O Rio sempre teve uma relação afetiva com o cinema.
Antes dos shoppings, das salas multiplex e das experiências tecnológicas vendidas como espetáculo, havia os cinemas de rua, os grandes letreiros, as estreias esperadas, as filas, os encontros na porta, o ritual quase solene de entrar numa sala escura para ver o mundo se abrir numa tela maior que a vida.
A cidade conheceu salas famosas, algumas quase míticas, que não eram apenas lugares para assistir a filmes. Eram pontos de encontro, extensão da vida urbana, parte da memória cultural carioca. Depois, como quase tudo, o cinema também mudou. As grandes salas foram dando lugar a novos formatos, novas tecnologias, novas promessas de imersão.
Entre elas, o IMAX: uma sala projetada para oferecer imagem maior, som mais potente e experiência cinematográfica superior.
Em tese.
Porque, no Rio, às vezes, até a alta tecnologia parece passar por um processo de “adaptação local” difícil de explicar sem alguma dose de constrangimento.
A cena é quase simbólica: a única sala IMAX disponível no nosso já sofrido “hell de Janeiro” apresenta uma mancha visível na tela durante toda a projeção. Não uma sutileza percebida apenas por olhos excessivamente exigentes. Uma mancha mesmo. Incômoda. Presente. Atrapalhando a experiência.
E aqui não se trata de preciosismo.
Numa sala comum, uma tela manchada já seria descuido. Numa sala IMAX, pelo valor do ingresso e pelo padrão prometido, é algo ainda mais difícil de aceitar. Porque quem paga por uma experiência premium não está pagando apenas pelo filme. Está pagando por imagem, som, conforto, tecnologia, cuidado e entrega compatível com a promessa feita.
O problema é que o Rio desenvolveu uma estranha tolerância com o “quase”.
Quase funciona.
Quase entrega.
Quase está conservado.
Quase corresponde ao preço.
Quase respeita o cliente.
E esse “quase” vai se espalhando pela cidade como se fosse parte inevitável do cotidiano. Está no ar-condicionado que não dá conta, no elevador que vive em manutenção, no atendimento que trata o cliente como favor recebido, no banheiro de restaurante turístico sem cuidado, no hotel que vende vista paradisíaca e entrega manutenção cansada, no transporte que promete frequência e oferece incerteza, no serviço que cobra como experiência e entrega como improviso.
O Rio é uma das cidades mais bonitas do mundo. Talvez por isso, muita gente pareça acreditar que a beleza natural compensa qualquer displicência humana. Como se a paisagem absolvesse a má prestação de serviço. Como se o Pão de Açúcar, o Corcovado, a Lagoa, o mar, a floresta e a luz da cidade fossem suficientes para encobrir o descuido de quem cobra caro e entrega pouco.
Não são.
A beleza do Rio deveria aumentar nossa responsabilidade, não diminuí-la.
Uma cidade turística não pode viver apenas daquilo que a natureza lhe deu. Precisa cuidar daquilo que promete. Precisa entregar o que anuncia. Precisa entender que experiência não é discurso publicitário; é percepção concreta do cliente, do morador, do visitante, do espectador, do passageiro, do hóspede, do consumidor.
O carioca aprendeu a rir de muita coisa. Isso é virtude. Mas também pode virar armadilha. Quando rimos demais do descuido, ele deixa de causar vergonha. Quando naturalizamos o malfeito, ele passa a fazer parte da paisagem. Quando aceitamos pagar mais por serviço de menos, ajudamos a consolidar um padrão ruim como se fosse inevitável.
Não deveria ser.
Uma mancha na tela do IMAX talvez pareça apenas um detalhe. Mas detalhes contam histórias. E, nesse caso, contam uma história incômoda sobre a forma como certos serviços são tratados no Rio: com pouca manutenção, pouca vigilância, pouca ambição de excelência e uma confiança excessiva na paciência do consumidor.
O curioso é que não estamos falando de luxo. Estamos falando de respeito à entrega.
Se a proposta é simples, que se entregue bem o simples. Se a proposta é premium, que se entregue o premium. O que não dá é vender experiência de primeiro mundo e tratar o detalhe como se estivéssemos pedindo demais.
Porque não estamos.
Queremos apenas que a tela esteja limpa.
Que o som funcione.
Que o atendimento respeite.
Que o serviço corresponda.
Que o preço encontre alguma justificativa na entrega.
No fim, talvez o problema não seja apenas uma sala de cinema com uma mancha na tela. Talvez seja uma pequena metáfora carioca: a cidade segue linda, desejada e cinematográfica, mas insiste em permitir que o descuido apareça bem no meio da projeção.
E aí, por melhor que seja o filme, fica difícil fingir que não estamos vendo.

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