segunda-feira, 20 de julho de 2026

Acariocaram o IMAX

 


por Jânsen Leiros 

O Rio sempre teve uma relação afetiva com o cinema.

Antes dos shoppings, das salas multiplex e das experiências tecnológicas vendidas como espetáculo, havia os cinemas de rua, os grandes letreiros, as estreias esperadas, as filas, os encontros na porta, o ritual quase solene de entrar numa sala escura para ver o mundo se abrir numa tela maior que a vida.

A cidade conheceu salas famosas, algumas quase míticas, que não eram apenas lugares para assistir a filmes. Eram pontos de encontro, extensão da vida urbana, parte da memória cultural carioca. Depois, como quase tudo, o cinema também mudou. As grandes salas foram dando lugar a novos formatos, novas tecnologias, novas promessas de imersão.

Entre elas, o IMAX: uma sala projetada para oferecer imagem maior, som mais potente e experiência cinematográfica superior.

Em tese.

Porque, no Rio, às vezes, até a alta tecnologia parece passar por um processo de “adaptação local” difícil de explicar sem alguma dose de constrangimento.

A cena é quase simbólica: a única sala IMAX disponível no nosso já sofrido “hell de Janeiro” apresenta uma mancha visível na tela durante toda a projeção. Não uma sutileza percebida apenas por olhos excessivamente exigentes. Uma mancha mesmo. Incômoda. Presente. Atrapalhando a experiência.

E aqui não se trata de preciosismo.

Numa sala comum, uma tela manchada já seria descuido. Numa sala IMAX, pelo valor do ingresso e pelo padrão prometido, é algo ainda mais difícil de aceitar. Porque quem paga por uma experiência premium não está pagando apenas pelo filme. Está pagando por imagem, som, conforto, tecnologia, cuidado e entrega compatível com a promessa feita.

O problema é que o Rio desenvolveu uma estranha tolerância com o “quase”.

Quase funciona.

Quase entrega.

Quase está limpo.

Quase está conservado.

Quase corresponde ao preço.

Quase respeita o cliente.

E esse “quase” vai se espalhando pela cidade como se fosse parte inevitável do cotidiano. Está no ar-condicionado que não dá conta, no elevador que vive em manutenção, no atendimento que trata o cliente como favor recebido, no banheiro de restaurante turístico sem cuidado, no hotel que vende vista paradisíaca e entrega manutenção cansada, no transporte que promete frequência e oferece incerteza, no serviço que cobra como experiência e entrega como improviso.

O Rio é uma das cidades mais bonitas do mundo. Talvez por isso, muita gente pareça acreditar que a beleza natural compensa qualquer displicência humana. Como se a paisagem absolvesse a má prestação de serviço. Como se o Pão de Açúcar, o Corcovado, a Lagoa, o mar, a floresta e a luz da cidade fossem suficientes para encobrir o descuido de quem cobra caro e entrega pouco.

Não são.

A beleza do Rio deveria aumentar nossa responsabilidade, não diminuí-la.

Uma cidade turística não pode viver apenas daquilo que a natureza lhe deu. Precisa cuidar daquilo que promete. Precisa entregar o que anuncia. Precisa entender que experiência não é discurso publicitário; é percepção concreta do cliente, do morador, do visitante, do espectador, do passageiro, do hóspede, do consumidor.

O carioca aprendeu a rir de muita coisa. Isso é virtude. Mas também pode virar armadilha. Quando rimos demais do descuido, ele deixa de causar vergonha. Quando naturalizamos o malfeito, ele passa a fazer parte da paisagem. Quando aceitamos pagar mais por serviço de menos, ajudamos a consolidar um padrão ruim como se fosse inevitável.

Não deveria ser.

Uma mancha na tela do IMAX talvez pareça apenas um detalhe. Mas detalhes contam histórias. E, nesse caso, contam uma história incômoda sobre a forma como certos serviços são tratados no Rio: com pouca manutenção, pouca vigilância, pouca ambição de excelência e uma confiança excessiva na paciência do consumidor.

O curioso é que não estamos falando de luxo. Estamos falando de respeito à entrega.

Se a proposta é simples, que se entregue bem o simples. Se a proposta é premium, que se entregue o premium. O que não dá é vender experiência de primeiro mundo e tratar o detalhe como se estivéssemos pedindo demais.

Porque não estamos.

Queremos apenas que a tela esteja limpa.

Que o som funcione.

Que o atendimento respeite.

Que o serviço corresponda.

Que o preço encontre alguma justificativa na entrega.

No fim, talvez o problema não seja apenas uma sala de cinema com uma mancha na tela. Talvez seja uma pequena metáfora carioca: a cidade segue linda, desejada e cinematográfica, mas insiste em permitir que o descuido apareça bem no meio da projeção.

