quarta-feira, 29 de abril de 2026

Quando a opinião pública já não nasce do pensamento

 

por Jânsen Leiros Jr.

Nem toda opinião pública nasce do pensamento. Muitas vezes, ela nasce do cansaço, da repetição, da pressa, da irritação acumulada e da incapacidade coletiva de suportar dúvidas.

Tenho pensado, com alguma frequência, sobre como o debate público brasileiro parece cada vez menos interessado em compreender e cada vez mais ansioso por reagir. A reação se tornou uma espécie de idioma comum. Antes mesmo de entender o que foi dito, já se escolhe um lado, uma trincheira, uma indignação disponível, uma frase pronta, uma suspeita conveniente.

A pressa virou método. A indignação virou identidade. A dúvida virou fraqueza. E a reflexão, quando aparece, parece quase um incômodo. Talvez por isso estejamos tão cercados de vozes e tão carentes de escuta.

Falamos muito. Comentamos muito. Reagimos muito. Compartilhamos muito. Condenamos muito. Ironizamos muito. Mas nem sempre pensamos muito. E pensar, por sua própria natureza, exige uma lentidão que o ambiente público atual parece tratar como defeito. Pensar exige pausa. Exige algum silêncio interior. Exige desconforto. Exige a coragem de não transformar toda discordância em ameaça, nem toda pergunta em agressão, nem toda hesitação em covardia. Mas o nosso tempo parece ter desaprendido essa respiração.

A ansiedade de reagir

Há algo profundamente sintomático em uma sociedade que reage antes de compreender. Não me refiro apenas às redes sociais, embora elas tenham acelerado esse fenômeno de modo quase industrial. Refiro-me a uma disposição de espírito mais ampla: uma espécie de impaciência moral que exige posicionamento imediato, adesão imediata, repúdio imediato, aplauso imediato. Como se pensar fosse uma demora suspeita.

O sujeito lê um título e já se sente autorizado a concluir. Assiste a trinta segundos de um vídeo e já acredita ter compreendido uma vida inteira. Recebe um recorte, um print, uma frase deslocada, e já se arma de certezas suficientes para absolver ou condenar alguém.

A opinião, antes de ser elaborada, já nasce pronta. Ou, pior, já nasce herdada. Herdada da bolha, do grupo, da tribo, do comentarista preferido, do influenciador da vez, da indignação coletiva que oferece ao indivíduo a sensação confortável de pertencer a alguma coisa.

E aqui está uma das armadilhas do nosso tempo: muitas pessoas já não opinam para expressar o que pensam, mas para confirmar onde pertencem. A opinião deixa de ser fruto de elaboração e passa a funcionar como senha de identificação. Ela diz menos sobre a realidade e mais sobre o grupo ao qual o sujeito deseja ser reconhecido. Por isso, tantas discussões públicas parecem menos debates e mais rituais de pertencimento. Não se entra nelas para compreender. Entra-se para demonstrar fidelidade.

A indignação como identidade

A indignação é necessária. Seria um erro tratá-la sempre como vício. Há indignações justas, urgentes, indispensáveis. Nenhuma sociedade minimamente saudável pode abrir mão da capacidade de se indignar diante da injustiça, da corrupção, da violência, da mentira, da exploração, da crueldade e da indiferença.

O problema não é a indignação. O problema é quando ela deixa de ser resposta moral e passa a ser identidade permanente. Quando a indignação se transforma em estado natural da alma, ela já não ilumina: incendeia. Já não denuncia: consome. Já não corrige: deforma.

Uma coisa é indignar-se diante de um fato. Outra, muito diferente, é precisar de fatos diários para alimentar a própria indignação. Nesse segundo caso, o problema deixa de ser apenas político, social ou moral. Passa a ser também existencial. Há pessoas que já não sabem quem são sem um inimigo diante de si. E quando o inimigo falta, ele é fabricado.

A política brasileira, as redes sociais, os ambientes religiosos, os debates culturais e até as conversas familiares têm sido atravessados por essa lógica. Não basta discordar. É preciso desqualificar. Não basta contestar. É preciso reduzir o outro a uma caricatura moralmente inferior.

Assim, o adversário vira ameaça. A discordância vira insulto. A pergunta vira provocação. A prudência vira cumplicidade. E a dúvida vira traição. Quando chegamos a esse ponto, a conversa já morreu, ainda que todos continuem falando.

