Que o mundo parece estar perdendo
o rumo todos já perceberam.
Que os pilares de qualquer
civilização estão sendo destruídos à medida que a humanidade caminha é uma
realidade que se impõe — exceto àqueles que se encantam pela modernidade
tecnológica e entendem tecnologia como sinônimo de desenvolvimento e avanço rumo
a um momento de apoteose da humanidade.
Mas também podemos entender o que
vivemos como sociedade global como aquilo que, em medicina popular, costuma-se
chamar de “a melhora da morte”.
Diante desse quadro, e para se
compreender melhor todo o contexto, há perguntas inevitáveis, necessárias e que
parecem exigir escolha, mas cuja própria formulação já denuncia um equívoco de
percepção.
Quando nos perguntamos que rumo
seria pior perder definitivamente no contexto atual — a verdade, a
profundidade, a liberdade ou a capacidade de sustentar constância, pilares
civilizacionais — somos tentados a estabelecer uma hierarquia entre elas, como
se fossem virtudes concorrentes disputando prioridade moral. No entanto, uma
análise mais rigorosa revela que não estamos diante de alternativas, mas de uma
única estrutura composta por elementos interdependentes.
Não são valores paralelos. São
fundamentos que se sustentam mutuamente. Retire um, e os demais começam a
vacilar. Retire dois, e a cultura perde estabilidade. Retire todos, e o que
resta não é civilização, mas espetáculo.
A verdade e o rompimento com o
real
Desde Aristóteles, compreende-se
a verdade como correspondência entre intelecto e realidade. A mente não cria o
real; ela o reconhece. Essa formulação, desenvolvida pela tradição metafísica
clássica, ultrapassou o campo meramente lógico e afirmou que a verdade não é
simples construção discursiva, mas reconhecimento de uma ordem que precede o
pensamento.
Logo, não se trata de invenção
linguística, mas de adequação ao que é.
Nas últimas décadas, porém,
ganhou força uma concepção distinta. A linguagem passou a ser entendida não
apenas como meio de descrição, mas como instrumento de produção de realidade. O
que se afirma deixa de ser avaliado por sua correspondência com o mundo e passa
a ser medido por sua eficácia, por sua capacidade de mobilização ou de
imposição simbólica.
Nesse ambiente, consolida-se
aquilo que se convencionou chamar de pós-verdade: não a negação explícita dos
fatos, mas sua subordinação à narrativa dominante.
Perder a verdade, nesse contexto,
não significa apenas incorrer em erro intelectual; significa romper o vínculo
entre linguagem e realidade.
Quando esse vínculo se fragiliza,
o discurso deixa de descrever o mundo para tentar substituí-lo. A política
transforma-se em engenharia narrativa. A moral converte-se em convenção
funcional. A educação deixa de formar para tornar-se instrumento de adaptação
às versões hegemônicas. A própria noção de fato passa a depender de validação
coletiva, não de correspondência objetiva.
A ruptura entre verdade e
realidade não produz apenas confusão teórica. Ela reconfigura estruturas
sociais inteiras. Onde a verdade deixa de operar como referência, o poder tende
a ocupar seu lugar. O que prevalece já não é o que corresponde ao real, mas o
que consegue impor-se como versão dominante — ainda que transitória, ainda que
instável. Ainda que não-verdade.
A superficialidade como cultura
A verdade pode até continuar
existindo formalmente e, ainda assim, tornar-se inofensiva. Isso acontece
quando se perde a profundidade. Não é necessário negar a verdade para
neutralizá-la; basta esvaziá-la.
Vivemos sob a lógica da
superfície. A velocidade da informação produz a sensação de conhecimento, mas
raramente conduz à compreensão. Tudo é acessível, quase nada é assimilado. O
excesso de dados substitui o exercício do pensamento.
Democracias modernas sempre
correram esse risco: formar indivíduos inclinados ao imediato, ao útil, ao
confortável. Quando a vida pública deixa de ser sustentada por virtudes
internas, o que prevalece é a pressa — e a pressa é inimiga da profundidade.
Profundidade exige interioridade.
Exige silêncio, exame, maturação. Mas uma cultura orientada pela visibilidade
permanente dificilmente tolera o invisível. Formam-se pessoas tecnicamente
aptas e emocionalmente estimuladas, mas incapazes de sustentar convicções que
atravessem o tempo.
Quando a profundidade é
abandonada, a verdade não desaparece de imediato; ela é simplificada até caber
em um slogan. A liberdade converte-se em palavra de campanha. A indignação
transforma-se em performance pública. A experiência religiosa, quando existe,
torna-se espetáculo. O raso é sempre mais fácil de organizar, de repetir, de
manipular.
