

A liderança, tanto política quanto empresarial, tem um papel crucial na formação de valores sociais. O filósofo Hannah Arendt alertava para o "banal do mal", onde a normalização de comportamentos antiéticos por líderes pode influenciar a sociedade como um todo. Se aqueles que ocupam posições de destaque não pautam suas ações pela integridade, como esperar que as massas ajam de forma diferente? Essa desconexão entre líderes e a população gera uma desilusão que contribui para a falta de confiança nas instituições.

Quando líderes se envolvem em práticas corruptas ou falham em prestar contas de suas ações, isso gera um efeito cascata. A percepção de que a corrupção é uma prática comum entre os poderosos faz com que a população se sinta desencorajada a agir de maneira ética. A filósofa Judith Butler nos lembra que a "ação ética" é uma responsabilidade compartilhada, e quando líderes falham nesse aspecto, todos são afetados.

A influência de líderes éticos é, portanto, essencial para a construção de uma cultura de integridade. Eles devem não apenas se comportar de maneira ética, mas também criar um ambiente onde a ética é valorizada e recompensada. A responsabilidade não recai apenas sobre os indivíduos, mas sobre aqueles que lideram e moldam as normas sociais.

Falta de Educação e Conscientização

Por fim, a falta de educação e conscientização sobre direitos e deveres cívicos é um grande obstáculo à construção de uma sociedade mais ética. Platão já afirmava que "a educação é a melhor provisão para a velhice." Investir na formação ética desde a infância é essencial para reverter esse cenário, pois sem uma base sólida de ética e moral, mudanças significativas se tornam difíceis. Uma população educada e consciente é menos propensa a aceitar comportamentos corruptos e mais inclinada a exigir responsabilidade.

A educação deve ir além do conhecimento acadêmico; ela deve incluir a formação moral e cívica, preparando os cidadãos para compreenderem suas responsabilidades em uma democracia. Isso significa ensinar não apenas sobre direitos, mas também sobre deveres e a importância de uma sociedade ética. A filósofa Martha Nussbaum defende a "educação para a cidadania", onde a formação de valores éticos é fundamental para o desenvolvimento de cidadãos críticos e responsáveis.

Além disso, a conscientização sobre os impactos da corrupção e dos comportamentos antiéticos deve ser uma prioridade. Campanhas educativas que abordem as consequências da corrupção e promovam a transparência podem ajudar a moldar uma nova geração de cidadãos mais comprometidos com a ética e a justiça social. Essa transformação não ocorrerá da noite para o dia, mas um compromisso contínuo com a educação ética pode ser o primeiro passo para um futuro mais íntegro.

Conclusão

                O que estamos vivendo hoje é mais do que uma crise passageira; trata-se de um profundo colapso moral que afeta todas as esferas da nossa sociedade. A corrupção e o desvio de conduta não são apenas consequências isoladas, mas sintomas de um sistema em ruínas. É imperativo que promovamos uma verdadeira revolução cultural, onde a ética e a integridade não sejam exceções, mas fundamentos inegociáveis. Precisamos fortalecer urgentemente nossas instituições e garantir que as leis sejam aplicadas de maneira implacável e justa, para todos. Apenas assim poderemos restaurar a confiança perdida e, mais do que isso, reacender o valor da ética em nosso cotidiano. Este é um chamado à ação coletiva, à reconstrução do tecido moral de nossa nação. O futuro depende da nossa capacidade de enfrentar esse desafio com coragem e determinação.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Chutes, caneladas e pontapés. Assim nas ruas como nas redes.

Manifestações pró e contra Bolsonaro

Por Jânsen Leiros Jr.

Em tempos de polarização acirrada e quase insana, é um risco imenso tentar caminhar por uma terceira via. O compromisso com aquilo em que se acredita, contudo, exige coragem para tanto. Não posso me furtar a isso.

Não há dúvida de que certos movimentos do atual governo são bastante fora de um prumo minimamente coerente, para não descer fundo em qualquer juízo de valor. Além disso, não há como negar que existem circunstâncias obscuras em todos os envolvimentos revelados, relativamente a Queiroz e seu comprometedor networking; para também não falarmos sobre qualquer suposição ainda não comprovada ou investigações não concluídas.