O barulho como substituto da lucidez

Nunca tivemos tanto acesso à informação. Temos notícias em tempo real, análises instantâneas, vídeos explicativos, podcasts, cortes, comentários, gráficos, pesquisas, colunas, lives, newsletters, canais, perfis especializados e opiniões em escala industrial. E, no entanto, é difícil dizer que estamos necessariamente mais lúcidos.

Talvez porque informação não seja sinônimo de compreensão. Informação é matéria-prima. Compreensão é trabalho interior. Informação chega. Compreensão se constrói. Informação pode ser recebida passivamente. Compreensão exige confronto, comparação, memória, humildade e alguma disposição para rever a si mesmo.

O excesso de informação, quando não passa pelo crivo da reflexão, não nos torna mais sábios. Apenas nos torna mais barulhentos. E ruído, quando se acumula, não esclarece. Ensurdece.

Há um tipo de ignorância contemporânea que não nasce da falta de acesso, mas do excesso desordenado. Não é a ignorância de quem não recebeu informação. É a ignorância de quem recebeu informação demais, depressa demais, sem tempo, sem silêncio, sem hierarquia, sem elaboração. A pessoa sabe de tudo um pouco, mas compreende quase nada em profundidade. E, ainda assim, sente-se autorizada a opinar sobre tudo com uma segurança que nenhum sábio verdadeiro costuma ter.

A dificuldade de suportar dúvidas

Talvez uma das maiores pobrezas do debate público atual seja a incapacidade de suportar dúvidas. Dúvida, hoje, é frequentemente interpretada como fraqueza. Como se o sujeito que não responde imediatamente estivesse fugindo. Como se aquele que pondera estivesse tentando se esconder. Como se a prudência fosse sempre covardia.

Mas pensar de verdade é, muitas vezes, demorar-se na dúvida. Não a dúvida paralisante, que nunca decide nada. Mas a dúvida honesta, que sabe que a realidade costuma ser mais complexa do que os slogans permitem enxergar.

Há perguntas que precisam ser suportadas antes de serem respondidas. Há dores que precisam ser escutadas antes de serem explicadas. Há conflitos que precisam ser compreendidos antes de serem julgados. Mas o ambiente público atual tem pouca paciência com esse tipo de demora. Ele prefere respostas rápidas, rótulos fáceis e culpados imediatamente disponíveis.

A dúvida é incômoda porque impede o prazer da sentença. E há, sim, um prazer estranho em sentenciar. Em apontar. Em condenar. Em pertencer ao grupo dos que “já entenderam tudo”. Em repetir a frase que todos naquele círculo repetem. Em sentir-se lúcido apenas porque se está acompanhado por muitos que gritam a mesma coisa. Só que multidão não é critério de verdade. Aplauso não é prova de lucidez. E consenso de bolha não é pensamento.

Quando a opinião substitui o pensamento

Opinar é fácil. Pensar é mais difícil. A opinião pode nascer de um impulso. O pensamento precisa atravessar o impulso. A opinião pode ser vaidosa. O pensamento precisa aceitar ser corrigido. A opinião pode desejar vencer. O pensamento deseja compreender, ainda que compreender custe a perda de algumas certezas confortáveis.

Por isso, o pensamento é sempre mais humilde do que a mera opinião. Ele não se recusa a tomar posição. Mas também não transforma toda tomada de posição em espetáculo de vaidade.

O que temos visto, no entanto, é uma inflação de opiniões e uma escassez de pensamento. Muitas vozes, muitos veredictos, muitas certezas, muitas acusações, muitas performances morais — e pouca disposição para atravessar a complexidade das coisas.

A opinião pública, nesse cenário, deixa de ser o resultado de uma conversa social amadurecida e passa a ser o produto de estímulos sucessivos. Alguém provoca. Outro reage. Um terceiro amplifica. A bolha confirma. O algoritmo recompensa. E, em pouco tempo, uma multidão está convencida de que pensou, quando apenas reagiu em conjunto. É a fabricação instantânea da certeza coletiva.

O empobrecimento da escuta

Talvez estejamos tão cercados de vozes porque estamos cada vez mais incapazes de escutar. Escutar não é apenas esperar a vez de responder. Escutar é permitir que a fala do outro tenha algum efeito real sobre nós. É admitir a possibilidade de que algo nele nos desloque, nos incomode, nos corrija, nos desafie ou, ao menos, nos obrigue a formular melhor aquilo que acreditamos.