A liberdade entre a verdade e o
poder
Verdade e profundidade, ainda que
preservadas, não bastam se a liberdade for comprometida. Sem liberdade, até a
verdade se torna frágil. Mas liberdade não é ausência de limites; é capacidade
de agir orientada por um referencial que a transcende.
O problema começa quando se
redefine liberdade como mera afirmação de vontade. Nesse cenário, desejar passa
a equivaler a ter direito, e o indivíduo se converte na medida última de todas
as coisas. A liberdade deixa de ser responsabilidade e torna-se impulso
legitimado.
Por outro lado, quando a verdade
é dissociada da liberdade, ela se converte em imposição. O discurso que deveria
iluminar passa a controlar. A história já mostrou que a invocação da verdade
pode servir como instrumento de coerção quando não encontra o freio da
liberdade.
A tensão é inevitável: sem
liberdade, a verdade oprime. Sem verdade, a liberdade dissolve-se em
arbitrariedade. Entre o caos e a coerção, civilizações oscilam quando perdem o
equilíbrio entre essas duas forças.
A constância invisível
Há uma virtude, no entanto, ainda
menos visível, mas decisiva: a constância. Verdade, profundidade e liberdade
podem até ser reconhecidas, mas não se sustentam sem continuidade no tempo.
Ideias não resistem apenas por serem corretas; resistem porque são cultivadas.
Vivemos numa cultura de
interrupção permanente. Tudo é instantâneo, tudo é substituível, tudo é
descartável. Compromissos tornaram-se provisórios. Convicções, revisáveis ao
sabor do ambiente. O que ontem parecia inegociável hoje é ajustado para caber
no novo clima.
Sem constância, a verdade vira
tendência. A profundidade vira modismo intelectual. A liberdade transforma-se
em oscilação emocional. Nada permanece tempo suficiente para criar raízes.
O colapso raramente acontece em
explosões dramáticas. Ele se instala de modo quase imperceptível. Civilizações
não desmoronam em um único ato; esvaziam-se lentamente quando deixam de
cultivar aquilo que é estrutural, mas não espetacular. O invisível é abandonado
primeiro. O restante cai depois.
A fragmentação dos pilares
O grande perigo contemporâneo não
é a rejeição aberta desses pilares, mas sua fragmentação. Raramente se declara
guerra à verdade; prefere-se isolá-la. Não se abandona a liberdade; redefine-se
seu significado. Não se nega a profundidade; esvazia-se sua exigência. Não se
rejeita a constância; celebra-se sua flexibilidade.
Defende-se liberdade contra
verdade. Defende-se verdade sem liberdade. Busca-se profundidade sem
disciplina. Proclama-se constância sem fundamento. Cada virtude passa a operar
como se pudesse sobreviver sozinha.
Essa ruptura da unidade gera
instabilidade cultural. Quando os pilares deixam de se sustentar mutuamente, a
estrutura começa a oscilar. O resultado não é necessariamente imediato ou
espetacular; é gradual. Sociedades podem tornar-se tecnicamente sofisticadas e,
ao mesmo tempo, moralmente frágeis. Podem ampliar direitos e, ainda assim,
enfraquecer responsabilidades. Podem falar constantemente em valores e, ao
mesmo tempo, esvaziá-los.
A fragmentação é mais perigosa do
que a negação. Porque mantém as palavras — mas altera seu conteúdo.
O colapso que recebe aplausos
A pergunta inicial, então, perde
o caráter competitivo. Não se trata de decidir qual desses pilares seria pior
perder. O verdadeiro colapso começa quando se perde a consciência de que eles
formam uma única estrutura.
Verdade fornece fundamento.
Profundidade confere densidade. Liberdade exige responsabilidade. Constância
assegura continuidade. Separadas, tornam-se caricaturas umas das outras.
Unidas, sustentam civilização.
Fundamentos não aparecem nas
manchetes. Não produzem aplausos. Não rendem espetáculo. E justamente por isso
são ignorados — até que sua ausência se torne irreversível.
A defesa desses pilares não
começa no Estado, nem nas instituições, nem na academia. Começa no indivíduo.
Começa na decisão silenciosa de não negociar a verdade porque ela custa, de
buscar profundidade quando o ambiente prefere superficialidade, de defender a
liberdade mesmo quando ela impõe limites, de permanecer constante quando tudo
convida à ruptura.
Civilizações não morrem apenas
por invasões externas. Morrem quando seus fundamentos deixam de ser cultivados
internamente. Quando a estrutura invisível se dissolve, o espetáculo pode
continuar por algum tempo — discursos permanecem, símbolos permanecem, rituais
permanecem — mas será apenas aparência sem sustentação.
A pergunta, afinal, não é qual
desses pilares seria pior perder. A pergunta é se ainda temos maturidade moral
e intelectual para sustentar todos simultaneamente.
Porque, se não tivermos, o
colapso não virá com estrondo.
Virá entre aplausos.

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