Soma-se a isso as contumazes falas impulsivas e inadequadas de nosso presidente em circunstâncias impróprias, que geram desconfortos e grande mal-estar com boa parte da sociedade e opinião pública.

Ninguém, portanto, pode fechar os olhos para tais fatos e acontecimentos, que veem fragilizando a posição do atual governo, dentro e fora do país.

Por outro lado, porém, é muito importante lembrarmos que, se em grande parte Bolsonaro foi eleito por cidadãos que pensam igualmente a ele ou se aproximam da maioria de suas ideias, outro grande contingente de eleitores de sua chapa, votou  impulsionado pelo enfado e indignação com a montanha de corrupção que grassa o país sabidamente há anos, muito antes dos anos de governo do PT.

Sim, o PT, pasmem, não deu o pontapé inicial na direção da corrupção. Também não foi nem de perto o maior operador dela. Mas sem sombra de dúvidas foi no período de seu governo, que o mecanismo de corrupção mais se alastrou e se aprofundou, uma vez que os dutos de sangria de dinheiro público, tornaram-se operacionais em níveis jamais vistos, espraiando-se pelos mais diversos seguimentos, instâncias e escalões do poder público. Não sem larga e decisiva participação de partidos da base aliada, e de empresas privadas de diversas categorias e porte. A corrupção no Brasil é maior e mais que o PT. E mais endêmica que qualquer vírus.

Logo, pensar na polarização como modelo de debate, e nas redes sociais como lugar de embate é, no mínimo, desprezar circunstâncias e motivações que se impuseram no tempo e nas urnas em 2018, e que vão muito além de nossos impulsos apologéticos, ou gritos de guerra de torcida organizada.

Temos hoje uma guerra política travada à semelhança de uma batalha campal, onde mortos e feridos tombam de lado a lado, sem nem mesmo entenderem, na maioria das vezes, o por que de tantos chutes, caneladas e pontapés. Se muito, consideram-se apenas uniformes e bandeiras; ideias e ideais seguem desconhecidos, ou apenas repetidos à semelhança dos papagaios. Vamos descansar os bichinhos nomeados à exaustão...

A verdade é que o primeiro princípio democrático, já que defender a democracia está tão na moda, é o livre e inquestionável direito de escolha do candidato, respeito ao voto alheio, e a submissão à decisão da maioria. E a maioria, gostemos, ou não, escolheu à época Bolsonaro. Coisa que não foi aceita desde o resultado do pleito de 2018, nem pelos que foram vencidos nas urnas, nem pelos que se entenderam prejudicados em suas pretensões escusas e pouco republicanas.

Ora, era para estarmos, como “gatos escaldados”, com “as barbas de molho”. Do mesmo jeito que forçaram entendimento para chegarem a motivos legais que pudessem sustentar o impeachment de Dilma Rousseff (sempre fui contra sua saída pelas mesmas razões democráticas aludidas acima), agora fazem com Bolsonaro, perseguindo-se o mesmo desfecho. Não cabe aqui qualquer discussão sobre motivações e circunstâncias. Mas podemos fazer perguntas mais intrigantes. A quem ela atrapalhava? A quem ele atrapalha?

Para toda grita exacerbada há um motivo camuflado. A quem interessa a manutenção do “status quo” do aparelhamento do Estado, da sangria de dinheiro público, e dos privilégios àqueles que deveriam servir à nação, em vez de se servirem dela? A sanha pelo dinheiro maldito é tão grande e sôfrega, que mal a União dotou Estados e Municípios de verbas emergenciais, e logo fraudaram os gastos com instalações, equipamentos e recursos, que se destinavam a salvar vidas nesta pandemia. Quanta gente sofreu ou mesmo morreu na esteira de mais essa corrupção? Há alguma ideologia em tais atos, ou apenas ganância visceral e desejo de avançar sobre o erário?

De modo que precisamos entender. Nossa luta política não é contra bandeiras. Sequer é contra ideias. Mas contra interesses e conveniências que, acreditem, pouco ou quase nada se importam com ideias, filosofias, princípios ou ideais. Ou alguém tem dúvida de que, caso Bolsonaro governasse calado, tivesse sangue de barata para negociar o fatiamento do Estado, e fosse liberal com as verbas públicas, ele estaria sendo elogiado, ou minimamente mantido pelo casuísmo dos poderosos da nação?