Mas escutar, nesse sentido, tornou-se perigoso. Porque quem escuta corre o risco de ser afetado. E muita gente já não quer ser afetada. Quer apenas confirmar o que já trouxe pronto. Quer usar o outro como superfície de combate, não como presença humana.

Essa perda da escuta empobrece tudo: a política, a religião, a cultura, a imprensa, a universidade, a família, a igreja, a empresa, a amizade. Sem escuta, todo diálogo vira disputa de volume. Sem escuta, toda divergência vira ameaça. Sem escuta, toda comunidade vira ajuntamento de solidões barulhentas.

A pressa como método de erro

A pressa pode ser eficiente para muitas coisas. Mas é péssima conselheira do pensamento. O pensamento precisa de tempo não por capricho intelectual, mas porque a realidade não se entrega inteira ao primeiro olhar.

O primeiro olhar quase sempre é pobre. A primeira reação quase sempre é defensiva. A primeira indignação quase sempre é incompleta. A primeira certeza quase sempre revela mais sobre nós do que sobre o objeto que julgamos.

Por isso, pensar exige retorno. Exige segunda leitura. Exige escuta do contraditório. Exige o incômodo de perceber que talvez a nossa reação inicial tenha sido apenas isso: reação.

Mas o ambiente público premia o imediato. Premia quem fala primeiro, quem grita mais alto, quem simplifica melhor, quem transforma complexidade em frase compartilhável. A frase curta vence o argumento longo. O corte vence o contexto. A lacração vence a elaboração. E, nesse processo, vamos confundindo agilidade com inteligência, coragem com precipitação e clareza com simplificação grosseira.

Uma sociedade que desaprendeu a pensar em voz baixa

Há uma beleza perdida no pensamento em voz baixa. Não falo de timidez. Falo de sobriedade. Pensar em voz baixa é saber que nem toda convicção precisa ser berrada para ser firme. É entender que profundidade não depende de escândalo. É reconhecer que algumas verdades precisam de delicadeza, não de teatralidade.

Mas nós nos acostumamos ao espetáculo. Até a reflexão, muitas vezes, precisa parecer performance. Precisa ter pose, impacto, frase de efeito, identidade visual, recorte viral. E, se não gerar reação imediata, parece não ter valor.

Isso é uma tragédia sutil. Porque algumas das coisas mais importantes da vida não fazem barulho quando nascem. A maturidade não faz barulho. O arrependimento verdadeiro não faz barulho. A sabedoria raramente faz barulho. A escuta profunda não faz barulho. A mudança interior, quase nunca. Talvez por isso estejamos produzindo tanta opinião e tão pouca transformação.

A tentação das certezas prontas

As certezas prontas são confortáveis porque nos poupam do trabalho de pensar. Elas já vêm com inimigos definidos, explicações simplificadas, vocabulário de combate e comunidade de apoio. Quem adere a elas recebe, junto com a opinião, um lugar no mundo.

É tentador. Especialmente em tempos de insegurança, medo, crise econômica, desconfiança institucional e exaustão emocional. Quanto mais confusa parece a realidade, maior a sedução das respostas simples.

Mas respostas simples demais para problemas complexos costumam cobrar caro. Elas nos dão alívio imediato, mas reduzem nossa capacidade de discernimento. Elas organizam o mundo em termos suportáveis, mas falsificam a realidade. Elas oferecem inimigos, mas nem sempre oferecem verdade.

E uma sociedade que se alimenta de certezas prontas começa a perder a musculatura moral necessária para lidar com ambiguidades. Passa a chamar complexidade de enrolação. Prudência de covardia. Nuance de oportunismo. Escuta de fraqueza. E pensamento de indecisão.

O pensamento como ato de resistência

Talvez, em nosso tempo, pensar tenha voltado a ser um ato de resistência. Não resistência no sentido panfletário, mas no sentido mais profundo: resistir à velocidade, ao ruído, ao impulso, à manipulação, à tentação da resposta fácil, ao conforto da própria bolha.

Pensar é resistir à vulgarização da vida interior. É recusar que a alma seja governada apenas por estímulos. É reconhecer que nem tudo o que nos mobiliza nos ilumina. Há coisas que nos mobilizam apenas para nos capturar.