E aí, por melhor que seja o filme, fica difícil fingir que não estamos vendo.

domingo, 5 de julho de 2026

E o sonho acabou. Mas só para quem sonhou.

 

por Jânsen Leiros

A seleção brasileira masculina perdeu para a Noruega antes mesmo de perder no placar.

Perdeu no corpo.
Perdeu na alma.
Perdeu na postura.
Perdeu na ideia elementar de que camisa nenhuma joga sozinha.

O Brasil entrou em campo como quem comparece a um compromisso inconveniente. Andou quando precisava correr. Tocou quando precisava agredir. Olhou quando precisava disputar. Esperou que alguma centelha individual resolvesse aquilo que nenhuma construção coletiva parecia preparada para resolver.

E então aconteceu o óbvio: uma equipe venceu um elenco.

A Noruega não precisou reinventar o futebol. Não precisou de mística. Não precisou de firula. Precisou apenas parecer mais interessada em jogar do que o Brasil. E isso, para uma seleção brasileira, deveria ser motivo de vergonha pública.

Porque perder faz parte do jogo. O futebol é também feito de derrota, tropeço, acaso, erro, surpresa e injustiça. O problema não é perder. O problema é perder por inanição competitiva. Perder por ausência de fome. Perder por descaso. Perder sem dar a impressão de que a derrota doía.

Esse Brasil parece ter desaprendido uma verdade básica: talento sem entrega é ornamento.

Durante décadas, a camisa amarela simbolizou mais do que técnica. Simbolizou invenção, sim, mas também coragem, personalidade, enfrentamento, alegria combativa, capacidade de decidir sob pressão. O Brasil já foi o país que transformava o improviso em linguagem. Hoje, em muitos momentos, parece ter transformado o improviso em desculpa para não trabalhar.

A diferença é brutal.

Improviso, quando nasce de repertório, é arte.
Improviso, quando nasce de preguiça tática, é irresponsabilidade.

A seleção brasileira masculina parece acreditar que a superioridade técnica resolverá o que o treinamento não resolveu. Que o drible individual corrigirá a falta de triangulação. Que o talento isolado compensará a ausência de compactação. Que uma arrancada salvará a falta de ideias. Que um lampejo de estrela dispensará a construção de equipe.

Mas futebol moderno não perdoa soberba disfarçada de confiança.

A história está cheia de seleções menos talentosas que venceram porque entenderam o jogo como compromisso coletivo. A Grécia de 2004 não tinha os maiores craques da Europa, mas tinha plano, disciplina, entrega e uma fé tática quase militar. A Itália de 1982 começou desacreditada e terminou campeã do mundo porque soube sofrer, competir e crescer dentro da adversidade. A Alemanha de 2014, que nos impôs a maior humilhação de nossa história, não tinha onze artistas soltos em campo. Tinha método, repetição, ocupação de espaço, mentalidade coletiva e uma máquina preparada para punir qualquer seleção que confundisse camisa com argumento.

E se quisermos falar do próprio Brasil, basta lembrar de 1994.

Aquela seleção não era a mais encantadora da nossa história. Foi criticada, cobrada, questionada. Mas era uma equipe. Sabia o que fazia. Tinha solidariedade, equilíbrio, recomposição, sacrifício e liderança. Romário brilhava, Bebeto decidia, mas havia Dunga, Mauro Silva, Aldair, Márcio Santos, Taffarel, Jorginho, Branco. Havia gente disposta a fazer o trabalho invisível para que o talento aparecesse.

Em 2002, a história se repetiu de outro modo. Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho eram gênios, mas não jogavam sozinhos. Havia estrutura. Havia encaixe. Havia laterais que agrediam, volantes que sustentavam, zagueiros que competiam e um time que entendia seus caminhos. A estrela existia, mas a equipe a carregava.

O Brasil atual parece ter invertido a lógica: quer que a estrela carregue a equipe.

Só que estrela demais, quando não há constelação, vira clarão perdido no escuro.

O que se viu contra a Noruega foi mais do que uma derrota. Foi uma exposição de caráter competitivo. Uma seleção sem urgência. Sem fome. Sem constrangimento. Sem aquela raiva mínima de quem entende que vestir a camisa brasileira deveria significar mais do que aparecer em fotografia oficial, publicar bastidor, acumular seguidores e alimentar cortes para redes sociais.

Há algo de profundamente incômodo nessa geração.

Ela parece mais treinada para a estética da carreira do que para a dor do jogo. Mais preparada para o Instagram do que para o gramado. Mais confortável na construção da própria imagem do que na destruição das resistências adversárias. É um elenco que posa melhor do que pressiona. Que comunica melhor do que compete. Que se apresenta como produto antes de se confirmar como time.

E aqui não se trata de demonizar rede social, juventude, dinheiro, fama ou marketing pessoal. O mundo mudou. O atleta contemporâneo é também marca, mídia, empresa e produto. Mas há uma ordem que não pode ser invertida: primeiro se joga bola; depois se publica a glória. Primeiro se compete; depois se celebra. Primeiro se honra a camisa; depois se monetiza a imagem.