E enquanto nós brigamos nos porões dessa embarcação, cuidando que defendemos alguma coisa, nos ocupamos e nos distraímos com traquitanas lúdicas, enquanto as lideranças de sempre maquinam os próximos passos na direção de seus favorecimentos, em detrimento de nossa dignidade social e subsistência nacional.

Direita e esquerda, pró e contra Bolsonaro pertencem ao jogo democrático. E as duas posições podem e devem coexistir e se respeitarem mutuamente, como elegantemente vejo amigos próximos fazerem. Mas não podemos esquecer de que tudo pelo que lutamos e cremos, falo politicamente, é apenas sombra de uma verdade inalcançável. E o que nos deixam ver ou revelam através de portas entreabertas, é sempre e meramente com suspeitas intenções.

No mais, sigamos em paz com todos. Sem messianismos, malhação de Judas ou fogueiras inquisitórias. Porque a vida é vapor de fumaça, e nossa pátria não é aqui. Nosso Rei habita em nós; nosso general, Cristo.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Mas poderia ser diferente?


Por Jânsen Leiros Jr.

Que o assunto esfriou na mídia todos percebemos. O que nem todos perceberam, contudo, é que o tema segue na pauta do ministro Sérgio Moro, que segue defendendo a aplicação da prisão após condenação em segunda instância. E por quê? Seria apenas uma posição política e oportunista, tendo como alvo eventuais inimigos políticos?

É preciso lembrar, antes de mais nada, que a posição de Sérgio Moro já era favorável a esse entendimento, muito antes dele ser convidado a assumir a pasta da Justiça e Segurança Pública. Aliás essa também era o entendimento do próprio STF, até que nova decisão inverteu a regra do jogo, na segunda metade de 2019, promovendo a libertação de condenados em segunda instância. O novo entendimento permitiu a libertação do ex-presidente Lula e de José Dirceu, entre outros.

A insistência de Moro não se deve, senão, a importância crucial dessa possibilidade no combate ao crime organizado, sobretudo aos engenhosos crimes de colarinho branco, uma vez que são normalmente protagonizados por aqueles que, mantidos em liberdade, seguem protelando o andamento de seus processos, trabalhando claramente para se beneficiarem da prescrição do crime. Sem contar que, com o tempo e o esfriamento do assunto na mídia, a indignação popular arrefece e o assunto cai no esquecimento, tornando mais fácil o abrandamento da aplicação da justiça; um fenômeno bem brasileiro, diga-se de passagem.

Ora, alguém poderia argumentar: que mal há nisso? Ou ainda: por que essa sanha em encarcerar criminoso? Na verdade, nada contra o criminoso em si, mas tudo contra o crime e a favor da justiça. Não é muito difícil entender que, a cada impunidade passada na cara da sociedade, a sensação de que o crime compensa aumenta, e consolidamos o ambiente de barbárie ética promovido pela injustiça.

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sábado, 21 de dezembro de 2019

A corrupção nossa de cada dia

Câmara de Vereadores de Uberlândia
Por Jânsen Leiros Jr.

É triste e impressionante que, diariamente, nos deparemos com uma realidade assustadora, por mais que não queiramos admitir. A corrupção instalou-se no país, e é, sem sombra de dúvidas, nossa principal enfermidade nacional, capaz de provocar falência em diversos outros setores da sociedade.

Sempre que apontamos para isso, pessoas ligadas à saúde e educação, por exemplo, dizem que é um equívoco tal afirmação, pois a corrupção é apenas mais um de nossos problemas, cujo combate exacerbado serve apenas de bandeira para fins eleitoreiros. Porém é importante lembrar que a corrupção afeta a todos os seguimentos da administração pública, onde quer que seja, e em que setor for. E a matéria abaixo nos evidencia isso. Não só ela, claro, mas também todas as demais notícias que relatam corrupção; e são diárias.

Se realizarmos um levantamento mesmo que superficial das notícias dessa mesma no país, seremos confrontados com a amplitude do mapa dessas ocorrências, demonstrando que tal mal não se concentra exclusivamente nos estados mais populosos do país, mas se espalha endemicamente por estados e municípios país afora, não sendo exclusivo nem mesmo dessa ou daquela alçada política.