Pensar é perguntar antes de repetir. É desconfiar da própria certeza quando ela nos deixa vaidosos demais. É aceitar que o outro talvez não seja tão simples quanto a caricatura que fizeram dele. É admitir que, às vezes, a verdade passa por lugares onde a nossa tribo não gostaria que ela passasse.

E isso exige coragem. Porque pensar pode nos deixar momentaneamente sem torcida.

O que perdemos quando paramos de escutar

Quando uma sociedade para de escutar, ela não perde apenas a delicadeza. Perde também inteligência. A escuta é uma forma de conhecimento. Quem não escuta, não aprende. Quem não aprende, apenas repete. E quem apenas repete pode até parecer firme, mas dificilmente amadurece.

Sem escuta, o debate público vira uma sucessão de monólogos agressivos. Cada grupo fala para os seus, contra os outros, sobre uma realidade que já foi previamente interpretada pelos seus próprios filtros. O resultado é uma sociedade fragmentada em certezas incompatíveis, mas igualmente surdas.

Todos falam em nome da verdade. Poucos se submetem ao trabalho que a verdade exige. Todos dizem defender o bem. Poucos se perguntam se seus métodos ainda guardam alguma bondade. Todos acusam o outro de cegueira. Poucos examinam as próprias sombras.

A urgência de reaprender a pensar

Talvez precisemos reaprender o valor da reflexão antes da reação. Não para abolir a indignação. Não para romantizar a neutralidade. Não para fingir que todos os lados são iguais. Não para transformar prudência em omissão. Mas para recuperar alguma dignidade no modo como discordamos.

Uma sociedade madura não é aquela em que todos pensam igual. É aquela em que as diferenças ainda conseguem produzir linguagem, não apenas hostilidade. É aquela em que a divergência não precisa destruir a humanidade do divergente. É aquela em que a pergunta ainda tem lugar antes da sentença. É aquela em que a verdade não precisa ser sequestrada pela pressa. É aquela em que a escuta não é vista como rendição, mas como sinal de força interior.

Talvez estejamos precisando menos de novas opiniões e mais de melhor elaboração. Menos de reações instantâneas e mais de consciência. Menos de barulho e mais de discernimento. Porque onde ninguém escuta, todo mundo grita. E onde todo mundo grita, quase ninguém pensa.

Fechamento

Nem toda opinião pública nasce do pensamento. Algumas nascem do medo. Outras, do cansaço. Outras, da repetição. Outras, da necessidade de pertencer. Outras, da vaidade de parecer lúcido diante dos próprios pares.

Mas pensamento mesmo exige outro caminho. Exige silêncio. Exige escuta. Exige demora. Exige humildade. Exige a coragem de atravessar dúvidas sem transformá-las imediatamente em inimigas.

Talvez a grande pergunta do nosso tempo não seja apenas: “Qual é a sua opinião?”

Talvez seja:

quanto da sua opinião sobrevive ao silêncio necessário para pensar?





quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Desaparecer: A tragédia silenciosa que cresce diante de nós


Por Jânsen Leiros Jr
                 
                Há uma estatística que cresce no mundo inteiro — e cresce quase em silêncio: o número de pessoas desaparecidas.

Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), mais de 60 mil migrantes morreram ou desapareceram nas rotas migratórias globais desde 2014. Apenas no Mediterrâneo, milhares continuam sumindo todos os anos sem identificação formal. Em zonas de conflito, como partes da África e do Oriente Médio, o desaparecimento é frequentemente um instrumento de guerra. No México, o registro oficial ultrapassa 110 mil pessoas desaparecidas acumuladas nas últimas décadas.

Não estamos falando de episódios isolados. Estamos falando de fenômeno estrutural.

No Brasil, os números também são alarmantes. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública indicam que o país registra, em média, entre 65 mil e 80 mil boletins de ocorrência de desaparecimento por ano. Parte dessas pessoas retorna nos primeiros dias. Mas milhares permanecem sem localização definitiva. O Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas ainda enfrenta dificuldades de integração plena entre os estados, apesar da Lei nº 13.812/2019 ter instituído a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas.

Temos lei. Temos previsão normativa. Temos estrutura formal.

O que não temos é eficiência sistêmica.

Os casos são múltiplos: conflitos familiares, violência doméstica, aliciamento por facções criminosas, exploração sexual, dependência química, sofrimento psíquico não assistido, fuga de ambientes violentos. Há desaparecimentos voluntários, sim. Mas há também desaparecimentos forçados e criminosos que expõem redes de tráfico humano, trabalho análogo à escravidão e execução extrajudicial.

