quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Desaparecer: A tragédia silenciosa que cresce diante de nós


Por Jânsen Leiros Jr

                 
                Há uma estatística que cresce no mundo inteiro — e cresce quase em silêncio: o número de pessoas desaparecidas.

Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), mais de 60 mil migrantes morreram ou desapareceram nas rotas migratórias globais desde 2014. Apenas no Mediterrâneo, milhares continuam sumindo todos os anos sem identificação formal. Em zonas de conflito, como partes da África e do Oriente Médio, o desaparecimento é frequentemente um instrumento de guerra. No México, o registro oficial ultrapassa 110 mil pessoas desaparecidas acumuladas nas últimas décadas.

Não estamos falando de episódios isolados. Estamos falando de fenômeno estrutural.

No Brasil, os números também são alarmantes. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública indicam que o país registra, em média, entre 65 mil e 80 mil boletins de ocorrência de desaparecimento por ano. Parte dessas pessoas retorna nos primeiros dias. Mas milhares permanecem sem localização definitiva. O Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas ainda enfrenta dificuldades de integração plena entre os estados, apesar da Lei nº 13.812/2019 ter instituído a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas.

Temos lei. Temos previsão normativa. Temos estrutura formal.

O que não temos é eficiência sistêmica.

Os casos são múltiplos: conflitos familiares, violência doméstica, aliciamento por facções criminosas, exploração sexual, dependência química, sofrimento psíquico não assistido, fuga de ambientes violentos. Há desaparecimentos voluntários, sim. Mas há também desaparecimentos forçados e criminosos que expõem redes de tráfico humano, trabalho análogo à escravidão e execução extrajudicial.

E aqui está o ponto central: o desaparecimento não é apenas um problema policial. É um indicador social.

Sociedades com alta desigualdade, fragilidade institucional e baixa coordenação federativa tendem a apresentar maior dificuldade na prevenção e na resposta rápida. A literatura internacional sobre governança demonstra que a integração de bases de dados, resposta nas primeiras 48 horas e coordenação interestadual reduzem drasticamente o tempo de localização.

No Brasil, muitas vezes, a família é orientada a “aguardar 24 horas” — prática que já foi superada juridicamente, mas ainda persiste culturalmente em alguns contextos. Enquanto isso, as primeiras horas, decisivas para investigação, se perdem.

O problema não está apenas no desaparecimento. Está na incapacidade de resposta proporcional à gravidade do evento.

Quando investigações esfriam após os primeiros dias, quando bancos de dados não conversam entre si, quando não há padronização nacional eficiente, o Estado envia uma mensagem implícita: a urgência da ausência não é prioridade.

E aqui entramos na dimensão civilizatória.

Uma sociedade é medida pela forma como protege seus vulneráveis. Mas também pela forma como reage à ausência deles. Quando vidas podem desaparecer sem mobilização consistente, há uma erosão silenciosa do valor humano.

Não se trata apenas de segurança pública. Trata-se de ontologia social: quanto vale uma vida no imaginário institucional? Quanto tempo o sistema está disposto a investir para encontrá-la?

Cada desaparecido é uma interrupção biográfica. É uma família suspensa no tempo. É um luto sem corpo, sem rito, sem conclusão — aquilo que a psicologia denomina “luto ambíguo”, um dos estados emocionais mais devastadores que existem.

O crescimento dos desaparecimentos, no mundo e no Brasil, revela algo maior do que estatística criminal. Revela fragilidade de coordenação estatal, vulnerabilidade social persistente e, sobretudo, a banalização da ausência.

Quando o desaparecimento vira número, ele perde nome. E quando perde nome, perde urgência.

Desaparecer não pode ser normal. Porque quando o Estado se acostuma à ausência de seus cidadãos, a própria ideia de pertencimento começa a desaparecer junto.

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