Os esquemas de corrupção se enraizaram pelos poderes. Seja no Executivo, no legislativo ou mesmo no judiciário - vimos há pouco matéria sobre venda de sentenças na Bahia, as negociatas grassam nossos recursos. União, estados e municípios são sistematicamente sangrados por mecanismos de desvios, das mais diversas modalidades e descaminhos, com crescente criatividade e intimidadora ousadia.

Como consequência somos forçados a assistir crianças sem merenda escolar ou professores.  Vemos hospitais sem médicos, materiais ou remédios, mantendo a Saúde permanentemente em estado de crise latente. Cidades sem segurança pública adequada por falta de recursos e mão de obra treinada e bem remunerada convivem com a sensação de medo. E rincões imensos pelo Brasil, sem saneamento básico para sua população, sofrem com condições de vida insalubre, com altas taxas de doenças e mortalidade. Um seguimento prejudicando o outro, e ampliando o estado de barbárie em que vivemos, causa e efeito num ciclo de agravamento das diferenças sociais.

A corrupção é um mal nacional. E se torna cada vez mais claro, que ações diretas e contundentes precisam ser aplicadas com urgência. É preciso liquidar com o sentimento de impunidade dessa gente, que parece descrer totalmente na possibilidade de pagarem por seus crimes, já que seguem em suas sanhas por negociatas e desvio de dinheiro público sem qualquer pudor ou inibição. E notem que jamais se caminhou tanto nesse país, na direção da redução da corrupção. Mas ainda não conseguimos quebrar a lógica do ilícito.

Ou aumentamos definitivamente o tom da luta contra esse mal terrível, ou o Brasil seguirá inviável aos investimentos internacionais, ao crescimento econômico, ao surgimento de condições mínimas de dignidade de sua gente, e à possibilidade de uma vida sustentável para o seu povo.

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domingo, 24 de março de 2019

Velha política, terríveis práticas


Por Jânsen Leiros Jr.

Quando Jesus disse que não se coloca remendo novo em tecido velho, muitos não entenderam do que falava exatamente. A aplicação se pretende entender pelo viés teológico, num contexto religioso imediato e próximo. O conceito aludido, contudo, bem se aplica a circunstâncias diversas no cotidiano humano, sempre que uma condição existente reage contra tendências de mudança de seu status quo. Trocando em miúdos, sempre que novas ideias ou modelos são apresentados a um determinado grupo, seja ele de que natureza for, há profunda resistência de seus integrantes, pois o novo sempre ameaça o conforto e as conveniências de todos os envolvidos nesse grupo.

Lembro bem que ao longo do processo eleitoral de 2018, inúmeras vezes defendemos uma total e plena renovação do congresso, pois seria necessário ao novo governo, fosse ele qual fosse, tratar com um parlamento menos comprometido com o comportamento vicioso de tornar o chefe do Executivo, refém de seus votos e de suas decisões; o exercício flagrante de uma velha política de conveniências e favorecimentos. O conhecido e absurdamente aceito modelo do toma lá dá cá. O que estamos assistindo já nesse primeiro episódio de tratamento entre Executivo e Legislativo, é exatamente o confronto entre o remendo novo e o tecido velho.

O que o presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (DEM-RJ) chama de necessidade de “assumir a articulação política”, para aprovação da Reforma da Previdência, nada mais é do que a grita midiática que revela o que esperam os deputados, inclusive da base aliada: o loteamento de cargos no governo e verbas para as ações políticas de suas excelências junto às suas bases eleitorais, em troca de seus mui precisos, ilibados e resolutos votos, em favor do projeto do governo. Do contrário, como fica veladamente declarado, o presidente Jair Bolsonaro bem poderá ficar isolado politicamente, sendo-lhe impossível conduzir o país no necessário processo de recuperação da economia. Alguém aí imaginava que seria diferente?