E aqui está o ponto central: o desaparecimento não é apenas um problema policial. É um indicador social.

Sociedades com alta desigualdade, fragilidade institucional e baixa coordenação federativa tendem a apresentar maior dificuldade na prevenção e na resposta rápida. A literatura internacional sobre governança demonstra que a integração de bases de dados, resposta nas primeiras 48 horas e coordenação interestadual reduzem drasticamente o tempo de localização.

No Brasil, muitas vezes, a família é orientada a “aguardar 24 horas” — prática que já foi superada juridicamente, mas ainda persiste culturalmente em alguns contextos. Enquanto isso, as primeiras horas, decisivas para investigação, se perdem.

O problema não está apenas no desaparecimento. Está na incapacidade de resposta proporcional à gravidade do evento.

Quando investigações esfriam após os primeiros dias, quando bancos de dados não conversam entre si, quando não há padronização nacional eficiente, o Estado envia uma mensagem implícita: a urgência da ausência não é prioridade.

E aqui entramos na dimensão civilizatória.

Uma sociedade é medida pela forma como protege seus vulneráveis. Mas também pela forma como reage à ausência deles. Quando vidas podem desaparecer sem mobilização consistente, há uma erosão silenciosa do valor humano.

Não se trata apenas de segurança pública. Trata-se de ontologia social: quanto vale uma vida no imaginário institucional? Quanto tempo o sistema está disposto a investir para encontrá-la?

Cada desaparecido é uma interrupção biográfica. É uma família suspensa no tempo. É um luto sem corpo, sem rito, sem conclusão — aquilo que a psicologia denomina “luto ambíguo”, um dos estados emocionais mais devastadores que existem.

O crescimento dos desaparecimentos, no mundo e no Brasil, revela algo maior do que estatística criminal. Revela fragilidade de coordenação estatal, vulnerabilidade social persistente e, sobretudo, a banalização da ausência.

Quando o desaparecimento vira número, ele perde nome. E quando perde nome, perde urgência.

Desaparecer não pode ser normal. Porque quando o Estado se acostuma à ausência de seus cidadãos, a própria ideia de pertencimento começa a desaparecer junto.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Um colapso por espetáculo e sob aplausos

Por Jânsen Leiros Jr.
                 O cenário do aparente progresso

Que o mundo parece estar perdendo o rumo todos já perceberam.

Que os pilares de qualquer civilização estão sendo destruídos à medida que a humanidade caminha é uma realidade que se impõe — exceto àqueles que se encantam pela modernidade tecnológica e entendem tecnologia como sinônimo de desenvolvimento e avanço rumo a um momento de apoteose da humanidade.

Mas também podemos entender o que vivemos como sociedade global como aquilo que, em medicina popular, costuma-se chamar de “a melhora da morte”.

Diante desse quadro, e para se compreender melhor todo o contexto, há perguntas inevitáveis, necessárias e que parecem exigir escolha, mas cuja própria formulação já denuncia um equívoco de percepção.

Quando nos perguntamos que rumo seria pior perder definitivamente no contexto atual — a verdade, a profundidade, a liberdade ou a capacidade de sustentar constância, pilares civilizacionais — somos tentados a estabelecer uma hierarquia entre elas, como se fossem virtudes concorrentes disputando prioridade moral. No entanto, uma análise mais rigorosa revela que não estamos diante de alternativas, mas de uma única estrutura composta por elementos interdependentes.

Não são valores paralelos. São fundamentos que se sustentam mutuamente. Retire um, e os demais começam a vacilar. Retire dois, e a cultura perde estabilidade. Retire todos, e o que resta não é civilização, mas espetáculo.


A verdade e o rompimento com o real

Desde Aristóteles, compreende-se a verdade como correspondência entre intelecto e realidade. A mente não cria o real; ela o reconhece. Essa formulação, desenvolvida pela tradição metafísica clássica, ultrapassou o campo meramente lógico e afirmou que a verdade não é simples construção discursiva, mas reconhecimento de uma ordem que precede o pensamento.

Logo, não se trata de invenção linguística, mas de adequação ao que é.

Nas últimas décadas, porém, ganhou força uma concepção distinta. A linguagem passou a ser entendida não apenas como meio de descrição, mas como instrumento de produção de realidade. O que se afirma deixa de ser avaliado por sua correspondência com o mundo e passa a ser medido por sua eficácia, por sua capacidade de mobilização ou de imposição simbólica.