Quando a aparência passa a preceder a entrega, o futebol cobra.

E cobra em público.

A Noruega venceu porque pareceu saber o que queria. O Brasil perdeu porque parecia esperar que alguma coisa acontecesse. E esse é talvez o retrato mais cruel da seleção atual: ela não conduz o jogo; ela aguarda uma solução. Não impõe uma ideia; espera uma inspiração. Não constrói uma vitória; torce por uma ocorrência.

Isso não é futebol de seleção brasileira. Isso é fé preguiçosa no acaso.

É verdade que o Brasil sempre teve improviso. Mas o improviso brasileiro era fertilidade, não fuga. Garrincha improvisava porque via o jogo por uma fresta que ninguém mais enxergava. Pelé improvisava porque dominava todos os fundamentos antes de quebrar todos os padrões. Zico improvisava com inteligência. Ronaldinho improvisava com intimidade. Neymar, em seus melhores momentos, improvisava porque transformava desequilíbrio em ruptura.

Mas improviso sem base, sem treino, sem equipe, sem repetição e sem entrega vira pelada de luxo.

E pelada de luxo pode até gerar cortes bonitos, mas não sustenta uma seleção.

O futebol internacional já entendeu há muito tempo que talento precisa ser organizado. Que intensidade também é linguagem. Que pressão pós-perda é argumento. Que ocupação de espaço é inteligência. Que recomposição defensiva é respeito. Que jogar sem a bola também é jogar. Que correr pelo outro não é humilhação; é pertencimento.

O Brasil ainda parece preso à fantasia de que, em algum momento, o “talento natural” resolverá tudo.

Não resolverá.

A superioridade técnica brasileira, quando existe, já não é abismo. O mundo aprendeu. A Europa formou jogadores fisicamente fortes, taticamente maduros e tecnicamente suficientes. A África entrega potência, intensidade e talento. A Ásia evoluiu em disciplina e velocidade. Seleções médias hoje sabem marcar, pressionar, estudar, neutralizar, explorar transição e castigar distrações.

Enquanto isso, o Brasil muitas vezes ainda parece achar que basta ser Brasil.

Não basta.

A camisa pesa, mas não corre.
A história emociona, mas não marca.
As cinco estrelas intimidam menos quando os onze em campo não demonstram vontade de acrescentar a sexta.
A tradição inspira, mas não substitui treino, vergonha na cara, plano e espírito coletivo.

O mais grave é que esse elenco jamais pareceu equipe. Parece reunião de bons jogadores com agendas próprias. Parece soma de carreiras, não comunhão de propósito. Parece vitrine, não vestiário. Parece coleção de talentos tentando preservar valor individual enquanto a seleção se desvaloriza como instituição simbólica.

E isso é doloroso porque a seleção brasileira não é apenas um time. Ela é memória nacional. É infância, família, rádio ligado, rua pintada, camisa no varal, domingo impossível, quarta-feira de nervos, pai chamando filho para ver o jogo, avô lembrando Pelé, gente que não entende de tática mas entende de pertencimento.

Quando a seleção joga sem vontade, ela não decepciona apenas torcedores. Ela agride uma memória coletiva.

A derrota para a Noruega, portanto, não deveria ser tratada como acidente. Deveria ser lida como sintoma.

Sintoma de uma geração que precisa reaprender a jogar junto.
Sintoma de uma estrutura que talvez esteja formando atletas mais valiosos do que comprometidos.
Sintoma de uma cultura que confundiu visibilidade com grandeza.
Sintoma de uma seleção que parece ter perdido o incômodo de perder.

E quando perder deixa de constranger, o abismo já começou.

O Brasil não precisa apenas de escalação. Precisa de cobrança. Não precisa apenas de técnico. Precisa de pacto. Não precisa apenas de talento. Precisa de fome. Não precisa apenas de craques. Precisa de homens dispostos a jogar como se a camisa tivesse peso, história e consequência.

Porque teve um tempo em que o adversário podia até ganhar do Brasil. Mas precisava sobreviver ao Brasil.

Hoje, em certos jogos, basta esperar o Brasil desistir de si mesmo.

E o sonho acabou.
Acabou para quem sonhou.

Para quem ainda acreditava que a camisa resolveria sozinha.
Para quem ainda esperava que o talento individual bastasse.
Para quem ainda confundia elenco com equipe.
Para quem ainda achava que a seleção brasileira entraria em campo carregando, por osmose, a grandeza dos que vieram antes.

A grandeza não se herda.
A grandeza se honra.

E essa seleção, jogando como jogou, não honrou.
Apenas compareceu.

E comparecer, para o Brasil, nunca deveria ser suficiente.