O que se torna cada vez mais flagrante à medida que os primeiros movimentos do governo avançam, é que temos uma evidente separação entre os que torcem pela recuperação do país, os que torcem pelo fracasso do governo Jair Bolsonaro, ainda que isso traga prejuízos à nação, mas que atenda às próprias pretensões políticas, e ainda dos que já demonstram estar determinados e empenhados no esvaziamento de qualquer possibilidade de sucesso do atual governo. Compõem esse último grupo setores da grande mídia, parlamentares e partidos, e formadores de opinião, para os quais eventuais danos à nação não passam de efeitos colaterais aceitáveis, na luta pela imposição de suas ideologias. Atitudes bem republicanas e democráticas, diga-se de passagem.

Que seja! Se tais chamadas crises servirem para evidenciar passo a passo quem efetivamente trabalha para a melhoria e recuperação do país, que venham todas as que forem necessárias. Porque é melhor saber contra quem se batalha, do que caminhar junto e entrincheirar-se com os inimigos não declarados; falamos de inimigos da nação e não do governo Bolsonaro. Sim, porque quem age para manter o velho tecido esgarçado e roto, de uma política que viabilizou a sangria dos cofres públicos em favor de interesses pessoais e conveniências partidárias, não pode ser entendido como alguém que se importa com o país e com o futuro de sua gente.

O que se precisa entender de uma vez por todas, é que o voto dado a Bolsonaro por seus eleitores, não visava colocar o Jair na presidência por seus impressionantes dotes políticos. O que se pretendeu foi dar um basta à máquina de corrupção e de locupletação pessoal, a partir dos recursos públicos e das necessidades da população. Porque não se pode fechar os olhos. A tragédia nacional em setores como saúde, educação e segurança, começa no desvio das verbas que impede qualquer investimento ou manutenção de seus funcionamentos. Acha que não? Então comece a destinar o dinheiro que utiliza para pagar o plano de saúde e a mensalidade da escola dos filhos, para outras finalidades, e será possível entender claramente o que acontece em escala nacional. A corrupção é um câncer que está longe de ser debelado em nosso país.

Precisamos manter a vigilância. Não queremos mais o velho tecido, a velha política, a barganha. O país precisa de mudanças. Não importa se os partidos se acostumaram a essas práticas. Não as queremos mais. Nós, eleitores e cidadãos não as queremos mais. O poder legislativo precisa se ocupar em legislar para o bem-estar do povo. Não cabe se descolarem dos anseios da nação, como se da nação não participassem, ou a seu serviço não estivessem. Ou seriam nossos votos uma procuração em branco, para agirem livremente, ainda que para nosso próprio prejuízo?

sábado, 26 de março de 2016

Nem esquerda, nem direita. Com toda convicção


Por Jânsen Leiros Jr.


"Aprendi com Juan Luis Segundo[1] que teólogo não tomar posição em situações críticas na sociedade, para não correr risco de errar, é um erro maior."

Jung Mo Sung[2] - em seu twitter


"Concordo plenamente", respondi de pronto ao ler. E não me arrependo do que respondi, embora, confesso, não refleti nem um segundo sequer antes de escrever e enviar meu comentário. Não podemos mesmo fugir dessa responsabilidade de firmar posição, temendo que as incertezas quanto ao rumo dos fatos e das circunstâncias, nos forcem em futuro próximo ou mesmo em longo prazo, a rever posições e argumentos, defesas ou ataques, que tenhamos feito no calor do cenário em que estejamos atualmente envolvidos. É preciso coragem e posicionamento.

Afirmo isso e reafirmo, embora tenha sido, por alguns, acusado de não ter declarado abertamente a minha posição relativamente aos acontecimentos que têm causado esse turbilhão no cenário nacional brasileiro. "Você está em cima do muro", disseram, entendendo que diante das circunstâncias que estão provocando crescentes e insuportáveis incertezas na política e na economia, não tenha sido claro quanto ao lado a que me alinhei. Ora, o meu lado é tão inquestionável, tão óbvio a quem me lê regularmente... O meu lado é o do fim da corrupção, e o da recuperação econômica do país o mais rápida e consistentemente possível.