Nesse ambiente, consolida-se aquilo que se convencionou chamar de pós-verdade: não a negação explícita dos fatos, mas sua subordinação à narrativa dominante.

Perder a verdade, nesse contexto, não significa apenas incorrer em erro intelectual; significa romper o vínculo entre linguagem e realidade.

Quando esse vínculo se fragiliza, o discurso deixa de descrever o mundo para tentar substituí-lo. A política transforma-se em engenharia narrativa. A moral converte-se em convenção funcional. A educação deixa de formar para tornar-se instrumento de adaptação às versões hegemônicas. A própria noção de fato passa a depender de validação coletiva, não de correspondência objetiva.

A ruptura entre verdade e realidade não produz apenas confusão teórica. Ela reconfigura estruturas sociais inteiras. Onde a verdade deixa de operar como referência, o poder tende a ocupar seu lugar. O que prevalece já não é o que corresponde ao real, mas o que consegue impor-se como versão dominante — ainda que transitória, ainda que instável. Ainda que não-verdade.


A superficialidade como cultura

A verdade pode até continuar existindo formalmente e, ainda assim, tornar-se inofensiva. Isso acontece quando se perde a profundidade. Não é necessário negar a verdade para neutralizá-la; basta esvaziá-la.

Vivemos sob a lógica da superfície. A velocidade da informação produz a sensação de conhecimento, mas raramente conduz à compreensão. Tudo é acessível, quase nada é assimilado. O excesso de dados substitui o exercício do pensamento.

Democracias modernas sempre correram esse risco: formar indivíduos inclinados ao imediato, ao útil, ao confortável. Quando a vida pública deixa de ser sustentada por virtudes internas, o que prevalece é a pressa — e a pressa é inimiga da profundidade.

Profundidade exige interioridade. Exige silêncio, exame, maturação. Mas uma cultura orientada pela visibilidade permanente dificilmente tolera o invisível. Formam-se pessoas tecnicamente aptas e emocionalmente estimuladas, mas incapazes de sustentar convicções que atravessem o tempo.

Quando a profundidade é abandonada, a verdade não desaparece de imediato; ela é simplificada até caber em um slogan. A liberdade converte-se em palavra de campanha. A indignação transforma-se em performance pública. A experiência religiosa, quando existe, torna-se espetáculo. O raso é sempre mais fácil de organizar, de repetir, de manipular.


A liberdade entre a verdade e o poder

Verdade e profundidade, ainda que preservadas, não bastam se a liberdade for comprometida. Sem liberdade, até a verdade se torna frágil. Mas liberdade não é ausência de limites; é capacidade de agir orientada por um referencial que a transcende.

O problema começa quando se redefine liberdade como mera afirmação de vontade. Nesse cenário, desejar passa a equivaler a ter direito, e o indivíduo se converte na medida última de todas as coisas. A liberdade deixa de ser responsabilidade e torna-se impulso legitimado.

Por outro lado, quando a verdade é dissociada da liberdade, ela se converte em imposição. O discurso que deveria iluminar passa a controlar. A história já mostrou que a invocação da verdade pode servir como instrumento de coerção quando não encontra o freio da liberdade.

A tensão é inevitável: sem liberdade, a verdade oprime. Sem verdade, a liberdade dissolve-se em arbitrariedade. Entre o caos e a coerção, civilizações oscilam quando perdem o equilíbrio entre essas duas forças.


A constância invisível

Há uma virtude, no entanto, ainda menos visível, mas decisiva: a constância. Verdade, profundidade e liberdade podem até ser reconhecidas, mas não se sustentam sem continuidade no tempo. Ideias não resistem apenas por serem corretas; resistem porque são cultivadas.

Vivemos numa cultura de interrupção permanente. Tudo é instantâneo, tudo é substituível, tudo é descartável. Compromissos tornaram-se provisórios. Convicções, revisáveis ao sabor do ambiente. O que ontem parecia inegociável hoje é ajustado para caber no novo clima.

Sem constância, a verdade vira tendência. A profundidade vira modismo intelectual. A liberdade transforma-se em oscilação emocional. Nada permanece tempo suficiente para criar raízes.

O colapso raramente acontece em explosões dramáticas. Ele se instala de modo quase imperceptível. Civilizações não desmoronam em um único ato; esvaziam-se lentamente quando deixam de cultivar aquilo que é estrutural, mas não espetacular. O invisível é abandonado primeiro. O restante cai depois.