Lamento muito que isso deva frustrar os mais acirrados militantes e os apaixonados partidários de plantão. Mas não me verão jamais vestindo camisas de nenhum dos lados, por um motivo muito simples e firme. Em ambos os lados que por hora se polarizam, não há qualquer sombra de coerência no espectro mais amplo de suas aspirações. Ou seja, se não me ouvirão gritar "fora Dilma", tão pouco levantarei a voz para dizer "não vai ter golpe". E acreditem-me, isso não é ficar indeciso ou em cima do muro. É antes uma posição muito firme e convicta, de quem não concorda com qualquer atitude alienada, que fuja da responsabilidade cidadã de participar e contribuir nesse momento tão crítico do país.

Quem me acompanha por aqui, sabe que desde antes das eleições de 2014, venho me posicionando com clareza sobre os movimentos, tanto da situação quanto da oposição, repudiando veementemente todas as suas falas incoerentes e puramente partidárias. Os textos estão todos por aqui no blog. É só buscar e ler. E se o fizerem, perceberão que minha principal preocupação, há algum tempo, vinha sendo exatamente essa polarização burra e partidária, que torna cega e oportunista cada movimentação nesse tabuleiro do jogo político. E que fique claro, cega por parte das militâncias e apaixonados, e oportunista por parte das lideranças de direito ou de ocasião.

Penso, sem qualquer dúvida, que é completamente conveniente, casuísta e manipuladora, a argumentação do governo de que há um movimento golpista por parte da oposição e de determinados setores da sociedade, que tenta lhes arrancar do poder simplesmente porque não aceitam os resultados das urnas em outubro de 2014. Os governistas e suas militâncias tentam banalizar os fatos, fingindo não existirem as estarrecedoras descobertas sobre a corrupção que se instalou estruturadamente nos diversos escalões do poder.

Por outro lado, assistimos à mais tímida e pouco convicta ação de determinados expoentes da oposição, tamanho grau de envolvimento e sujeira em estão igualmente enterrados até o pescoço. Sim, porque está claro para toda a sociedade, que se o atual governo e seus aliados estão comprometidos com esse mar de lama que se agiganta a cada movimento da operação Lava Jato, diversos oposicionistas estão apavorados com o que ainda poderá vir a ser descoberto pelo MPF e os investigadores da PF. Nesse ponto tem toda razão o ex-presidente Lula em sua conversa com a presidente Dilma; temos um congresso "acovardado".

Ora, se estão acovardados diante de uma operação que avança mar de lama adentro, é porque todos têm receio de que poderão ser descobertos a qualquer momento, passando ao discurso cínico e de aparente indignação, condenando o sofá da sala e o infeliz que acendeu a luz do quarto onde, às escuras, cometiam seus crimes com tranquila e bem cômoda impunidade.


Sou totalmente a favor, portanto, do avanço e da continuidade implacável da operação Lava Jato. E embora entenda os limites legais a que se deve subordinar o juiz Sérgio Moro, uma vez que flagrantemente se joga com os parâmetros da lei e os ritos processuais ardilosamente para favorecer criminosos, e considerando ser isso uma inversão de propósito, gostaria de ver o foro privilegiado de todos suspenso, e as investigações mantidas nas mãos de quem já se demonstrou imparcial e ainda alheio ao execrável jogo de conveniências políticas, que contaminou grande parte dos integrantes dos poderes constituídos desse país.

Mas que se perceba com isso outra clara posição minha. Enquanto a presidente Dilma não for envolvida direta ou indiretamente em qualquer dos crimes investigados pela operação Lava Jato em suas mais diversas fases, e por mais legítimo que seja o processo a que responderá pelas chamadas pedaladas fiscais, é preciso que a legitimidade de sua eleição seja respeitada, não se arrancando sua excelência de sua cadeira precipitadamente, antes que o processo corra todo seu rito de legalidade. Digo isso porque, na prática e de forma indevida, a estamos depondo mesmo antes do final do processo, provocando em determinadas situações e circunstâncias, uma incômoda sensação de ilegitimidade, a um processo que poderia ter, em sua vocação de espontaneidade popular, o mais desejável e insofismável direito de se sobrepujar às manobras de quem pretende escapar da justiça.

Por tudo isso, talvez, eu tenha gostado tanto de ver Aécio e a comitiva do PSDB sendo hostilizada pelos manifestantes na capital paulista, no último treze de Março, quando com a cara de pau e o oportunismo que é próprio a essa gente, tentaram se autopromover, participando de uma manifestação onde eles seguramente não nos representavam. Até porque, pelo andar da Lava Jato, em breve voltaremos às ruas para pedir igualmente por investigações desses senhores, e de tantos outros que ainda se encontram em estado de choque, depois que seus nomes e apelidos foram divulgados numa certa lista da Odebrecht.