A fragmentação dos pilares

O grande perigo contemporâneo não é a rejeição aberta desses pilares, mas sua fragmentação. Raramente se declara guerra à verdade; prefere-se isolá-la. Não se abandona a liberdade; redefine-se seu significado. Não se nega a profundidade; esvazia-se sua exigência. Não se rejeita a constância; celebra-se sua flexibilidade.

Defende-se liberdade contra verdade. Defende-se verdade sem liberdade. Busca-se profundidade sem disciplina. Proclama-se constância sem fundamento. Cada virtude passa a operar como se pudesse sobreviver sozinha.

Essa ruptura da unidade gera instabilidade cultural. Quando os pilares deixam de se sustentar mutuamente, a estrutura começa a oscilar. O resultado não é necessariamente imediato ou espetacular; é gradual. Sociedades podem tornar-se tecnicamente sofisticadas e, ao mesmo tempo, moralmente frágeis. Podem ampliar direitos e, ainda assim, enfraquecer responsabilidades. Podem falar constantemente em valores e, ao mesmo tempo, esvaziá-los.

A fragmentação é mais perigosa do que a negação. Porque mantém as palavras — mas altera seu conteúdo.


O colapso que recebe aplausos

A pergunta inicial, então, perde o caráter competitivo. Não se trata de decidir qual desses pilares seria pior perder. O verdadeiro colapso começa quando se perde a consciência de que eles formam uma única estrutura.

Verdade fornece fundamento. Profundidade confere densidade. Liberdade exige responsabilidade. Constância assegura continuidade. Separadas, tornam-se caricaturas umas das outras. Unidas, sustentam civilização.

Fundamentos não aparecem nas manchetes. Não produzem aplausos. Não rendem espetáculo. E justamente por isso são ignorados — até que sua ausência se torne irreversível.

A defesa desses pilares não começa no Estado, nem nas instituições, nem na academia. Começa no indivíduo. Começa na decisão silenciosa de não negociar a verdade porque ela custa, de buscar profundidade quando o ambiente prefere superficialidade, de defender a liberdade mesmo quando ela impõe limites, de permanecer constante quando tudo convida à ruptura.

Civilizações não morrem apenas por invasões externas. Morrem quando seus fundamentos deixam de ser cultivados internamente. Quando a estrutura invisível se dissolve, o espetáculo pode continuar por algum tempo — discursos permanecem, símbolos permanecem, rituais permanecem — mas será apenas aparência sem sustentação.

A pergunta, afinal, não é qual desses pilares seria pior perder. A pergunta é se ainda temos maturidade moral e intelectual para sustentar todos simultaneamente.

Porque, se não tivermos, o colapso não virá com estrondo.

Virá entre aplausos.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A fé no paredão e a democracia de conveniência

 

Por Jânsen Leiros Jr.

Há algo de profundamente inquietante acontecendo no debate público brasileiro. Não é apenas polarização. Polarização é sintoma. O que se observa é algo mais grave: a naturalização de um discurso que condiciona direitos políticos à conformidade ideológica.

E, curiosamente — ou nem tanto — o alvo recorrente tem sido o segmento evangélico.

Não se trata aqui de blindar igrejas, lideranças religiosas ou qualquer grupo social de críticas legítimas. Democracia não é imunidade moral. Democracia é tensão administrada. O problema começa quando a crítica se converte em desqualificação estrutural da cidadania.

Quando um intelectual sugere — ainda que em tom de “provocação” — que evangélicos não deveriam votar porque não escolhem seus pastores por sufrágio universal, não estamos diante de humor refinado. Estamos diante de um argumento perigosamente autoritário.

A lógica implícita é simples e assustadora:

Se a estrutura interna de sua comunidade não é democrática nos moldes iluministas, você não está apto à democracia política.

Ora, essa régua não sobreviveria cinco minutos se aplicada a qualquer outro grupo cultural ou religioso. Nenhuma tradição espiritual organiza sua liderança por referendo popular. Nem o Vaticano, nem o candomblé, nem o budismo tibetano. E nem por isso se questiona o direito de seus fiéis votarem.

O que está em jogo, portanto, não é coerência teórica. É seletividade moral.

E seletividade moral é o primeiro degrau da exclusão política.

O Estado é Laico. O Cidadão, Não.