Assim, o que me dá a total liberdade de assumir uma posição não polarizada por nenhum dos lados, é a firme convicção de que nem um, nem outro, é capaz de me representar politicamente, qualquer que seja abrangência de seus atos, ou a ambiência de suas atuações. Vivemos o mais ultrapassado e inconveniente jeito de fazer política e de governar uma população. Nenhum dos lados é capaz de me fazer tomar partido em seu favor. Eles não têm de mim, como de uma boa parte da população, qualquer apreço ou predileção, e ficar com o lado menos pior, jamais foi uma opção aceitável  para mim. Ou será que invertendo a máxima de minha avó, eu deveria considerar que antes mal acompanhado do que só?


[1]  Juan Luis Segundo foi padre católico jesuíta e teólogo uruguaio, considerado o maior expo-ente da Teologia da Libertação na América Latina. (1925 - 1996); fonte: Wikipédia
[2]  Jung Mo Sung é um teólogo católico e cientista da religião, coreano radicado no Brasil des-de 1966. É professor titular da Universidade Metodista de São Paulo no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião. (1957 - ); fonte: Wikipédia

sexta-feira, 18 de março de 2016

As conveniências que me perdoem, mas legitimidade é fundamental.


Por Jânsen Leiros Jr.


"Estamos diante do mais absurdo e descarado golpe por parte da direita fascista desse país."

"Não podemos ficar de braços cruzados sem fazer nada, enquanto a mídia golpista dá as cartas para fundar uma nova república no Brasil."

"Até quando vamos permitir que meia dúzia de gatos pingados determinem os rumos da política e da economia do Brasil, enquanto que nossa gente sofrida morre de fome, vivendo sem teto e sem condições de uma vida digna. Eles querem voltar a mandar, porque perderam seus privilégios e o pobre passou a ter vez..."

"... a mídia brasileira tenta colocar o PT e a presidenta Dilma Rousseff na crise com o objetivo de desestabilizá-la."

Trechos de discursos favoráveis ao governo, garimpados da internet e da TV


Sempre que leio ou escuto o discurso dos favoráveis ao governo do PT, e dos que saem em acalorada defesa de seus expoentes, sou levado a um reflexão que julgo importante para o processo pessoal de escolha de lado. Se é que devemos necessariamente escolher um dos lados que aí se apresentam, lutando por nossas predileções e apoios.

Digo isso porque, sinceramente, sou tocado pela retórica que nos confronta com a possibilidade de estarmos, a maioria da opinião pública e de alguns meios de comunicação, servindo inocentemente a um processo de vingança da chamada elite brasileira, contra as conquistas dos pobres do Brasil, flagrantemente trazidos a uma condição de vida e de importância social e econômica jamais vistas na história desse país.

É no mínimo provocador, aos que não se deixam facilmente conduzir pelas manobras midiáticas, qualquer que seja o lado pelo qual se deem tais manobras, o apelo a que se avalie cuidadosamente, se toda essa massa de informações não está apenas servindo ao movimento manipulador do senso comum, na criação de um cenário favorável e de um ambiente perfeito para a usurpação de leis e garantias constitucionais, com vistas a um suspeito bem maior de interesse nacional, ferindo princípios que mais tarde poderão ser desrespeitados em relação a qualquer cidadão de bem desse país.

Se ouvirmos tais discursos com isenção, somos obrigados a sinceramente perceber pertinências e lógicas tão óbvias, que nos sentirmos os mais idiotas cidadãos do mundo, por nos deixarmos envolver pelo clamor das ruas, fomentado por uma gente comprometida com interesses supostamente mesquinhos, que buscam apenas retornar aos seus privilégios perdidos quando da ascensão da classe trabalhadora ao poder.  E assim, acabamos por intuir que tais movimentos não passam de mera revolta da burguesia indignada, contra as classes desfavorecidas que nunca tiveram quem as defendesse, mas que agora contam com o PT e em seus aliados; suas últimas linhas de resistência contra a exploração, o descaso e o abandono.