Há uma confusão recorrente — e convenientemente estimulada — entre laicidade do Estado e neutralização do indivíduo.

O Estado não tem religião.

O cidadão tem.

O Estado não professa fé.

O cidadão vota segundo consciência.

A Constituição brasileira garante liberdade religiosa e liberdade de voto. Não estabelece hierarquia entre convicções filosóficas, religiosas ou ateias. A ideia de que valores religiosos desqualificam o voto é uma forma elegante de censura moral.

John Locke, ao escrever sobre tolerância, defendia que o Estado não deveria interferir na consciência individual porque a consciência não é território administrativo. Quando se começa a sugerir que determinadas convicções tornam alguém politicamente suspeito, estamos ultrapassando Locke e nos aproximando de algo muito menos iluminado.

Assistência Social Não É Dívida Eleitoral

A segunda camada da questão é ainda mais delicada.

Quando um chefe do Executivo afirma, em tom combativo, que determinado grupo “recebe benefícios do governo” e, na mesma linha, convoca sua base a confrontar e “escrachar” críticas vindas desse segmento, há uma mensagem implícita que não pode ser ignorada:

O benefício social passa a ser narrado como concessão graciosa do governante.

Mas programas de transferência de renda não são esmolas personalizadas. São políticas públicas financiadas por tributos — inclusive pagos pelos próprios beneficiários, direta ou indiretamente.

O Bolsa Família (ou qualquer outro programa similar) não pertence ao presidente de plantão. Pertence ao arcabouço legal do Estado brasileiro.

Transformar assistência em instrumento de constrangimento político é retroceder à lógica do favor. É a política do curral, agora digitalizada.

E aqui cabe uma pergunta incômoda:

Desde quando cidadania virou contrato de gratidão?

Se o auxílio exige alinhamento ideológico, ele deixa de ser política pública e passa a ser mecanismo de dependência.

E dependência política não é justiça social. É coronelismo reembalado.

O “Ódio do Bem”

Vivemos a era do ódio justificado.

O preconceito, quando direcionado ao grupo “errado”, vira crítica social sofisticada.

A desqualificação coletiva vira “análise cultural”.

Se alguém dissesse que adeptos de religiões de matriz africana não deveriam votar porque seguem lideranças não eleitas, o país entraria — com razão — em estado de indignação moral. Haveria notas públicas, investigações e manchetes.

Mas quando o alvo é o evangélico — especialmente o evangélico pobre — parte do debate se transforma em ironia acadêmica.

Essa assimetria revela algo mais profundo: não estamos discutindo religião. Estamos disputando narrativa.

E quem controla a narrativa controla a moldura moral da indignação.

Democracia de Conveniência

Democracia não é o direito de votar apenas quando o voto agrada. Democracia é aceitar que o outro, com valores distintos, possui igual legitimidade política.

Se começamos a classificar eleitores como menos qualificados porque votam segundo convicções religiosas, abrimos precedente perigoso.

Hoje é o evangélico. Amanhã pode ser o conservador. Depois, o progressista. Em seguida, qualquer um que não caiba na ortodoxia do momento.

A história mostra que toda exclusão começa com uma justificativa racional sofisticada. Sempre há um argumento técnico. Sempre há uma exceção bem-intencionada. E, de exceção em exceção, constrói-se o autoritarismo aceitável.

A Questão de Fundo

Não se trata de defender igrejas. Nem partidos. Nem governos.

Trata-se de defender um princípio:

Direitos políticos não são condicionais.

Não dependem de simpatia cultural.

Não dependem de aprovação acadêmica.

Não dependem de alinhamento ideológico.

Quando o voto passa a ser avaliado segundo o conteúdo moral do eleitor, estamos perigosamente próximos de redefinir cidadania como privilégio.

E privilégio não é democracia.

Uma Advertência Final

Uma sociedade que normaliza o desprezo público contra um segmento religioso específico não está fortalecendo a laicidade. Está corroendo a confiança institucional.

Não existe justiça social sem igualdade de dignidade.

Não existe pluralismo sem tolerância recíproca.

Não existe democracia saudável quando a régua da indignação mede apenas um lado.

A democracia não pode ser de conveniência.

Ou ela vale para todos — inclusive para quem discorda de nós —

ou não vale para ninguém.

E quando a fé começa a ser colocada no paredão moral, não é apenas um grupo que está sob julgamento.

É a própria ideia de liberdade.