Eu, que não tenho qualquer predileção partidária ou sequer interesses de encarreiramento político, mas totalmente interessado nos rumos políticos e econômicos do Brasil, seguro duas bandeiras distintas, uma em cada mão. Ora sentindo impulsos por levantar uma, ora sentindo o mesmo impulso em favor da outra. E fico assistindo atônito à uma guerra travada por falácias, versões, bravatas e palavras de ordem, que se não conseguem atrair as consciências sinceras de quem tenta se manter equilibrado, partem para um bestial apelo emocional que se polariza entre a indignação e o cinismo, que se alternam de lado a lado, conforme suas conveniências e necessidades de convencimento.

Confesso que tendo sido adolescente e jovem durante a ditadura, tenho natural inclinação pelo discurso da auto declarada esquerda, de que há um golpismo entranhado em todos os factoides criados pela mídia reacionária desse país, pois não só sabemos de seu comprometimento no passado recente do Brasil, como contamos com o depoimento de muitos personagens ainda vivos dessa história. E não só por isso, mas minha geração viveu de perto e de dentro, muitas das manobras e artimanhas arquitetadas para manipulação das massas a favor de um regime totalitário. Vivenciamos as perdas de direitos democráticos, e nem de longe gostaríamos de ver reeditadas as circunstâncias nacionais daquela época.

Acontece que simplesmente o discurso dessa mesma auto declarada esquerda não cola. E não cola não por inconsistência de legalidade, mas por impertinência de moralidade, uma vez que seus expoentes, ora envolvidos em toda essa movimentação nacional a que assistimos, posicionaram-se e comportaram-se com cinismo e desfaçatez, próprios de quem tenta encobrir atos criminosos e fraudulentos, contrariando a máxima de nossos avós, que dizia que quem não deve não teme. Ora, se temem e se fogem, somos inevitavelmente levados à irresistível conclusão de que devem... e muito.

E talvez seja isso que os defensores de primeira hora, e os oportunistas aliados do governo não entendem, ou convenientemente não queiram entender; não adianta culpar o sofá pela traição ocorrida na sala. Pouco adiantará acusar de ilegalidade a atitude de acender a luz, que no final flagrou e proporcionou-nos enxergar os maus feitos realizados por toda essa corja que se apoderou do estado brasileiro, sem nenhum direito de fazê-lo. Manobras políticas para se manterem em uma condição privilegiada que os deixe longe da mira da justiça e das investigações, demonstram inequivocamente que há muito o que esconder ou tudo a disfarçar. E nada melhor do que um discurso raivoso de vítimas de um golpe, e de vingança das elites, para disfarçar ou ofuscar a visão de quem tenta buscar um ponto de vista isento e sinceramente não comprometido.

De modo que a exemplo do que publiquei há poucos dias sobre a fala do senador Delcídio do Amaral, o que acaba por assinar a confissão de culpa dos feitos e das intenções da liderança do PT e de seus aliados, é exatamente a sequência de manobras realizadas para tentar se defender, e que demonstram, insofismavelmente, que a caixa preta que insistem em não abrir tem muita coisa imprópria a revelar.

Além disso, o discurso velho e esgarçado pelo tempo que tenta promover a divisão do país entre eles e nós, é o mesmo expediente utilizado por terroristas que se utilizam de escudos humanos para se protegerem de ataques das forças inimigas. Vale ressaltar que os escudos não só são formados por civis, como também por compatriotas, pessoas que compartilham os mesmos interesses e crenças. Porque no processo de fuga e de manutenção da própria vida, pouco lhes importa que aliados ou mesmo admiradores, acabem pagando com a própria vida, desde que garantam as inestimáveis sobrevidas dos fugitivos.


Portanto, por mais sedutores que nos sejam os discursos pretensamente denunciadores de um golpe dos poderosos contra os coitados e injustiçados defensores dos desfavorecidos, o próprio comportamento dos investigados e acusados, lhe servem de contraditório à presunção de inocência. Nossos avós estavam certos como sempre; quem não deve não teme. E eu completo, não temem nem mesmo uma eventual injustiça. Pois nesse caso haverá sempre quem os defenda com fatos e provas; legitimamente.